quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O Preto e as "Cores de Lama"

A sugestão de se evitar o uso do preto na pintura encontra-se em livros e revistas que ensinam a pintar, além de compreender o conhecimento popular em ateliês e escolas de pintura. Geralmente aliada a essa sugestão, recomenda-se cuidado para que as cores não sujem, também referido no Brasil como lamear ou enlamear (sic) as cores. A origem do termo faz referência as cores terrosas, as vezes chamadas de cores de lama. Numa explicação mais ampla, costuma-se dizer que o pintor deve fazer uso somente de cores puras, evitando lamear seu trabalho. Portanto, seguindo esse conselho, cores terrosas e preto nem pensar.

O impressionismo é, de longe, o movimento artístico (na pintura) mais popular da história. São vários os motivos pelos quais o movimento permanece como um dos mais influentes até os dias de hoje, não sendo o caso, por hora, a discussão do por que, mas o fato de que notavelmente continua sendo a escola mais seguida e admirada pelo grande público e substantivamente pelos iniciantes em pintura, possuindo papel fundamental na questão, que exploramos a seguir.

Uma Herança do Impressionismo
É provavel que voce já tenha ouvido a célebre frase de que os impressionistas eram os pintores da luz. A máxima é uma frase de efeito construída para ilustrar um conceito como se fosse uma novidade, quando no entanto não se trata de algo inédito. A cor é luz, e todo pintor, independente de sua escola, constrói seu trabalho de acordo com os preceitos de funcionalidade da luz nos objetos a sua volta, é a matéria prima não só da pintura mas como da própria realidade. Categoricamente, todo pintor trabalha todo o tempo com o uso da luz.

É preciso ler as entrelinhas, a partir de um contexto mais íntimo sobre a história da pintura, para compreender o significado da frase: ela compreende uma maneira sutíl de comunicar um rompimento. Fundamentalmente, o impressionismo desejava subverter algumas regras acadêmicas, distanciando-se de tudo aquilo que era mais aparente numa pintura clássica. Nesse caso, o uso de cores de baixo croma e o uso abundante de preto, traços sempre presentes em pinturas acadêmicas, artifícios exaustivamente explorados principalmente no período barroco.


Paleta de Alto Croma

O sentido da frase pintavam a luz relaciona-se a uma intenção estilística de abandonar as cores "mortas" e da "atmosfera escura" da academia, sendo um alinhamento conceitual e político. É possível encontrar textos do auge do impressionismo que zombam da atmosfera das pinturas de tons marrons, dourados e escuros usados "no passado". Os pintores que aderiram a esse novo movimento substituiriam essas constantes pelo uso abundante de cores com valor alto (claras) e cores primárias (intensas).

Cores Terrosas (Muddy Colors)
As cores terrosas são chamadas pejurativamente nos países de língua inglesa de muddy colors (cores de lama), a versão em português lamear tem suas origens extraídas da literatura de pintura inglesa. Essas cores são usadas desde a grécia antiga, nos primórdios da pintura naturalista, com o uso de cores de baixa intensidade, ou de baixo croma, tornando-se mandatórias nas paletas de pintura pois eram exatamente as cores observadas na natureza.

Mas, é preciso salientar um ponto crucial. Embora algumas cores sejam feitas a partir de terras, fazendo alusão a cores mortas ou escuras, elas podem mostrar um alcançe cromático surpreendentemente intenso, quando aplicadas de modo transparente ou quando usadas ao lado de outras cores, numa composição que leve em consideração as leis de contrastes cromáticos explorados por Chevreul.

Portanto, é uma questão de entender e colocar em bom uso essas cores. As obras de Raphaello Sanzio e de seu mestre, Pietro Perugino, estão entre as centenas de exemplos dessa possibilidade. Note que as fotografias dessas obras não correspondem a verdadeira intensidade dessas pinturas quando vistas ao vivo, a fotografia não capta seu verdadeiro alcançe. Nesta época, nenhum dos pigmentos de altíssimo croma, usado pelos impressionistas, estavam disponíveis aos pintores, mas o efeito de intensidade é praticamente o mesmo, em alguns casos, até mais vibrantes.


Pietro Perugino; Trípctico do altar de Certosa; 1496-1500.

Pele
Na pintura da figura humana ou de retratos, para compor uma ilusão crível de pele humana, o uso das cores terrosas faz ainda mais sentido. O artista simplesmente fazia uso de cores que observava na superfície iluminada da pele, e nesse caso, a escolha dos pigmentos era sempre de cores terrosas, justamente para evitar ter de neutralizar cores muito intensas. Uma questão de praticidade: para obter um efeito natural, era mais fácil usar cores naturalmente mais neutras. Nínguem em sã consciência faria uso de cores berrantes para pintar uma figura, cores intensas tendem a produzir figuras que tomam larga distância da realidade. É preciso recorrer a cores "baixas" que já se assemelham aquelas observadas in loco.

Equilíbrio Cromático e Naturalismo
Há de se observar que, há momentos de se usar cores intensas e momentos de se usar cores terrosas. Em pinturas onde se deseja estabelecer algum vínculo com aquilo que se observa na natureza, é necessário um equilíbrio cromático. No caso de uma comparação específica entre o estilo acadêmico e o impressionismo, note que, independente do estilo, uma pintura exageradamente monocromática certamente será tão desequilibrada quanto uma pintura que faz uso de somente cores intensas. É exatamente isso que cria diversidade e torna o campo pictorico interessante. Isso é observável tanto nos estilos mais naturalistas quanto no impressionismo: o uso inteligente das cores e a segurança processual angariada da experiência.

Portanto, quando se diz que os Velhos Mestres só usavam cores de lama ou que os grandes impressionistas só usavam cores intensas, há certamente um exagero retórico. Os grandes mestres da antiguidade sabiam fazer uso de cores intensas, equilibradas por cores terrosas. Veja o laborioso contraste nos trabalhos de Van Dyck, Rubens e novamente Raphaello.


Rubens (esq.), Raphaello (centro) e Van Dyck (dir.)

Esses pintores sabiam alcançar um perfeito equilíbrio, assim como é verdade que os grandes impressionistas faziam pleno uso de cores terrosas. Portanto, a frase que sugere o uso exclusivo de cores mortas as escolas anteriores ou o uso exclusivo de cores puras aos impressionistas, tratam-se de frases de efeito com intuito de vender a idéia de que o estilo impressionista é superior as escolas anteriores, quando na verdade, trata-se apenas de diferentes estilos, que almejam diferentes efeitos. No entanto, como em qualquer outro estilo ou período, é possível encontrar pintores das mais diversas habilidades, sendo possível encontrar aqueles que dominam um equilíbrio cromático e aqueles com menos equilíbrio.

Neutralização com Cores Terrosas Vs Complementares
Talvez a única real novidade dos impressionistas tenha sido o uso de complementares para neutralizar as primárias e sescundárias, influência da obra de teoria de cores do norte americano Ogden Rood, "Modern Chromatics", na qual o conceito de cores complementares é definido de modo mais claro. Esse sistema de neutralização tornou-se tão popular pelos impressionistas que ainda é usado na maioria dos ateliês de hoje, embora existam outros sistemas em uso, amplamente dicutidos por pesquisadores e que possivelmente nos renderia um post mais longo do que esse.

Mas quando se faz uso somente de cores intensas, aumenta-se a dificuldade de equilíbrio e harmonia. Certamente a tarefa é possível, mas sem cores terrosas, é necessário executar maior quantidade de misturas, podendo tornar essa pratica um processo tedioso. Usar somente cores próximas as primárias e secundárias, sem neutralizá-las, é uma tarefa pouco prática.

Além disso, mesmo que os impressionistas quisessem trabalhar o tempo todo somente com cores puras, teriam maior dificuldade em neutralizar as cores, criando obras mais próximas ao que viríamos a chamar, mais tarde, de expressionismo. Embora o impressionismo tenha inovado ao representar o mundo fora do ateliê fazendo uso de mais cores intensas para representar aquilo que se observava, foi através do contraste e equilíbrio com as cores terrosas que estabeleceram um diálogo do novo a partir da tradição e do universal.

O uso do Preto
A pintura de cavalete clássica surgiu num cômodo fechado, o ateliê do artista. O estilo que conhecemos hoje como tenebrismo, enormemente popularizado por Caravaggio, colocou em voga o uso de um contraste ainda maior entre luz e sombra, com focos de luz que enaltecem dramaticidade da cena. Os impressionistas, impulsionados pelo desejo de rompimento, levam a pintura para fora do ateliê, pintando obras ao ar livre (plein air) fazendo cada vez mais uso de temáticas que representam ambientes exteriores, ou quando interiores, com maior quantidade de luz do que os ambientes da pintura antiga. É claro que, quando se pinta um ambiente externo, há muito mais luz. Portanto, não é de se espantar que o uso do preto seja menor e que os acadêmicos do período tivessem forte reservas quanto a pinturas mais claras.

No entanto, mesmo com maior presença de luz, há sempre sombras mais pesadas em algum setor. Podemos notar, não somente nos impressionistas que conservaram algum compromisso com o naturalismo, que o uso do preto continuou a ser amplamente usado e explorado. Dentre os exemplos mostrados aqui, Renoir e o grande mestre Degas. Na teoria, o conceito de que se deve evitar o preto é interessante, podendo nos prestar um bom serviço em termos de pensamento cromático. Mas, na prática, podemos observar que os impressionistas usavam tanto as cores de lama quanto o preto. 


Degas.

O único pintor do período que radicalizou esse trejeito estilístico, rumando para a total intensidade cromática (e que mesmo assim ainda fazia uso de terras e do preto em misturas) foi Monet. No entanto, é preciso lembrar que o mesmo compreende o exemplo mais radical do movimento, almejando explorar aspectos mais conceituais sobre a pintura da luz.

A idéia de que "não há preto na natureza", é um conceito científico que na teoria, faz todo o sentido. No entanto, na prática observável do dia, isto é, da perspectiva da percepção humana, é claro para qualquer um que observa a natureza: o preto está lá, pungente e profundo. O que seria das obras de Caravaggio, Rembrandt, Rubens e Van Eyck, para mencionar apenas alguns, sem o uso do preto?


Monet.

A presença de cores terrosas e do preto também pode ser observada nas obras de pintores do mesmo período (impressionismo) mas que não se enquadram nesse movimento por manterem um maior compromisso com o naturalismo, apesar dos mesmos fazerem uso de temáticas observadas e pintadas no exterior. É o caso dos pintores Pré-Rafaelitas, entre eles os excepcionais Waterhouse, Millais e Hunt, posteriormente o cultuado John Singer Sargent, e fora do círculo inglês, Sorolla e Zorn já mostrados e discutidos aqui em artigos anteriores.


Sorolla (esq. e centro), Zorn (dir.)

Pintar fora do ateliê, sob a luz do sol, naturalmente limitará o uso do preto, mas há somente uma limitação, não se trata de uma proibição categórica ou da eliminação das cores terrosas ou do preto. Em ambientes exteriores, a refração de luz abundante refletida de todas as partes cria luzes de preenchimento nas sombras dos modelos ou objetos a serem pintados, esse "preenchimento" faz com as sombras sejam notadas com "mais cor". Vem daí a máxima de que os impressionistas "enxergavam mais cores nas sombras".

Há teorias mais recentes sugerindo que essa perspectiva teórica sobre a luz, que muda a história da arte, é na verdade um mérito anterior dos Pré-Rafaelistas, compondo fértil material para um futuro post. De qualquer forma é importantíssimo frisar que esses conceitos já eram observáveis, embora de maneira mais sutíl, na pintura dos Velhos Mestres mais notáveis, sobretudo nos grandes coloristas, como Rembrandt Van Rijn, Jan Vermeer, Jean Dominique Ingres, Diego Velasquéz, Peter Paul Rubens e Anthony Van Dyck.

Conclusão
A proibição do uso do preto ou das cores terrosas que enlameiam (sic) as cores "puras" é um exagero. Essa máxima é uma bravata que romantiza a cor através de conceitos da virada do século e que não funciona, na prática, para os pintores que almejam permanecer usando como base fundamental o naturalismo mimético. Note aqui, que não se trata de pintar com realismo absoluto, mas permanecer usando um naturalismo universal que torna as formas, a cor e o valor indícios reconhecíveis, isto é, todo o tipo de pintura com uma mínima ligação a realidade observável. Para citar apenas um exemplo contemporâneo, a pintura do Mestre britânico Lucian Freud: um trabalho que se mantém longe do realismo, mas ainda assim naturalista, tornando fundamental o uso do preto e das cores terrosas.

Estudo de pigmentos pretos feito pela Cozinha da Pintura na Winsor & Newton (Londres; 2016).

O único modo no qual a remoção absoluta do preto e das cores terrosas pode funcionar, é na busca de pinturas que se distanciam em demasia da impressão da realidade e se aproximam mais de uma radical idealização pessoal, possuindo muito mais em comum com as intenções da cor como veículo de expressão, desvinculada da preocupação com o mimetismo.

Seria correto afirmar que tanto as cores terrosas quanto o preto são cores fundamentais e que não devem serem removidas da paleta, mas usadas da mesma forma que os matizes mais intensos: através do bom senso, criando equilíbrio e harmonia.

BIBLIOGRAFIA
PEDROSA, Israel. O Universo da Cor. 1º. ed. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2004.
ITTEN, Johannes. The Art of Color. New York, EUA: John Wiley & Sons, Inc, 1976
GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1978.
JANSON, HW, História da Arte , Lisboa, Gulbenkian FC, sd.


9 comentários:

  1. Márcio, voce é o número um nesse país como conhecedor da história dos processos pictóricos e da tecnologia dos materiais. Um colega me passou uma cópia do seu artigo sobre o vermelhão e depois que terminei de ler, quis ver mais no blog da Cozinha da Pintura. Farei residência num atelie espanhol e recomendei ao coordenador que voce pudesse oferecer algumas palestras em inglês. Entro em contato novamente! Até, e parábens novamente.

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  2. Excelente artigo como sempre! Eu sempre uso preto, já ouvi essa história sobre evitar, mas nunca dei muita atenção.

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  3. Obrigado Leo! Ainda vamos nos falar sobre aquilo que sugeriu. Um grande abraço!

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  4. Já pensou em dizer pro Anders Zorn que ele não poderia usar o preto? Ele criou quantidade enorme de quadros só com preto, branco, vermelho e ocre!!!!!!!

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  5. Zorn, Rembrandt, Caravaggio, a lista é gigantesca! Abraço Cristian!

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  6. Não imagino minha paleta sem o preto. Eu na verdade uso dois tons de preto.

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  7. Pois é, Mauro. É um mito que ainda prevalece. Há de fato, pintores que não fazem uso de preto, por outro lado, há pintores, que como voce, usam até DOIS pretos. É muito comum, encontrar paletas com dois pretos: Ivory e Mars. Um abraço!

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