terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Pintura Contemporânea: Nova Figuração

A Cozinha da Pintura disponibilizou 56 artigos que podem ser acessados gratuitamente (menu do canto esquerdo), todos eles sobre questões ligadas as funções e propriedades de materiais de pintura ou técnicas pictóricas. Esse artigo, foge um pouco de tudo que foi disponibilizado antes. 

Desde o ano passado, a Cozinha vem planejando escrever artigos que ofereçam insight não somente nas questões da práxis material, mas como em questões pertinentes ao fazer artístico no âmbito conceitual. O artigo abaixo é o esboço introdutório a essas questões, que tratam não somente de como pintar, mas também do o que pintar.  

O Estado Anterior
Desde o começo de nossa jornada, participamos de uma longa lista de eventos, atividades e grupos comprometidos com o estudo da pintura: um curso de bacharelado e um curso de pós-graduação, inúmeras oficinas e cursos livres em instituições públicas, particulares e ateliês. Workshops, seminários, palestras e congressos sobre artes visuais, além da frequente presença em museus, galerias, espaços expositivos. No mundo virtual, participamos de forúms e grupos de redes sociais, brasileiros e estrangeiros. Procuramos estudar tanto as formas mais antigas de processos pictóricos, com seus diferentes rótulos pertinentes a diferentes círculos, quanto as mais recentes, desde os processos da antiguidade tardia, passando por todos os movimentos artísticos, até a pintura contemporânea. Durante nosso longo contato com os grupos de pintura acadêmica percebemos a existência de uma aversão pela arte contemporânea. 

A insatisfação dos pintores clássicos se deve a infeliz existência de obras contemporâneas duvidosas, com aparente falta de competência, ou pior, transparecem oportunismo, por parte de artistas, curadores, críticos e galeristas. Além do mais, o circuito contemporâneo ignorou, por muito tempo, não só os trabalhos de pinturas realistas mas como qualquer coisa de natureza figurativa. Entre os pintores acadêmicos a opinião sobre a arte contemporânea é a mesma: "a arte contemporânea é uma mentira, os artistas de hoje não sabem pintar, é pura retórica". Esse discurso nos é mais do que familiar, e em parte, é preciso cobrí-lo de razão

Mas, pedimos que hoje, coloquem o preconceito de lado. Em primeiro lugar, é preciso cuidado para que essas máximas radicais contra a arte contemporânea não se tornem uma desculpa para que o artista permaneça numa zona de conforto, fincado dentro do círculo acadêmico, com a velha bravata de que o realismo é a "única e verdadeira forma de pintura". Essas desculpas nos fazem continuar caminhando na mesma direção, sempre pintando exatamente do mesmo modo, sem dar chance a novas possibilidades, ignorando as mudanças que se passam ao nosso redor. 

Nova Figuração
É perfeitamente compreensível execrar os trabalhos de arte contemporânea de má qualidade mas não é possível ignorar que assim como em toda atividade profissional, há espaço para todo o tipo de profissional. Em qualquer área encontramos tanto material de baixa quanto de alta qualidade. Mesmo dentro dos "ateliês de pintura realista" há pintores de todo o tipo, desde ingênuos, relapsos até os mais dedicados e incrivelmente habilidosos. O mesmo pode ser dito da arte popular, do artesanato, da grafite, da arte urbana e da arte contemporânea de grandes galerias. Se voce já tentou fruir algo interessante nas galerias contemporâneas e não encontrou, foi por que procurou nos lugares errados.



Pintura de Lucian Freud
Pintura de Jenny Saville

Em segundo lugar, sim, o anterior estado da arte contemporânea afastou permamentemente uma parcela de seu público em potencial, principalmente aqueles que acreditam que pintar bem é fundamental. Mas, procurando nos lugares certos, é perceptível que esse mercado mudou, oferecendo espaço não só a trabalhos figurativos mas como a pinturas com base no naturalismo. Há hoje uma nova geração de pintores com trabalhos figurativos de grande profundidade intelectual e técnica. Continuar ignorando esse mercado pode ser um grave erro, pois ele nos oferece novas possibilidades, ampliando o leque artístico e mercadológico. 

Para aqueles que continuam acreditando que somente uma volta ao passado, na pintura de cavalete acadêmica, encontraremos um caminho, aqui vai uma sugestão: dê uma nova chance aos circuitos alternativos e fique atento, a pintura vive um momento MUITO interessante: há espaço para tudo. É preciso superar o mito de que não há espaço para a pintura figurativa, pois isso é apenas um sussurro fantasmagórico dos anos setenta. Há um espaço de qualidade para a pintura figurativa sim, mas lembre-se que, as galerias que ainda estão com o pé no passado, trabalhando com artistas e temáticas tradicionais não pertencem a esse nicho

As galerias que lidam com uma nova figuração são aquelas que mostrarão os trabalhos mais interessantes que estão pavimentando o futuro da pintura figurativa. Resta apenas ao pintor, levantar-se, mudar seu pensamento e merecer ser representado. Enquanto todos reclamávamos cabisbaixos, a tão sonhada popularização do olhar ao passado aconteceu, foi assimilada, aceita, incorporada, passou por todos nós e nesse exato momento, muda mais uma vez, adquirindo novas formas


Pintura de Kent Williams

Pintura de Nicolas Uribe
Pintura de Dario Puggioni

Fazendo a Diferença
Produzir uma obra contemporânea significa dar possibilidade para o observador refletir sobre uma questão estética, filosófica ou social. É ter verdadeiramente algo a se dizer, contribuindo de maneira mais ampla e abrangente com uma obra de arte, e não apenas reproduzir de modo automático aquilo que o pintor vê. Uma pintura que almeja parecer uma foto, totalmente descritiva, é um caminho impessoal. É necessário que o pintor mostre que ele não é uma mera máquina reprodutiva, mas um ser pensante, colocando em sua obra algo idiossincráticodele



Pintura de Michael Borremans
Pintura de Antony Micallef

Se voce entendeu que é necessário abandonar o estudo da pintura tradicional, afastando-se do naturalismo, leia de novo! Não é preciso desconstruir totalmente uma linguagem e pintar como Picasso para compor uma obra figurativa contemporânea, assim como não é necessário evitar a figuração. O uso dos princípios do naturalismo e da pintura clássica podem e devem constituir a fundação da nova pintura, mas, permanecer na área de conforto meramente descritiva, também não é o caminho. É preciso ir além e encontrar um ponto de equilíbrio: usar a base clássica, colocando algo seu, idealizado, além de abraçar uma reflexão plástico-conceitual. 

Em todas as imagens usadas nesse artigo, é exatamente isso que se observa. É justamente essa fusão que torna possível uma nova figuração. Além de uma comunicação entre o novo e o velho, percebemos nessas obras um conteúdo reflexivo, desenvolvido para gerar trabalhos que dialoguem com o que vivemos, expondo algo significativo sobre a história do próprio artistaoferecendo uma visão expressiva pessoal (sui-generis) que somente esse artista pode oferecer.

Afinal, é exatamente isso que os Mestres do passado também fizeram: Rembrandt, Tizziano, El Greco, Velasquez e Goya ousaram sair de sua zona de conforto e arriscaram colocar algo seu, quebrando as regras. Esses pintores nunca acreditaram que era necessário seguir as regras de uma pintura mimética e naturalista, estritamente acadêmica, deram o próximo passo, almejando criar algo novo, contemporâneo.


Pintura de John Currin

Pintura de Odd Nerdrum

Mas, produzir obras com esse tipo de densidade não se faz de um dia para a noite, é preciso embrenhar-se numa pesquisa. Num sentido mais abrangente, uma pesquisa não significa apenas um debruçamento físico em material filosófico, mas estar atento a vivências investigativas e a posturas reflexivas que irão fertilizar o caminho criativo. O material angariado nessa pesquisa levará o artista a um ciclo de experimentações, que podem mostrar mais tarde, potencial para revelar um caminho em direção a uma poética mais definida.  

Há uma diferença esmagadora entre os pintores que simplesmente copiam com fidelidade a realidade e aqueles que oferecem um trabalho de profundidade plástico-conceitual.  A começar por seu lugar mercadológico: os pintores que possuem uma pintura significativa para a contemporaneidade pertencem a galerias de perfil completamente diferente a dos pintores figurativos clássicos, e percorrem um circuito completamente diferente. Por mais bem executada ou realista que uma pintura seja, elas compreensivelmente não se encaixam ao lado de pinturas insufladas de conceito, os artistas, o público, os galeristas e as cifras são próprias de um outro circuito. 

Portanto, todo artista deve levar em consideração qual tipo de postura deseja seguir: permanecer dentro do limite de reproduzir com fidelidade aquilo que se vê, ou oferecer uma reflexão acerca do que significa pintar o hoje, sua visão imagética pessoal

Abaixo, algumas obras de alunos (e ex-alunos) da Cozinha da Pintura que já estão sendo representados por galerias ou despontando no mercado de arte figurativa contemporânea.


Pintura de Bruno Abreu - Aluno da Cozinha da Pintura
Pintura de Bruno Passos - Ex-aluno da Cozinha da Pintura

Pintura de Giulia Bianchi - Ex-aluna da Cozinha da Pintura

Pintura de Filippe Lyra - (ex-aluno) Professor da Cozinha da Pintura


Pintura de Rodrigo Branco - Aluno da Cozinha da Pintura

PS: Recebo e-mails e tenho contato com alunos e artistas que parecem confundir alguns modos de pintura, usando certas terminologias mas com outros conceitos em mente. Uma das mais constantes é entender como hiperrealista um trabalho que é apenas realista ou que na verdade mostra até certo grau de idealização. A confusão gera certos problemas quando tentamos discutir tudo o que foi exposto no artigo acima, principalmente quando os artistas almejam e tentam defender uma busca pelo hiperrealismo mas usam o termo realismo. O artigo divaga sobre o uso do realismo, defende o maior uso da idealização e questiona o hiperral.

Realismo. A figura é crível, com boa conexão a realidade.
Hiperrealismo. A figura se confunde com uma fotografia, com incrível conexão a realidade.
Idealismo. A figura é crível, baseada no real, mas mostra distanciamento da realidade.

Marcio Alessandri e Luciana Guilarducci

A SEGUIR:
Em nosso próximo artigo, os conceitos que sustentam uma pintura contemporânea. 


7 comentários:

  1. Muito legal o artigo! Realmente dá para se perceber um ressurgimento do interesse por uma base técnica sólida por parte dos pintores, basta ver o número crescente de alunos e da quantidade de cursos oferecidos nas escolas sérias aqui de SP. Acho fantástico e essencial isso pois, pessoalmente, acho que ficou um "gap" muito grande aqui no Brasil de um movimento de pintura que superasse o Modernismo, mas que mantivesse raízes sólidas nos preceitos da pintura clássica, retratando o momento presente. Vejo, e aqui talvez eu até vá um pouco longe na minha conclusão, isso como uma das causas da perda de interesse na pintura, em especial a com tratamento realista. Cabe a nós agora, pintores dessa nova geração, tentar diminuir esse "gap" e ao mesmo tempo subir o nível da pintura contemporânea. Que seja bem vindo o novo realismo brasileiro! ;-)

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  2. Bravissimo, Márcio. Discussão de primeira linha, com verdades que precisam ser espalhadas!

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  3. Caro Daniel, obrigado pelas palavras. Eu só deixaria de fora a palavra "realismo". Eu entendo que provavelmente voce não está se referindo a um hiperrealismo, ou pela busca de uma pintura perfeitamente mimética e naturalista, mas o termo "realismo" é usado e interpretado pelo grande público de um modo um pouco complicado. Segundo o texto, essa é exatamente uma das nossas atuais problemáticas que atrasam o próximo passo. Diria no lugar, "Que seja bem vinda a nova FIGURAÇÃO brasileira"! Um forte abraço!

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  4. Olá Marcio! Artigo incrível e muito pertinente, aprender o classico é fundamental, mas estacionar numa pintura representativa é estagnar o processo. Fico contente que uma nova geração está sendo orientada em seu ateliê. Está na hora do Brasil também ter representantes nas galeriais sérias de pintura contemporanea. Até!

    Igor Capellini

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  5. Passei seu artigo para meu professor de pintura e ele ficou horrorizado, kkkkkkkk. Ele não entendeu que a proposta não é jogar a tradição fora (mesmo que voce tenha frisado no texto), mas usá-la de forma pessoal, pensando também "o que se pinta" como diz o texto. Ele é um cara legal, mas eu acho que muita gente que se apaixona pela técnica não entende que há muito mais lá fora. Entendo isso, mas é realmente uma pena. Essa resistência é uma bobagem, quando tu pode mudar somente um pouco e criar algo mais interessante. Ele não quer dar nem um passo em busca de algo um pouco mais moderno, quer continuar a pintar exatamente como na antiguidade sem mudar nada. Até os modelos parecem figuras do barroco. Os artistas que tu apresentastes aqui são muito bons, diferente de tudo o que já vi por aí. Fiz uma pesquisa na galeria que representa os artistas que tu citas no artigo e encontrei outros trabalhos muito bons, é um novo ar em meio a tanta mesmice. Já conversei com a Luciana e pretendo começar o curso de pintura contemporânea esse mÊs. Obrigado e abraço!

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  6. Caro Marcio!Parabéns pelo excelente artigo!

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  7. Grande abraço, Miguel! Contente que tenha gostado!

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