domingo, 4 de novembro de 2012

Bálsamos

Em artigos anteriores vimos que na pintura a óleo é possível empregar diversas substâncias misturadas a tinta para modificar seu comportamento. Vimos que as resinas naturais são materiais que podem proporcionar um interessante leque expressivo, analisando as resinas como o damar, os vários tipos de copais, o mastíque e o âmbar, consideradas as resinas mais populares na pintura a óleo. No entanto, há ainda um tipo diferente de resina não comentado em nosso antigo post sobre resinas naturais: os bálsamos.

Os bálsamos são
compostos da seiva vegetal extraída de árvores encontradas nas regiões temperadas. Por esse motivo, não são materiais largamente usados na pintura de países de clima quente, como o Brasil. O público brasileiro tem difícil acesso ao material, e nenhuma tradição em seu uso. Assim como outras resinas naturais usadas na pintura a óleo, quando usadas misturadas a tinta em camadas finas formam uma película relativamente elástica e brilhante, solidificando como uma lustrosa cobertura protetora com boas propriedades  ópticas.

Resinas Duras Vs. Bálsamos
Ao contrário das outras resinas, os bálsamos possuem corpo naturalmente mais fluido, solidificando-se somente quando aplicados em finas camadas ou pouca quantidade. As resinas comuns são mais viscosas, geralmente solidificando em contato com o ar, mesmo em grande quantidade, adquirindo a forma de "pedra" (copais, ambâr, damar), também chamado de "lágrimas" no caso do mastíque. Dessa forma, não é possível encontrar os bálsamos em forma sólida, ao contrário das outras resinas. Quando encontramos resinas (que não são bálsamos) em forma líquida, temos na verdade um verniz, ou seja: uma resina em pedra que foi derretida com a adição de óleo ou solvente.


Os bálsamos quando em contato com o ar, mesmo em grande quantidade, são menos densos, possuíndo corpo semelhante a do mel e é possível encontrar variações ainda mais líquidas. Portanto, as resinas comuns são encontradas naturalmente num estado seco (sólido, pedras, lágrimas), enquanto os bálsamos são encontrados em forma líquida. Essa é a fundamental característica dos bálsamos: são resinas mais líquidas que solidificam de forma mais macia. 



Funções para a Pintura a Óleo 
Como os bálsamos são simplesmente resinas naturais mais líquidas, oferecem características muito similares as mesmas, assim como as mesmas funções. As resinas são perfeitas para conferir maior adesão ao filme de pintura, ajudando de forma adequada na fixação da cor em qualquer superfície. Isso pode ser extremamente útil para pintores que usam uma abordagem de pintura com inúmeras camadas. É comum que se obtenha certa dificuldade de fixação em camadas posteriores aplicadas a superfícies que já tenham recebido inúmeras pinceladas de tinta oleosa, depois que as mesmas estejam secas. Adicionando alguns pingos de bálsamo, a adesão é promovida, resolvendo o problema. 

Assim como outras resinas, também oferecem brilho a película, de modo que pintores que desejarem uma superfície pictórica lustrosa podem fazer uso desse material. Quanto maior a quantidade de bálsamo, maior o brilho da camada resultante. Muitos pintores gostam da superfície lustrosa da película quando adicionada grande quantidade de resina.

Os bálsamos também nos dão a impressão de que secam a película de pintura de forma mais rápida. Ao substituir parte da carga do pincel por uma resina ao invés de carregá-lo inteiramente com tinta, é natural que a resina seque mais rápido, sendo a tinta uma substância de carga oleosa. Portanto, sim, as resinas podem "acelerar" a secagem da tinta, embora o fenômeno não esteja relacionado diretamente com uma alteração a nível químico da mistura, mas sim pela substituição de parte da carga que seca por oxidação por uma parte de carga que secará por sua vez por evaporação. 

Sua secagem rápida possibilita que a tinta belisque o pincel, deixando-o grudento, possibilitando para alguns pintores uma sensação que facilita a aplicação e formação de marcas na camada pictórica. Isso pode ser altamente desejável em alguns casos, enquanto para outros, pode configurar-se como indesejável. É sempre uma questão de experimentar e julgar se essa função pode trazer algum tipo de benefício ou efeito a seu processo. 

Estudos de Campo
O fato mais interessante dos bálsamos é que recentemente, alguns profissionais do campo da restauração e conservação julgam-os como mais confiáveis do que as resinas naturais comuns como o damar, copal, mastíque e o âmbar. Teoricamente, os bálsamos, de todas as resinas, seriam as que menos prejudicariam a película de pintura a curto e longo prazo, oferecendo uma película mais elástica e duradoura. É uma aposta mais segura a todos os pintores que desejam adicionar algumas das funções promovidas pelas resinas em seu processo. Não há um estudo de campo que prove isso de maneira empírica, mas os poucos testes mais incisivos no campo nos levam a acreditar de que essa máxima é provavelmente real. 

Velaturas no Molhado sobre Molhado
Como comentado em artigo anterior, os bálsamos são basicamente, substâncias muito parecidas com as outras resinas menos líquidas. Assim como disse Eastlake e outros estudiosos, todas as resinas amarelam e endurecem com o tempo, portanto seu uso em moderação é altamente recomendado, nunca passando de 20% na porção de tinta. 

É possível usá-los misturados a tintas ou mediums para velaturas para se pintar molhado sobre molhado dando a impressão de pintura "molhado sobre seco" ou semi-seco. Uma espécie de "velatura" que ao invés de ser usada numa superfície seca, usa-se na pintura alla prima. O fenômeno ocorre pela secagem de material resinoso nas camadas de baixo, que "assentam" as primeiras camadas, sendo possível aplicação de tinta em cima da mesma sem maculá-las. 

Veremos a seguir, os bálsamos usados na pintura a óleo.





Terebintina de Veneza
(Trementina Veneta, Venice Turpentine, Venetian Turpentine)
Apesar de levar em seu nome o termo "terebintina", não se trata de um solvente, e sim de uma resina: o bálsamo mais popular entre os pintores, e o mais comumente encontrado. É um extrato resinoso do Lariço europeu (Pinaceae Larix) misturado a resinas mais baratas (como o breu) e terebintina. A Terebintina de Veneza é uma mistura feita para baratear o custo do material e render grandes quantidades do produto. Como a maior parte dos produtores mistura quantidades diferentes de adulterantes, é comum encontrá-la em versões mais densas e versões mais líquidas, assim como versões com grande diferença de cor.

Sendo sempre mais adequado usar produtos mais claros do que escuros numa pintura, é desejável que quanto mais claro for o bálsamo, melhor. No caso da Terebintina de Veneza, as variações de cor são grandes, mas todas possuem uma coloração âmbar, um marrom levemente avermelhado e as mais claras possuem cor de chá. 

As marcas de materiais artísticos que oferecem o produto são: Maimeri, Talens, Holbein, Lukas, Schmincke, Chardin, Sennelier e Zecchi. Para esse artigo, as marcas que não foram testadas pela Cozinha da Pintura foram a Lukas e a Chardin. É necessário que o artista teste-as e tire suas próprias conclusões. É altamente recomendável que se leia o rótulo do produto, sempre, pois algumas marcas oferecem na verdade uma versão sintética do produto. As amostras testadas pela Cozinha são: Maimeri e Talens. 




Terebintina do Lariço ou 
Terebintina de Veneza Pura
(Trementina di Larice, Larch Turpentine)
Essa é a versão pura, não adulterada, da Terebintina de Veneza. Costuma ter corpo muito mais denso que a versão impura, e cor mais acentuada. Consequentemente, possui maior força e expressividade em todas suas funções: brilho, aderência e alto ponto de viscosidade. 

Compreendendo material não adulterado, praticamente puro, é consideravelmente mais caro do que a versão com adulterantes, triplicando o preço. Como compensação, o uso de pouca quantidade é praticamente o mesmo que usar grande quantidade de sua versão adulterada. Esse material é cada vez mais incomum nas prateleiras das lojas e poucas são as marcas que oferecem o mesmo no mercado. É particularmente comum encontrar o material em empresas que trabalham com materiais artesanais, como a Zecchi, em Firenze. O material industrial que parece mais próximo do artesanal é produzido pela Schmincke, mas ainda assim, apresenta diferença consideravel em termos de cor, corpo, aderência, secagem e elasticidade de película. 

As amostras testadas pela Cozinha são: Zecchi e Schmincke.




Bálsamo do Canadá 
(Canada Balsam)
Extrato da árvore pinácea norte americana Balsam Fir (Abies balsamea), o Bálsamo do Canadá é considerado hoje, o bálsamo resinoso mais claro do mundo. Com excelentes propriedades ópticas, resulta num filme praticamente transparente e amarela consideravelmente menos do que os bálsamos de resina do Abeto ou do Lariço. 

Nenhuma empresa de materiais artísticos que produz materiais em escala industrial oferece o Bálsamo do Canadá em suas linhas de auxiliares. É um material de difícil aquisição e custo elevado, muito procurado pelos pintores norte americanos. A amostra testada pela Cozinha é de extração artesanal, sem marca.



Terebintina de Strasbourg 
(Strasbourg Turpentine, Strasbourg Balsam)
A resina extraída da pinácea européia Abeto Prata (Abies Alba), também chamado Abeto Branco, é um bálsamo comumente encontrado nas regiões próximas da Alemanha pelo nome de Terebentina de Strasbourg. É basicamente o mesmo produto que a Terebintina de Veneza pura. Em inúmeros manuais e tratados de pintura da antiguidade, cita-se que de todos os bálsamos, esse é o melhor, por ser geralmente mais claro do que o bálsamo extraído do Lariço europeu, no entanto, há uma grande variação de coloração.

Embora os relatos e textos antigos tratem-no como uma substância mais clara, é possível que haja uma confusão entre os nomes dados a todos os bálsamos assim como sobre sua procedência. Bálsamos de Lariço europeu podem ser comercializados como bálsamos do Abeto Prata gerando certa confusão. É comum, na história dos materiais de pintura, a venda de um material passando-se por outro similar, ou até mesmo observações de características de determinado produto baseado em características de um produto adulterado. Seja lá qual é o caso da Terebintina de Strasbourg, para entender por que os antigos manuais descrevem-na como mais clara, seria necessário um estudo de campo baseado em diferentes amostras, se possível, de material artesanal, e não industrial, algo que a Cozinha planeja já há algum tempo.

A amostra testada pela Cozinha da Pintura (comercializada pela Kremer) é uma das mais densas (com exceção da Trementina pura da Zecchi), e a cor é tão intensa quanto as outras Terebintinas de Veneza, sua cor é mais acentuada do que o Bálsamo do Canadá. 

Conclusão
Os bálsamos oferecem funções interessantes não somente aqueles que pintam em camadas, mas também aos artistas que usam de uma técnica mais direta. Suas versões sintéticas não estão muito aquém do original, cumprindo as funções prometidas pelos bálsamos naturais que por sua vez apresentam preços muito altos. Faltam no entanto materiais menos adulterados, com menor quantidade de breu e solvente, e ainda uma versão sintética viscosa e de corpo denso, sendo possível encontrar somente bálsamos sintéticos de corpo extremamente líquido.

Algumas instituições recomendam a substituição dos bálsamos por resinas sintéticas alquídicas, que teoricamente seriam mais flexíveis do que sua versão natural e não oferecem amarelamento acentuado com os anos. Apesar da discussão ainda estar no campo da especulação, as chances de realmente ser verdade são grandes, no entanto, é interessante lembrar que o uso modesto de qualquer material pode resultar em boa longevidade das obras. Quantidades ínfimas de resina, bem misturadas a tinta, não serão suficientes para trazer algum tipo de transtorno a película.


BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting; Dover; 1847.
MERIMÉE; The Art of Painting in Oil and in Fresco; Whitaker & Co.; 1839.
LAURIE, A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
MERRIFIELD, Mary P.; Original Treatises On the Arts of Painting; John Murray; London; 1849.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2012.
DE MAYERNE; De Mayerne Manuscript, B.M. Sloane; 1620.


10 comentários:

  1. Obrigado wesley! Legal ver voce por aqui! Um grande abraço!

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  2. Muito bom artigo, parabéns Me parece que a Pebeo fabrica um médium de óleo de cartamo com resina acrílica. Pode ser considerado um bálsamo?

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  3. Pergunta muito interessante Rovenzo. Sempre digo a todos que os "rótulos" são perigosos, as vezes mais atrapalham do que esclarecem certas dúvidas. Certamente não é um balsamo natural pois sua resina é sintética. Mas, sendo uma resina mole, poderíamos considerá-lo uma espécie de bálsamo sintético. Na verdade, os balsamos sintéticos que de FATO se chamam bálsamos, são uma mistura de resinas sintéticas e breu. A indústria mistura um monte de coisas e dá nome do jeito que bem entende em seus materiais. Isso cria uma confusão enorme... Grande abraço Rovenzo!

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  4. Pois é fiquei com um senso critico mais apurado e agora vejo os materiais com mais ceticismo. Como sabia que não se tratava de um óleo de cartamo tão somente e sim misturado com resina acrílica, resolvi investir no óleo de cartamo da SENNELIER ; Outro abraço!

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  5. Teu trabalho é um espetáculo. Tua didática torna as coisas extremamente simples de compreender e memorizar. Parabéns e obrigado.

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  6. Cozinha, tenho um grande ateliê em Curitiba. Gostaria de viabilizar a possibilidade de um Workshop exclusivo a meus alunos. É possível? Como posso contactá-lo? Obrigado.
    Raul

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  7. Olá Raul! Recebo inúmeros convites como o seu, é totalmente possível. Já realizamos inúmeros Workshops em SP e no interior, em parceria com inúmeros artistas como voce. Estivemos recentemente em Salvador com dois Workshops exclusivos e na semana passada no Memorial da América Latina.

    Favor entrar em contato via e-mail: cozinhadapintura@gmail.com

    Um grande abraço!
    Marcio

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  8. Marcio, também estou interessado no Workshop, aqui para Bauru... também mandarei um e-mail pois quero receber mais informações. Grato!

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