segunda-feira, 12 de maio de 2014

Adeus aos Cádmios

Embora a notícia não seja exatamente uma grande surpresa, os dias dos cádmios estão oficialmente contados. A ECHA (Agência de Químicos da União Européia) está atualmente considerando colocar em vigor uma emenda para restringir "de modo mais severo" o uso de cádmios na industria de tintas. Isso engloba todos os tipos de tintas inclusive as artísticas. A resolução ainda está sendo analisada e passará por vários encontros de comitês especiais, mas já tem data de aplicação: no próximo ano. Dentre os prazos anunciados no site da instituição, o mais distante registra a data de Março de 2015, porém o mês de aplicação ainda é incerto. Sejam lá qual forem as medidas que os europeus tomarem, elas serão naturalmente adotadas em seguida pelos EUA e provavelmente no resto do mundo. 

Há alguns anos os boatos tornaram-se cada vez mais frequentes entre os profissionais de materiais artísticos e na semana passada o pronunciamento da ECHA transformou em realidade as especulações. O assunto está sendo exaustivamente discutido por inúmeras empresas e instituições, gerando muita polêmica e agitando o mercado. O cádmio se tornou uma constante em muitas paletas, comercializado como tinta artística desde 1840. É um pigmento relativamente jovem quando comparamos com outras substâncias usadas na pintura de cavalete.

Os cád
mios são famosos por sua vibração cromática e são usados por artistas que possuem preferência por cores "primárias" de alta intensidade. As cores mais fortes das tabelas de cores de tintas a óleo são geralmente tintas a base de cádmios. A substância é um metal pesado, relativamente raro de ser encontrado de forma pura na natureza, mas possível de ser purificado ou composto em laboratórios com a tecnologia adequada para isso. Essa tecnologia não é barata, e o processo não é simples, fazendo com que o custo desse pigmento seja um dos mais elevados. 


Pedra natural composta parcialmente de Cádmio

Outra importante característica dos cádmios é sua espetacular permanência, resistindo bravamente aos raios ultra-violetas e permanecendo inalterados por outras variantes que costumam modificar cores de outras naturezas químicas. Os cádmios são muito famosos por constituirem uma familia de cores de alta opacidade, cobertura e permanência indiscutíveis. O pigmento a base de cádmio, não importando qual sua cor, é tóxico e pode prejudicar profundamente a saúde daqueles que manuseiam o material, principalmente pelas vias respiratória e oral.

Toxidade
Já discutimos anteriormente sobre o uso de materiais tóxicos. Nossa opinião sempre foi a de que alguns materiais possuem propriedades insubstituíveis e de que nesse caso, o artista não possui muita opção. Tratando-se de materiais que oferecem riscos, é necessário tomar certas precauções. Em primeiro lugar, antes que o material seja usado, é preciso pesquisar sobre o mesmo, munir-se de conhecimento sólido e completo. Após o entendimento do material, deve-se sempre primar pelo bom senso, organização e a assepsia nos procedimentos criativos, isso é sempre imperativo.  

Acreditamos que o uso seguro de tintas tóxicas num ateliê é possível, mas somente por artistas que tenham consciência dos procedimentos que devem ser evitados e que o mesmo assuma uma postura processual ordenada e muito meticulosa. A verdade é que invariavelmente, aqueles que chamam essas operações de "arriscadas" o fazem simplesmente por não terem disposição em fazer tudo aquilo necessário para se proteger de uma possível contaminação. O que a grande maioria dos usuários de materiais artísticos não entende é que o verdadeiro problema não está no uso desses materiais enquanto os mesmos são aplicados e manuseados em ateliês, mas principalmente no "antes" e no "depois". 

Além do Ateliê
A mais perigosa forma de contaminação é pelo ar, isto é, enquanto o cádmio ainda se encontra em forma de pigmento em pó e suspenso no ar. O artista que faz sua própria tinta, possui maior chance de contágio. Como hoje praticamente todo artista compra tinta industrial, temos raríssimos casos de intoxicação (os solventes são muito mais perigosos nesse sentido). Portanto, a vasta maioria dos casos de alta contaminação acontecem em indústrias químicas, produtoras de pigmentos ou empresas que faturam tintas.O manuseio de receptáculos que contenham o pigmento em pó, ferramentas de trabalho usadas para produção das tintas ou somente a permanência diária num ambiente onde esses produtos são feitos elevam imensamente os riscos de contaminação por inalação. A segunda forma frequente de intoxicação é pela ingestão, esta, acontece surpreendentemente fora dos ateliês.

Uma simples sessão de pintura gera uma pequena quantidade de materiais a serem descartados. Restos de tinta (líquida/seca), materiais de limpeza como trapos ou papel toalha, paletas, solvente sujo, frascos que continham pigmento e muitas vezes até a obra final vão parar em depósitos e aterros. Esses aterros são inundados pelas chuvas ácidas das cidades grandes, que carregam os metais pesados para o solo, sistema de esgoto, lençóis d´agua e acabam voltando de alguma forma a outras áreas de nosso ambiente (como no adubo) e fatalmente retornam para nosso organismo, de diversas formas. É preciso lembrar: mesmo que cada usuário descarte apenas algumas gramas de cádmio por ano, essas poucas gramas tornam-se literalmente toneladas quando imaginamos a quantidade de cádmio comercializada e usada numa cidade como por exemplo, São Paulo.

Vermelho Cádmio: deixará saudades?
O artista deve ter consciência de que a sujeira que produz no ateliê é responsável pelo aumento de intoxicação de cádmio via oral de terceiros. Para minimizar os estragos, os materiais contaminados não devem ser levados pelo sistema comum de recolhimento, devem ser levados pelo artista a postos de reciclagem preparados para receber essas substâncias. 

Portanto, o grande problema das tintas a base de metais pesados é na verdade a intoxicação ambiental e não a do artista, pois embora esses metais possam ficar parados em ateliês ou lojas, fatalmente poderão aparecer em aterros, num futuro. Isso significa que provavelmente o mesmo penetrará no solo, contaminando a água, esgoto, substâncias que serão adubo, chegando até plantações de vegetais e nas estações de tratamento de água, culminando na ingestão de cádmio por pessoas e animais. Esse é um dos motivos pelos quais os cádmios (assim como outras tintas a base de metais pesados) tornaram-se proibidos.

Restrição Proposta pela ECHA
A proposta é uma "emenda de restrição" que, se aprovada, forçará com que a industria de tintas artísticas reduza a concentração de cádmio para abaixo de 0.01% de cádmio (por peso). Pela perspectiva ambiental, é uma excelente medida. Pela perspectiva artística, significa o fim das tintas de cádmio e o desespero de pintores que primam por cores intensas e vibrantes. Grande parte das tintas de linha estudante e intermediárias já usam um corte considerável nas cargas pigmentárias fazendo uso de grande quantidade de veículo, espessantes e outros materiais que compensem a falta de pigmento. Na prática, as tintas e cores de cádmio que já eram de má qualidade vão se tornar com essa emenda de restrição, uma verdadeira piada. 

A emenda não é uma proibição, mas na pratica, terá exatamente esse efeito. Essa diminuição tornará o uso do cádmio algo praticamente sem sentido, sendo que as propriedades desejáveis dos cádmios vão se diluir quando misturadas em outras substâncias de natureza completamente diferente. CEPE (Associação Européia de Tintas Artísticas) já deu sinais de que lutará para garantir que as restrições não sejam aplicadas ao mercado de tintas artísticas profissionais, mas somente ao mercado de tintas escolares, artesanato e construção civil. Portanto, há ainda um fio de esperança que haja a suspensão da emenda para tintas artísticas.


"Cristal"de Cádmio com pureza de 99%

Certamente, a aprovação da emenda fará com que o cádmio desapareça das lojas e das paletas. A reeducação dos artistas, precisamente sobre como esse material deve ser manuseado e descartado, poderia contornar o problema. A verdade é que a imensa maioria de pintores não faz idéia do que é que suas tintas são feitas. Mesmo que haja instruções e advertências mais claras nos rótulos, ou até mesmo com a implantação de um sistema de venda restrito e controlado (assim como é feita a venda de remédios, com receitas) dificilmente o problema de contaminação ambiental seria minimizado. Seriam medidas utópicas: francamente, seria um enorme esforço a troco de nada. 

Um colega estrangeiro já me avisou que alguns artistas "precavidos" estão correndo para as lojas na esperança de estocar essas futuras "raridades". No entanto, não há necessidade de desespero. 

Boas Notícias
Ainda encontramos nas paletas e nos materiais bibliográficos sobre pintura a informação de que os cádmios são a melhor opção para cores de intensidade cromática alta. Basta fazer uma rápida pesquisa sobre paletas na internet. É por isso que o artista, deve sempre buscar conhecimento e nunca parar de instigar sua curiosidade científica: ele pode estar deixando de usar materiais mais recentes que oferecem maiores vantagens. 

Desde a popularização dos cádmios na área comercial de tintas artísticas a tecnologia química aumentou eficientemente, muitas novas substâncias foram criadas desde então. Os artistas atentos e ávidos por atualizar seus conhecimentos sabem: Os cádmios já não estão sozinhos nas listas de cores com alta intensidade já faz um bom tempo.

Embora os cádmios possuam características muito singulares, há uma nova família de pigmentos que oferecem outras vantagens. A notícia de seu desaparecimento não é tão terrível assim. Na verdade, a grande maioria dos pintores não estará perdendo muita coisa. Em nosso próximo artigo, vamos explorar profundamente essa nova família de pigmentos e entender exatamente quais são as diferenças entre as importantes cores de grande intensidade.

Links
ECHA http://echa.europa.eu/
CEPE http://www.cepe.org/

11 comentários:

  1. Caros amigos da Cozinha esplendido artigo pra variar... muito interessante... espero avido pelo novo artigo... abraço a todos...

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  2. Excelente post, Márcio! Eu sabia que os cadmios eram tóxicos, mas em comparação com o chumbo, quem é o mais tóxico?

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  3. Hiram, essa é uma parte complicada da química. Compreenda que essas substâncias envenenam de modos diferentes, agindo de forma diferente e por vias diferentes no organismo. Portanto, uma comparação de qual é o "veneno" pior é complicado... mas, de forma bem geral, poderiamos dizer que o chumbo talvez possua "maior força" (e isso ainda não explicaria ou ilustraria direito a questão) de intoxicação pois surta mais sintomas no indivíduo. Grande abraço!

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  4. Fazia tempo que a cozinha nao colocava um artigo novo! Fiquei feliz em ver! Tenho alguns cádmios aqui. Vou guardar como peça de museu. Quero ver quais são os pigmentos que podem substitui=los no proximo artigo. Aposto como um desses pigmentos é o Naftol, que já uso. Mas não sabia que ele tem vantagens comparados com o cadmio. Obrigado pelo novo artigo, espero ver o próximo muito em breve.

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  5. uso amarelo de cádmio claro da mussini, é uma tinta com dois pigmentos ela não é totalmente pura, mas é brilhante e intensa, gosto dele mas tem um forte cheiro que já me deixou com dor de cabeça, sempre que coloco na paleta saio um pouco, e só depois começo a trabalhar não sei se os cádmios de outras marcas são assim.

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  6. Caro Anônimo, Nunca passei por experiência parecida com cádmios da Schmincke ou de outra marca. Nenhuma tinta dará alergia por causa do pigmento, pois os pigmentos dificilmente emitem odor. Os sintomas de intoxicação por metais são variados e geralmente apresentam-se a longo prazo e nunca imediatamente. De qualquer forma, acredito que o motivo da dor de cabeça seja pelo odor do VEÍCULO e NÃO do pigmento. A Mussini é a linha da Schmincke que leva solvente e resina. Experimente trocar seu amarelo de cádmio claro por outra marca que não a Mussini. Grande abraço!

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  7. O Prof.Pedro Alzaga dizia que os cádmios são usados por quem pinta como os impressionistas.Quem pinta como os renascentistas não precisa dos cádmios.
    Luiz Antônio

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  8. Caro Luiz,
    Entendo o que ele quis dizer com essa frase. A pintura alla prima exige que os pigmentos sejam bem opacos, enquanto a pintura em camadas, usada pelos renascentistas, não exige que usemos pigmentos opacos pois podemos trabalhar com efeitos ópticos em transparências. Logo, podemos alcançar efeitos de alta vibração de vermelhos mesmo usando terras avermelhadas de baixa intensidade. Realmente, faz muito sentido. Por outro lado, os renascentistas já tinham um vermelho de alta intensidade como o vermelho de cádmio: o Vermillion. Mas, de qualquer forma, o pensamento do Prof. Pedro Alzaga está muito correto. Um grande abraço!

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  9. Seu blog é sempre muito esclarecedor. Gostaria de saber quais são suas fontes de estudo (presumo que a maioria seja em inglês). Eu gostaria muito de ter esse conhecimento "químico" dos materiais.

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  10. Olá Márcio, muito interessante matéria. Como voce já sabe, ando pesquisando demais sobre o assunto, inclusive fazendo testes e gastando com diversos materais...ainda não tive oportunidade de testar com outras tintas profissionais além das Winsor e Newton e Darley-Rowney e com a semi-profissinal Maimeri , È muito complicado superar o Cádmio por ele ser muito permanente, mas alguns naftóis são mais poderosos em croma, embora a resistencia a luz seja (de boa a ótima), mas não excelente. Estamos diante de um impasse : Ou a nossa saúde ou a durabilidade de nossos trabalhos, ou nosso bolso ou trabalhos mais resistentes. Diante desse paradoxo, eu aconselho o não-desespero e o uso do bom senso, pois as versões de Naftois, como o PR 112 e o PR 170 tem se saĩdo perfeitamente bem nos meus testes...e não tenho que reclamar...mas sempre é bom questionar tudo e escolherem aquilo que lhes satisfaçam

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  11. obrigado Marcio pelo esclarecimento sobre os cádmios, fico feliz em saber que não é o pigmento que me deixou com dor de cabeça, vou trocar sim tenho algumas tintas da maimeri puro, gosto muito delas também, não tenho nenhum cádmio da maimeri, mas vou trocar por ele grande abraço.

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