terça-feira, 5 de março de 2013

Vernizes

Uma das perguntas mais frequentes que nos fazem é sobre a aplicação de verniz para pintura a óleo. Por esse motivo, resolvemos expôr nesse breve artigo as questões fundamentais sobre os vernizes que todo artista deve ter em mente quando precisar escolher uma das muitas opções disponíveis na lojas.

Conhecemos como Verniz, toda substância feita a partir de uma resina que foi dissolvida e que agora em estado líquido pode ser espalhada na pintura para que posteriormente seque e nos dê um acabamento com cobertura vítrea e transparente (no caso da pintura). Resumidamente: todo verniz é uma resina natural ou sintética dissolvida em algum solvente.

Pintura Sem Verniz
Em primeiro lugar é necessário lembrarmos que o verniz não é necessário, trata-se de um acabamento opcional. A tinta óleo naturalmente solidifica-se numa película resistente e brilhante, formando uma superfície bastante resistente as diversas condições climáticas. Portanto, é totalmente possível finalizar uma obra e guardá-la ou expô-la sem necessidade de um acabamento envernizado. Inúmeras obras de séculos passados sobreviveram sem nenhum tipo de proteção extra, permanecendo relativamente intocadas através dos anos. É claro que cada caso é um caso, tudo depende do histórico da obra e das condições pelas quais a mesma passou durante sua existência. Portanto, não há mal algum em deixar sua obra sem verniz. De fato, uma série de pintores preferem que suas pinturas nunca sejam envernizadas. Mas por que então o verniz é usado em pinturas?

Proteção
A principal função do verniz é dar proteção a camada pictórica. Isso é: a camada de verniz protege a superfície da pintura de danos físicos. Como exemplo, objetos podem riscar a pintura, insetos podem danificar a superfície, entre uma série de outras situações abrasivas. O verniz também pode funcionar como um isolante para certas ameaças invisíveis, como a umidade, gases sulfurosos encontrados no ar poluído e ao pó comum que se acumula em qualquer ambiente. O verniz funciona como uma barreira protetora, impedindo que estas ameaças cheguem até a pintura. Como o verniz recebe tudo o que a pintura deveria estar recebendo ele acaba por enfraquecer, perdendo a transparência e a elasticidade, tornando-se cada vez mais poroso e quebradiço, deixando de proteger a pintura e em alguns casos modificando suas cores, pois torna-se leitoso, escuro ou amarelado. 


Linha de Verniz da Golden

Saturação
Uma das propriedades do verniz é a de saturar a camada pictórica ajudando na refração de luz que incide na pintura. Todas as cores a óleo quando secam se tornam mais opacas e menos intensas do que quando estavam "molhadas". O verniz satura as cores, deixando-as mais vivas. É um fenômeno puramente óptico, sendo que o verniz não aje diretamente na cor mas que faz grande diferença principalmente quando várias áreas da pintura possuem diferença de brilho, causando um efeito estranho. Algumas vezes, os pintores quebram a catálise entre óleo pigmento, na maioria das vezes ao misturar medium em excesso na tinta, tornando a tinta muito opaca. Conforme a luz incide na obra, vemos que certas passagens da pintura são excessivamente opacas enquanto outras são muito mais brilhantes. Essa diferença pode prejudicar o entendimento dos valores usados originalmente, portanto, a aplicação de verniz promove a saturação da superfície, acabando com esse problema e igualando o brilho da superfície. Mesmo quando não misturamos medium a tinta há naturalmente uma perda da intensidade das cores depois de seca. A aplicação de verniz ajuda a restaurar o brilho e a intensidade das cores como no momento no qual a tinta ainda não havia secado.

Acabamento
A maioria da empresas sérias que fabricam vernizes para pintura a óleo de qualidade oferecem o verniz em diferentes tipos de brilho ou acabamento. As variações são o acabamento fosco (opaco), semi-fosco (também chamado de matte) ou brilhante (glossy). A questão técnica desses acabamentos tem funcionalidade puramente estética, ficando a cargo do artista qual a melhor opção a ser usada.

Linha de Verniz da Winsor & Winton

Durabilidade 
Apesar de todas as questões abordadas acima serem importantes, existem duas questões primordiais incrivelmente ausentes da maioria dos sites e publicações. Trata-se da durabilidade e da permanência, tratando-se de duas características completamente diferentes nesse caso. A durabilidade está relacionada a propriedade do verniz continuar transparente e elástico através dos anos. Algumas resinas perdem essas propriedades em curto espaço de tempo. Um bom verniz deve permanecer translúcido e incolor pelo maior período possível. É necessário lembrar que caso o verniz escureça, amarele ou craquele, o artista deverá remover o mesmo, para que possa então proteger a obra com uma nova camada de verniz. Logo, a preferência sempre deve ser de produtos que permaneçam nesse estado ideal por mais tempo, evitando que o procedimento de remoção de verniz seja feito diversas vezes.

Permanência
A permanência está relacionada com sua capacidade de remoção ou adesão do verniz, compreendendo uma das características mais importantes do material. Alguns vernizes são permanentes: Isto é, uma vez aplicados, grudam na camada pictórica de modo irreversível. Isso quer dizer que, embora seja possível remover parte desse verniz com substâncias que removam a resina, torna-se impossível não retirar parte da pintura no mesmo procedimento. Esta é uma das razões pelas quais alguns pintores simplesmente se recusam a usar verniz em suas obras. Os vernizes adequados são os vernizes removíveis ou reversíveis. Os mesmos podem ser aplicados seguramente pois no futuro quando estiverem opacos e amarelos, poderão ser fácilmente retirados, sem agressão a camada de linóleo. Portanto, quando perguntamos qual verniz é o mais adequado, a resposta obrigatoriamente é sempre: aqueles que são facilmente removidos. 

Eastlake já mencionara em seu tratado que absolutamente toda resina está fadada a amarelar e tornar-se quebradiça com o tempo, portanto vale lembrar que não há verniz que dure toda uma vida. Todos devem ser retirados e aplicados novamente quando perdem suas propriedades. O procedimento de retirar o verniz velho é delicado e deve ser feito por profissionais que tenham alguma experiência. É comum encontrar obras que perderam velaturas ou parte de sua camada pictórica durante a remoção do verniz.

Resinas Naturais Vs. Resinas Sintéticas
Já discutimos em artigos anteriores o mérito da discussão de preferência entre as resinas naturais e artificiais, ficando ao encargo do artista quais dessas opções é a mais confiável. Apenas alertamos para que, caso aposte na opção de resinas sintéticas, procure pelas empresas confiáveis que investem em estudos e pesquisas de alta tecnologia para o uso de resinas, como a Gamblin, Golden e a Winsor & Newton. Desconfie de vernizes de uso geral (geralmente em spray) como os famosos vernizes cristais e outros materiais genéricos de aplicação e durabilidade duvidosos. Se voce pretende pesquisar mais sobre vernizes, vale a pena ler nossos artigos sobre resinas naturais (dividido em vários artigos) e sintéticas.

Falamos um pouco sobre a propriedade dos vernizes e de suas opções como materiais a serem aplicados. Futuramente falaremos dos diferentes tipos, das atuais opções do mercado e da aplicação adequada de verniz para pintura a óleo.


BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools; Dover; 1847.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2013.


15 comentários:

  1. Marcio, mais uma vez parabéns pelo texto.
    Me esclareceu bastante.
    Nunca imaginei o verniz como uma camada protetora da pintura e sim, apenas como um equilíbrio do brilho.
    O que eu não entendi é que se a W&N é claro, uma marca excelente de verniz, porque não os vernizes em spray da W&N? Não são iguais?
    Abraços e Parabéns!

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  2. Olá Celso! Obrigado pela pergunta interessante! Na verdade, talvez não tenha sido claro no meu texto, é que a maioria dos vernizes de segunda categoria são de spray. Os vernizes das marcas sérias em Spray não possuem nenhum tipo de problema, claro. O que interessa é o que está dentro, e não se é em spray ou não. No entanto, a maioria dos Sprays brasileiros não são tão bons e são TODOS em spray. Espero ter conseguido deixar a coisa mais compreensível! Grande abraço Celso!!!

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  3. Celso, desculpe não ter sido claro no artigo. Acabo de arrumar o texto para que ninguem confunda. Muito apropriada sua colocação, agradeço! Um abração!

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  4. Olá Sr. Márcio, sou novo aqui no Cozinha, mas já li todos os posts e graças a eles além de conhecimento, hoje consigo fazer um trabalho de melhor qualidade, por isso muito obrigado!
    Nunca usei verniz em minhas pinturas, por pensar ser desnecessário, mas realmente o fato de a tela ficar com “manchas de brilhos” em algumas áreas sempre me incomodou um pouco.
    O que eu gostaria, se possível, de um esclarecimento, é sobre um coisa que acontece muito aqui no sul, pela umidade: fungos e bolores. Já perdi telas por conta desse problema, então gostaria de saber se o verniz serve também como “isolante” para esse tipo de coisa?

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  5. Olá Raphael! Em primeiro lugar agradeço pelas palavras gentis! O verniz serve sim como proteção. Se a umidade juntar na superfície da pintura, estará no verniz e não na camada pictórica, podendo ser removido e aplicado novamente. Obrigado pela pergunta interessante! Um grande abraço a voce e a todos os gaúchos leitores da Cozinha!

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  6. Adorei conhecer este site e estou aprendendo muito, oportunamente estarei participando dos workshops.

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  7. Muito grato Eli, esperamos sua presença! Um grande abraço!

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  8. Olá! Gostaria de saber se é verdade quando misturada determinada proporção de óleo de linhaça e verniz damar, podemos envernizar a pintura logo após sua secagem sem ter que esperar de 6 meses a 1 ano para aplicar o verniz. Se for verdade gostaria de saber qual seria essa proporção. Muito obrigado.

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  9. Caro Marcio, há muito que consulto este blog que considero de excelente qualidade. Sou um principiante na pintura. Sobre o tema da protecção duma pintura, gostaria de perguntar se o verniz pode ser substituido por um médium sem o uso de qualquer tinta claro. Simplesmente aplicado como sai do tubo e neste caso falo de um médium de viscosidade mºedia.
    Grato
    Filipe Faria
    Angola

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  10. Meu caro amigo Felipe, agradeço suas palavras muito gentis. Veja bem, um medium é geralmente rico em algum tipo de óleo. Não é exatamente muito sadio cobrir a superfície da pintura com qualquer coisa que tenha familiaridade com a película. O idel é usar qualquer substância que seja de FÁCIL remoção. Portanto o verniz é mais indicado do que qualquer medium. Dentre os vernizes, dê preferência aqueles feitos de resinas sintéticas, de fácil remoção com terebintina ou outro solvente. Um grande abraço a todos os colegas pintores de Angola!

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  11. olá amigos gosto muito do blog cozinha da pintura, sou principiante comecei a pintar em 2013 e estou utilizando muitas marcas de tintas, profissionais citadas por vocês queria saber um pouco sobre o verniz de retoque, ate já comprei um da maimeri mas ainda não passei nas telas,nas lojas virtuais sempre falam sobre esperar um mês para usar o verniz. grande abraço pessoal, José Carlos

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  12. Excelente, leio o blog bastante, mas só agora precisei realmente lhe perguntar algo importantíssimo pra mim. Antes de mais nada me chamo Victor e meu problema é um pintura finalizada e envernizada na última camada há mais de um ano, foi uma pintura executada com pouca tinta, lisa, nenhum empaste. Apliquei um verniz da winsor depois de seca. Depois de muito tempo(quase um ano), insatisfeito com o resultado, decidi cobrir a pintura com branco de titânio diluído com ecosolv+óleo de linhaça refinado para iniciar nova pintura na mesma tela. No no dia seguinte o branco estava totalmente craquelado antes mesmo de secar. Considero o que aconteceu um desastre pois essa camada branca seria uma "imprimatura" para iniciar nova pintura. Fiquei na dúvida se o mais correto seria remover a antiga pintura deixando apenas a base de gesso na tela ou cobrir com uma camada opaca sem nenhum medium e solvente. Tenho a impressão que se eu tivesse cobrido a superficie com pincel seco, nenhum medium e utilizando esfregazzo não teria craquelado. Me dê uma luz por favor, não queria perder a tela e ter que esticar outro tecido nela... O que é mais indicado depois de um acidente como este?

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  13. Olá Victor! O ideal seria nunca reutilizar as telas, mas, caso isso não seja uma opção, o procedimento mais seguro é lixar o máximo que conseguir sem danificar ou esgarçar o tecido. Uma vez bem lixado, aplique gesso acrílico por cima. Grande abraço e obrigado Victor!

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  14. Como não dar a devida credibilidade ao site diante de um texto maravilhoso como este! Sanou todas as minha dúvidas "shakespeareana" sobre o uso do verniz. Muito Obrigada!

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  15. Gostei muito do site, principalmente, por ser eu restauradora de obras em telas e madeiras. Muitas vezes me deparo com problemas nos vernizes.na hora da remoção do verniz existente e a escolha do finalizante. Parece haver conflito entre o verniz remanescente e o novo a ser aplicado.

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