quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Por que Diluir a Tinta a Óleo

Ao longo dos anos percebemos que a maioria dos pintores brasileiros e portugueses fazem uso do solvente e do óleo de linhaça em suas pinturas. Surpreendentemente a grande maioria nem sabe explicar o por que do uso desses materiais. Uma pesquisa na internet mostra que não há material em lingua portuguesa que ofereça uma explicaçao objetiva sobre o por que do uso desses auxiliares. Esse artigo foi escrito para suprir essa carência.

Nesse texto, encontraremos diversas vezes a palavra auxiliar. Trata-se do nome que se dá a todos os materiais que saem da esfera dos "materiais básicos" ou "fundamentais". No caso desse artigo, são líquidos que misturados a tinta modificam seu comportamento.


1. Natureza do Meio
A maioria dos pintores escolhem trabalhar com a tinta óleo por que desejam aproveitar de sua natureza "matérica", isto é, fazer uso de sua opacidade e substância, diferente das tintas aquosas que são líquidas e transparentes. Ela é de forma geral usada com mais corpo e de maneira a "cobrir" o suporte e não diluída.

Embora possamos argumentar que, o artista é quem decide com qual tipo de "pasta" deseja trabalhar, é justamente essa diferença entre a tinta óleo e as tintas de meio aquosos que atrai os pintores: sua pastosidade e opacidade.


2. DILUIÇÃO
2.1. Diluir ou Nao?
A primeira razão de se usar auxiliares como a terebintina e o óleo de linhaça diluídos a tinta é óbvio: eles modificam sua consistência para um estado mais líquido

É comum observar nos ateliês e escolas de pintura brasileiras: o aluno, antes de dar uma pincelada na tela, mergulha o pincel num godê contendo uma mistura de solvente e óleo de linhaça. A questão é que a grande maioria dos artistas fazem uso dos auxiliares no Brasil por que herdam esse hábito de seus professores ou por que viram algum colega diluindo suas tintas, mas nem sabem por que o fazem. 

Note que a diluição não é necessária, sobretudo se o artista quer fazer uso das características naturais da tinta óleo. 

Se o artista opta pelo uso de uma estética ou aparência mais líquida em suas obras, ou se tem preferência em facilitar o arrastar da tinta, então recomenda-se a diluição da tinta. Portanto, se o artista faz uso de uma tinta impastada e opaca, não há necessidade de diluição.

A diluição deve ser feita para alcançar as características definidas a seguir. Se você não sente necessidade de aumentar as características definidas abaixo, seja por necessidade estética ou processual, não há por que diluir sua tinta. Leia mais sobre isso em nosso artigo "Pintando sem Solvente", clicando aqui.


2.2. "Melhorando" o Alastramento por Diluição
Se o artista sente que sua tinta não tem um alastramento ideal, isto é, sente dificuldade em espalhar sua tinta de modo que o processo se torna complicado ou a estética mostra-se indesejada. a adição de auxiliares mudará a característica de como a tinta se espalha no suporte, criando facilidade de aplicação.

É importante notar que, para melhorar o alastramento através da diluição, não é necessário diluir com grandes quantidades de auxiliares. É sempre melhor adicionar pequenas quantidades de algum auxiliar, aos poucos, até que se atinja a pastosidade desejada, apresentando alastramento e estética adequadas.

Uma forma comum de liquefazer a tinta óleo, é misturar um pouco de solvente a tinta, quando se está começando a pintura, para que a tinta mais liquida possa servir melhor como ferramenta que "desenha" linhas iniciais.


Alguns dos muitos solventes importados


2.3. Nivelamento por Diluição
Alguns artistas precisam de uma estética na qual a tinta se deposita de forma menos densa, sem formar uma pasta ou impasto na superfície da tela. Ao diluir moderadamente a tinta com um auxiliar, temos o fenômeno de nivelamento: isto é, as particulas de pigmento atravessam a massa mais liquefeita pelos auxiliares, fazendo a tinta assentar de modo mais uniforme sobre a superfície de pintura, sem criar texturas, criando uma pasta mais lisa, ou mais nivelada.

Essa pratica é amplamente usada para conseguir grandes áreas de cor uniforme e lisa numa obra. É geralmente usada para conseguir uma estética contida e sem marcas, assim como nos períodos do gótico e do renascimento. Deve ser usado por todo pintor que não deseja deixar marcas, impasto ou textura na tinta.


2.4. Definição por Diluição
Quando se adiciona algum auxiliar que liquefaz a tinta, é possível desenhar linhas e causar marcas que descrevem pinceladas mais recortadas e definidas, pois a tinta não precisa ser esfregada em demasia no suporte, pois com a presença dos auxiliares ela desliza sem borrar

Portanto, não há efeitos de difusão nas bordas quando a tinta se torna mais líquida, mas efeitos de vincos marcados ou recortados com cada pincelada, uma maior definição das marcas. É por isso que a adição de auxiliares a tinta é o melhor meio para se fazer linhas. Se o artista deseja formas e marcas definidas, corajosas e demarcadas, a adição de um pouco de auxiliar pode ajudar.

Para criar marcas de respingo ou tinta espirrada, é necessário que a tinta deixe sua condição de pasta e adquira consistência mais líquida ainda através da adiçao de auxiliares, ou uma super-liquefação.


2.5. Aumento da Transparência por Diluição
Outra característica da tinta que pode ser modificada com adição de algum auxiliar é sua transparência. Quando adiciona-se um auxiliar a tinta, aumentamos a quantidade de veículo e sua quantidade de carga inerte dilui-se no veiculo. Isso faz com que a tinta fique mais transparente, Dessa forma, é possível conseguir maior transparência de tintas que já são transparentes assim como tornar transparentes tintas que são opacas. Desta forma, pode-se trabalhar cores em camadas transparentes ou semi-transparentes, fazendo com que os estágios que estão embaixo fiquem visíveis através dos estágios de cima, criando uma interessante interação de transparência entre diferentes cores e camadas.

Como exemplo, é comum a diluição de tintas com solvente, no início da pintura, para que se obtenha uma primeira camada "lavada", transparente e executada com grande facilidade de alastramento, sem que o auxiliar modifique a secagem da tinta.


3. TIPOS DE AUXILIARES
Existem alguns auxiliares que podem ser adicionados a tinta para conseguir as características de diluição citadas acima. Definiremos os dois auxiliares mais usados na pintura, o solvente e o óleo vegetal.


3.1. Solvente
Quando diluí-se a tinta com solvente, temos a facilidade de alastramento permanecendo por curto período de tempo na tinta. O solvente evapora após alguns minutos, sem deixar rastros. Todo solvente é uma substância volátil, portanto, depois que o solvente evapora, o alastramento da tinta volta a seu alastramento original e a tinta continua a secar em seu ritmo natural

Portanto, o solvente não haje diretamente na secagem da tinta. Sendo assim, o solvente deve ser usado por artistas que possuem um processo rápido e dinâmico para quais um alastramento ou diluição breve é mais que suficiente. 

Para entender mais sobre solventes e todos os produtos voláteis usados na pintura a óleo, leia nosso artigo que trata sobre solventes clicando aqui.


Diferentes óleos vegetais da marca Winsor & Newton


3.2. Óleo Vegetal
Existem diversos óleos vegetais usados na pintura sendo o óleo de linhaça o material mais usado. Para saber mais sobre isso, clique aqui e leia nosso artigo "óleo de linhaça vs. óleo de nozes".

Quando diluí-se a tinta com óleo, temos a facilidade de alastramento permanecendo por longo período de tempo na tinta. Ao contrário do solvente, o óleo vegetal faz com que a tinta seque muito mais devagar e fique líquida por um grande período. Quanto maior a presença de óleo vegetal, maior é o tempo que leva para secar. 

Se sua técnica de pintura é mais direta e dinâmica, o solvente é uma opção melhor para você. Se o artista possui necessidade de ter mais tempo para mesclar as cores, possibilitando gradientes macios e uma interação maior entre as cores enquanto essas ainda estão molhadas, o óleo de linhaça é um auxiliar ideal para isso.

É importante lembrar que uma quantidade exagerada de óleo de linhaça, ou qualquer outro óleo vegetal, traz inúmeros malefícios a pintura, entre eles, amarelamento excessico do filme pictórico, estensão em demasia da secagem tinta, qua acarreta na adesão de poeira e resíduos que estão no ambiente até casos mais graves de enrugamento ou escorrimento da superfície. A adição de óleo também aumenta o brilho da película pictórica final.

Portanto, a adição de óleo a tinta deve ser sempre feita em pequenas porções, sendo ideal que haja maior quantidade de tinta do que de óleo, sempre.


3.3. Mistura de Auxiliares
Há ainda a possibilidade do uso de uma misturas de auxiliares, amplamente difundido nos ateliês. É basicamente a mistura em diferentes proporções entre solvente e óleo vegetal, que são misturados num godê. A proporção mais usual é a de 50% de solvente para 50% de óleo vegetal.

A mistura não é exatamente útil para quem faz uso exclusivo da terebintina como forma rápida e dinâmica para se começar um trabalho que será pintado de forma mais direta, mas oferece benefícios para aqueles que desejam adicionar óleo a tinta como forma de promover uma maior estensão da secagem ao mesmo tempo que melhora o alastramento. A vantagem do uso da mistura para esses pintores, é que, faz-se uso de uma menor quantidade de óleo misturado a tinta.


4. CONCLUSÃO
Embora ambos os auxiliares citados nesse artigo possam ser usados como adições para diluir a tinta a óleo, é fundamental que o artista lembre-se das seguintes premissas: a diluição é opcional, a não ser que o artista necessite modificar o corpo da tinta, ou sua secagem, para que a mesma comporte-se de acordo com as características discutidas acima. De maneira geral o excesso de solvente não representa tantas ameaças a integridade da obra como quando faz se o uso de óleos vegetais, principalmente quando esse é usado em grandes quantidades. Portanto, é preferível que se faça uso de solventes no lugar do uso exclusivo de óleos vegetais para a diluição, ou no mínimo, o uso de uma mistura de solvente e óleo para aqueles que desejam estender a secagem em maior tempo e criar degradês mais macios.

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BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
MITRA; Materials Information & Technical Resources for Artists; 2020.

10 comentários:

  1. Muito bpm o artigo, não havia nunca pensado dessa maneira. Simplesmente usava por que meu professor usava.

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    1. É o quadro mais encontrado no Brasil, o professor passa o hábito para o aluno que nao questiona o uso do material. Abraço!

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  2. Nunca ninguem me explicou de modo tão claro para o que serviam esses materiais. Obrigado. Também usava por que todo mundo usa.

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  3. Muito bom o artigo. Gosraria que você  falasse sobre um outro tipo de solvente, ou medium. Trata-se do putty medium, um medium de impasto feito a base de carbonato de cálcio e óleo  de linhaça espessado ao sol, ou um blend de óleos.
    O pintor e pesquisador americano Tad Spurgeon tem pesquisas e receitas sobre a massa de carbonato de cálcio. Ele mesmo usa,  ao que me parece, somente a massa adicionada a tinta conseguindo assim diferentes texturas e efeitos. Suas pesquisas também citam estudos das obras de Rembrandt assim como o livro: Rembrandt art in the Making, que comprovaram a existência de carbonato de cálcio nas obras de Rembrandt e outros mestres da época.
    Gostaria que deixasse mais claro o assunto

    Muito obrigado
    Luciano Cortopassi

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    1. Olá Luciano! Eu falei um pouco sobre o putty medium nos comentários do artigo "Quantidade de Medium", em 2011. Me correspondi durante alguns anos com Tad Spurgeon e conheço bem sua pesquisa, assim como seu livro "The Living Craft". Vou reproduzir aqui o que escrevi no artigo de 2011:

      "O Putty, ou a adição de cargas derivadas de calcite junto com óleo trata-se de uma mistura muito parecida com a concatenação da própria tinta óleo, portanto, pode se misturar com medidas maiores que os 20%, sem nenhum problema. É um material que naturalmente possui baixa opacidade, portanto confere sim mais transparência."

      A massa de putty funciona como adição a tinta, aumentando sua carga e produzindo um certo impasto dependendo da receita que estiver sendo usada. Existem vários modos de fazê-lo, usando os mais diferentes veículos somados a uma carga de calcite. As diferentes proporções entre veículo e carga inerte produzem diferentes pastosidades. Um adendo no entanto: o putty medium NÃO é um solvente, não é usado para diluir, mas como um espessante.

      Vários livros de Van de Wetering citam o uso do material por Rembrandt, embora não em todas as tintas e sim mais presente nas bases, imprimaturas e nos brancos. Há indicios da presença do mesmo material nas obras de Velasquez.

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  4. Márcio, muito obrigada pelo texto esclarecedor, pois às vezes é em relação aos temas mais básicos que as coisas se tornam mais nebulosas. Na graduação em Artes Visuais que frequentei, em geral as aulas de pintura raramente abordavam aspectos técnicos, infelizmente, e mesmo nas pesquisas em livros e sites sempre tive alguma insegurança em usar as informações que obtinha, sempre ficava incerta do que fazer. O resultado disso é que até hoje tenho medo de fazer algo que possa deteriorar precocemente minhas pinturas, especialmente no caso de o trabalho ser vendido, e posso dizer que é acompanhando o seu site que tenho conseguido deixar o medo de lado, pois as informações que encontro aqui me ajudam a tomar decisões mais conscientes. Muito obrigada!

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    1. Agradeço imensamente por seu comentário. Quando me formei em Artes Visuais também tive uma experiência como a sua. A idéia desse site era justamente suprir essa carência. Grande abraço!

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  5. OlÁ! Não sou artista, mas pesquisando muito descobri que o chamado diluente Ecosolv trata-se de isoparafina - encontrei por 12 reais o litro. Dessa maneira, espero contribuir com o conhecimento de vocês e os seus bolso$.

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    1. Olá anônimo. O Ecosolv não é um material de pintura tradicional, por isso nunca estudei a fundo suas propriedades. É bom ter mais informações. Agradeço por contribuir!

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