quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Solventes

Embora seja possível pintar sem nenhum tipo de solvente, como comentado em artigo anterior, muitos artistas preferem fazer uso do mesmo para obter uma tinta óleo mais líquida. O uso do solvente pode realmente ser uma boa saída para modificar a reologia da tinta, mas recomendo que leiam o artigo anterior e entendam que não é necessário seu uso, em alguns casos. De qualquer forma, é sempre mais seguro, para a conservação da obra, manter a quantidade de solvente numa proporção de no máximo 20% comparado a porção de tinta a ser usada. Tendo essa regra em mente veremos a seguir os solventes adequados para a tinta a óleo e suas principais características.

Função Principal
O solvente cumpre a função que seu nome sugere: dissolve algum tipo de substância, diminuindo sua viscosidade, tornando algo viscoso numa substância mais líquida. Para a pintura a óleo, sua função é modificar o corpo da tinta, principalmente quando o artista necessita de uma tinta óleo menos densa, isto é, para modificar o corpo da tinta transformando-a numa pasta que possua maior mobilidade. O problema do solvente é que sua adição em excesso enfraquece a proporção de óleo/pigmento, que balanceia as propriedades de aderência da tinta, levando a inúmeros problemos.

O ideal, é que seu uso seja mínimo. Modificar a tinta a óleo, deixando-a mais líquida, não quer dizer que ela deve ficar completamente líquida, pelo contrário: deixando-a pouco mais líquida é suficiente para criar maior mobilidade e melhorar propriedades de alastramento. Ainda assim, isso não quer dizer que toda tinta deve ser modificada com adição de solvente. A adição de solvente é opcional, sendo necessária somente aos artistas que desejam uma tinta mais líquida. Aqueles que estão satisfeitos com a mobilidade de sua tinta não necessitam de solvente.

Muitos artistas usam solvente para obter uma tinta mais líquida simplesmente por que adquiriram esse hábito de outros pintores ou professores. Portanto, é sempre bom fazer um teste: tente pintar uma pequena tela somente com o uso de sua tinta habitual, mas sem uso de solvente ou medium. Se não sentir nenhuma dificuldade, e gostar da consistência da tinta direta do tubo assim como do resultado final da obra, é sinal que voce não precisa da adição de solvente em seu processo.

Coleta do Extrato de Terebintina na Flórida, 1912.

Modificando Mediums
Uma segunda função do solvente, é modificar as propriedades de corpo dos óleos vegetais usados como medium. No caso do óleo de sol ou do óleo polimerizado, que compreendem óleos extremamente viscosos, adicionar um pouco de solvente irá modificá-los, tornando-os mais parecidos com o óleo de linhaça alkalí comum, mais líquido.

Poder de Diluição ou Solvência.
Os diferentes solventes possuem níveis diferentes de diluição ou solvência, uns são mais poderosos do que outros. Essa informação é extremamente relevante para o artista, pois uma das funções dos solventes é amolecer as resinas sintéticas e naturais para transformá-las em vernizes e componentes de mediums. Na pintura, as resinas são divididas em resinas moles e resinas duras. Cada resina possui um ponto de diluição ou solvência que exige um tipo de solvente específico. Os bálsamos, como a Terebentina de Veneza e o Bálsamo do Canadá, podem ficar mais líquidos com adição de qualquer solvente, enquanto as resinas as resinas moles como a Cera de Abelha, Damar e o Mastíque podem ser dissolvidos descansando por longo período em solventes inodoros, ou para uma dissolução mais rápida com solventes mais fortes. Mas as resinas mais duras, como o Copal e o Âmbar, necessitam de solventes mais fortes, assim como aplicação de calor para dissolvê-los.

É o tipo de informação que na antiguidade qualquer artista tinha obrigação de saber. Com novos hábitos de procedimentos artísticos, impulsionados pela indústria de materiais e pelo próprio meio artístico, hoje, a maior parte dos artistas faz uso de solventes inodoros para qualquer atividade no ateliê, ou solventes não artísticos. Além disso, dificilmente o artista contemporâneo produz seu próprio verniz, pois compra-o pronto.

Odor e Toxicologia
A maior parte dos solventes é tóxico e inflamável em algum grau. Seja qual for sua opção, o uso desses produtos deve ser sempre feito com cuidado e bom senso. Nunca use esses produtos perto de lugares quentes ou com chamas, bujões de gás, fogões, calefações, aparelhos eletrônicos ou perto do sol, pois eles podem entrar em combustão. Nunca use-os em ateliês muito fechados ou espaços ínfimos, pois o odor traz inúmeros riscos a saúde quando inspirados por muito tempo. Não reserve panos e tecidos usados na limpeza do material dentro do ateliê, reserve sempre os trapos em sacolas plásticas fechadas com nós ou lixos com tampa, pois o odor do material mesmo a certa distância pode intoxicar vagarosamente, sem que o artista perceba.

Extrato Bruto.

O melhor, é trabalhar num ateliê muito arejado, com todas as janelas e portas abertas, ventiladores ligados, e ainda manter quaisquer objetos com traços de solventes longe, de preferência do lado de fora do ateliê, com tampas fechadas. Lave sempre muito bem as mãos e a área onde ocorreu o uso do material depois de seu uso. Consulte imediatamente um médico caso demonstre irritações, enjoô, dores de cabeça ou quaisquer sintomas adversos e leve com voce o rótulo do produto. Os solventes são perfeitamente seguros para uso quando tomamos todas as precauções e boa dose de bom senso.

Evaporação
Todo solvente funciona através de evaporação. A premissa básica é que o solvente seja uma substância volátil, isto é, que evapore completamente, sem deixar rastros, assim como o álcool. Portanto, o melhor tipo de solvente é aquele que não deixa nenhuma espécie de resíduo. Além da necessidade de que a substância evapore, é importante que essa evaporação aconteça de forma constante, por igual, nem muito demorado ou rápido demais.

Antigo Processo de Destilação, 1902.

Resíduos
Apesar de alguns solventes não serem exatamente produzidos para a pintura a óleo, é comum encontrar pintores que usem solventes inadequados para o uso artístico. A desculpa é sempre a "economia", referente ao preço dos materiais, pois eles são todos "os mesmos". O problema nesse procedimento é que a maioria dos solventes que não são produzidos com finalidades artísticas deixam algum tipo de resíduo depois que evaporam, depositando essa substância na superfície onde foram aplicados, além disso, quanto mais resíduos, mais demoram a evaporar. Dependendo do tipo e quantidade de resíduo deixado, podemos ter complicações futuras na conservação da camada pictórica e maior espera no tempo de secagem. No pior dos casos, alguns solventes com altas quantidades de resíduos indesejáveis podem ter traços de elementos resinosos ou gorduras não secativas, contribuindo para o amarelamento ou escurecimento das cores, assim como o enfraquecimento do filme e o prolongando imensamente o tempo de secagem.

Limpeza
Os solventes são agentes de limpeza que conseguem penetrar de maneira mais profunda do que a água e o sabão, no caso da limpeza específica de pincéis usados co tinta óleo. Portanto, são bons agentes de limpeza profunda. No entanto, são agressivos e acabam danificando as cerdas e o sistema de fixação das cerdas dentro do ferrolho. É aconselhável que a lavagem seja sempre delicada, e de preferência, que grande parte da tinta seja removida primeiro com água e sabão, e que o solvente seja usado somente quando tinta em abundância estiver encrustrada nas cerdas ou no ferrolho.

Solventes na Antiguidade
Os solventes usados na pintura antiga eram mais resinosos e com menos poder de solubilidade do que os solventes modernos, pois a destilação medieval era muito diferente da nossa. Há muitas especulações sobre o uso de solventes na antiguidade, para uso artístico. Mas seria correto afirmar que, os solventes usados como adição de medium ou nas tintas só começou a ser usado popularmente, da mesma forma que é usado hoje, somente por volta do séc.17. Anteriormente, isto é, por volta do séc. 14, os artistas usavam os solventes como matéria para fatura de vernizes. Cito uma esclarecedora passagem de Mayer, que parece concordar com outras fontes de informação também consultadas. Note que por "antigos", ele quer dizer, antes da Renascença:

"Os solventes e diluentes voláteis eram praticamente desconhecido pelos antigos. Segundo Plínio, algumas vezes se refinava o petróleo crú dos poços, e alguns bálsamos e oleoresinas dos pinheiros que eram destilados localmente de modo primitivo... ...a destilação da terebintina, álcool e outros materiais... ...mas todos os indícios levam a crer que estes produtos não eram aplicados ou adaptados ao uso prático (execto na medicina) antes do séc. 15."

Veremos a seguir, os primeiros solventes usados para fins artísticos, relacionados com a tinta óleo.




Álcool Natural
O álcool natural, em diferentes graus, era destilado ou separado usando vários tipos de substâncias naturais, amplamente empregado em uma série de atividades conhecidas pelo homem desde os tempos mais remotos.
O álcool de vinho (spirits of wyne) é um dos álcoois muito comuns relatados em algumas fontes como solvente. Há uma citação do uso de álcool como solvente envolvendo o uso do Brandy, na Inglaterra do séc.16, como substância de clarificação para óleo de linhaça. Essa talvez seja uma das pistas de que outros tipos de álcoois teriam sido usados como solventes, desde que o envolvimento do material nesse caso está diretamente vinculado com a pintura. É possível que outros destilados alcoólicos tenham sido usados na pintura de cavalete, mas pouco se tem conhecimento além dessas raras citações. Se o problema dos solventes inpuros e pouco destilados é a demora na secagem, o problema dos álcoois é o inverso: apesar de não deixarem resíduos, evaporam rápido demais, não servindo para pintura. Todos os solventes modernos, usados hoje com fins artísticos, possuem vantagens quando comparados a esse tipo de produto.




Nafta (Naphta/Naptha/Benzina)
O produto é mais uma das inúmeras substâncias resultantes da destilação do petróleo e é até mesmo citado na bíblia como solvente, no entanto, a identificação de seu uso na antiguidade, em inúmeros períodos, é algo complicado. Donald Fels explica a confusão bibliográfica começando com o nome atríbuido ao material e a dificuldade em compreender como se dava seu processo de fatura. Devido a essa confusão, o nome "Nafta", na antiguidade, pode sugerir inúmeros tipo de solventes diferentes: o nome pode estar relacionado a benzina, benzol, benzeno, querosene e uma infinidade de outros solventes minerais, dificultando um acerto sobre sua natureza e uso.

Há confusão suficiente no entendimento dos diferentes tipos de faturas do material, diferenças de nomes e, ainda por cima, dificuldade em detectar os resíduos do produto em pinturas antigas. Por isso, o relato de Merrifield e De Mayerne que citam o uso de Nafta na pintura a óleo durante a renascença, nas regiões de Modena e Parma, província da Reggio-Emilia, não nos confirma exatamente qual substância de fato foi usada pelos pintores. A Nafta é uma espécie de terebintina mineral (veja mais adiante) usada no passado, com proximidade a benzina, com variantes em formulações e derivados. De qualquer forma, não há provas científicas ou relatos suficientes que levem a crer que o material tenha sido usado popularmente como a terebintina é usada hoje, mas o relato das fontes supracitadas dão uma pista de que o conhecimento de fato existia, embora a natureza real do material seja nebulosa. Todos os solventes variantes da nafta são produtos inpuros e altamente tóxicos, é uma péssima escolha para o uso artístico sendo que uma série de produtos modernos mais límpidos e menos tóxicos estão disponíveis.





Óleo de Lavanda (Oil of Spike)
Ao contrário do óleo de camomila, o óleo de lavanda é amplamente documentado como um solvente usado na pintura óleo pelo menos desde o renascimento, e existem inúmeros relatos de seu uso pelos Velhos Mestres, não somente como adulterante de tintas, mas como componentes de mediums e solvente para vernizes. É resultado da destilação de um tipo de planta da família da lavanda e da alfazema chamada Lavandula Latifolia. Um excelente substituto de baixa toxidade para a terebintina ou qualquer outro solvente. O poder como solvente pode variar dependendo do modo de destilação e da qualidade das plantas de lavanda usadas, mas geralmente, é um solvente poderoso, em alguns casos, mais forte do que a terebintina, embora possua um odor nem um pouco desagradável, exalando um perfume que é uma mistura de cânfora e pinho, quando dentro do frasco, e mais floral quando começa a evaporar.

Demora mais para evaporar do que os solventes que passam por inúmeras destilações, sendo muito útil para aqueles que desejam que a tinta fique "aberta" por mais tempo. Também possui uma propriedade inerente que tende a ajudar no deslize do pincel, propriedade não encontrada em outros solventes, apesar de não ser exatamente expressiva e conferir uma pequena diferença. Alguns produtores disponibilizam a informação de que o óleo de lavanda promove a oxidação ao invés de simplesmente evaporar, como os outros solventes, mas o dado permanece sem conprovação científica. As antigas receitas de verniz de Âmbar sugerem o uso desse solvente, que ainda é usado nos dias de hoje pela Blockx, na fatura de seu verniz de Âmbar.

Aconselha-se que o Óleo de Lavanda seja misturado a um pouco de terebintina para que não retarde em demasia a secagem da pintura. A Espanha é um dos maiores e mais tradicionais produtores de óleo de lavanda na europa, e o produto costuma atingir altos preços, só é encontrado no Brasil nas importadoras de produtos artísticos. É o único solvente usado pelo menos desde a Renascença que apresenta vantagens suficientes para continuar a ser usado ainda hoje, dispondo de benefícios e vantagens quando comparado aos solventes modernos. Não confundir o óleo de lavanda puro para fins artísticos com as essências naturais vendidas em casas de materiais terapêuticos, pois não se trata do mesmo produto, sendo o óleo para pintura um extrato concentrado e o terapêutico, diluído, enquanto o terapêutico é produzido a partir de uma diferente variante da planta, a Lavandula Officinalis e a Lavandula Angustifolia, e não a Lavanda Latifolia, única variante usada na pintura chamada no Brasil de Lavanda Aspic.



Solventes Modernos:


Águarrás (Águarráz/Água-ráz/Essência de Terebintina/Turpentine Balsam or Gum)
Usada como substituta da benzina, material mais tóxico, a essência da resina de pinho (também chamada de essência de terebintina) é a substância adquirida através da primeira destilação da goma bruta de pinho, uma destilação pouco agressiva, eliminando algum excesso de resíduos mas não de maneira profunda. Isto é, uma "terebintina" limpa, mas com grande proporção de outras substâncias contidas na madeira. Possui odor caracteristicamente forte e repulsivo, sendo extremamente tóxico e inflamável, possuindo cor amarelada. Alguns produtores disponibilizam Terebintina Mineral (veja abaixo) como Águarrás, pois o produto mineral é incolor e pode ser confundido com Terebintina Vegetal que passou por um processo mai rigoroso de limpeza, mas não é exatamente o mesmo produto, apesar de cumprir a mesma função. Se sua águarrás é incolor e não tem cheiro de pinho, as chances de ser na verdade Terebintina Mineral são grandes.

Compare a cor da Águarrás com a cor da Terebintina bi-destilada, assim como o odor dos produtos. Devido a seu alto grau de substâncias vegetais que não foram eliminadas por uma destilação mais longa e adequada, existem inúmeras impurezas provenientes da resina de pinho presentes no produto, tornando-o grosseiro demais para ser usado na pintura a óleo. Ao esfregar um pouco de águrarrás nos dedos, ou pingar numa folha de papel, podemos entender facilmente que a substância deixa mais traços de resíduos do que a terebintina bi-destilada. Faça um teste. Existem várias outras opções mais limpas disponíveis para fins artísticos, configurando o produto como péssima escolha.




Terebintina (Águarrás "Especial"/Distilled Turpentine)
A terebentina é a Águarrás que passa por um processo de destilação mais adequado, eliminando maior proporção de extrato vegetal bruto, e reservando somente parte do produto destilado que tornou-se mais puro e mais volátil. É um produto mais puro do que a águarrás, mas ainda conserva traços de suas características vegetais. É mais clara do que a águarrás, praticamente incolor, mas ainda mostra traços da falta de uma destilação mais adequada. Não há como o consumidor de fato confirmar a maneira e a quantidade de destilações de um produto. Muitas vezes, a indústria pode chamar de terebintina e ser na verdade águarrás, como pode acontecer de se chamar águarrás e ser na verdade, uma terebentina destilada pelo menos uma vez. A cor geralmente é um bom sinal da destilação, evite usar terebintina com traços amarelados ou turvos, e sempre compre a mais incolor possível (com cheiro de pinho ou manga). Não é de todo o mal para a pintura, mas é bom evitar seu uso para fins artísticos.

É necessário que o artista lembre-se que o solvente deve ser o mais incolor, inodoro e volátil possível. A maioria dos solventes estão na faixa dos produtos "baratos", sendo assim, não há sentido em fazer uma suposta "economia" e usar um produto de destilação insuficiente para propósitos artísticos.




Terebintina Bi-Destilada (Distilled Turpentine)
Como sugere o nome, o produto é o extrato de pinho que passou por pelo menos dois processos de destilação que retiram praticamente todos os traços de substâncias não voláteis e indesejadas. Somente após a segunda ou terceira destilação adequada a terebintina se vê livre de resíduos como inúmeros diterpenos e triterpenos que podem ser um vasto número de diferentes substâncias que contribuem como resíduos não voláteis. São eles que dão a cor amarela para o produto, prolongam sua evaporação e deixam o lugar de aplicação do produto com resíduos não voláteis. A terebentina bi-destilada artística é livre dessas substâncias. É por isso que as outras formas menos destiladas, ou que passam por destilações rápidas ou inadequadas não são recomendadas. Torna-se um produto totalmente incolor, com odor menos agressivo (mas ainda forte) com grande poder de solvência e evaporação. É o solvente ideal para ser usado com tintas artísticas, mediums ou para dissolver resinas. As marcas estrangeiras de terebintina bi-destilada artística, como a da Winsor & Newton, são vendidas a preços altos no Brasil, devido a impostos de importação e a fama de suas marcas. Mas os produtos nacionais não trazem nenhuma diferença, de fato, em alguns sites das marcas estrangeiras é possível descobrir que seus produtos são feitos a partir de pinho brasileiro, é até possível que recebam o produto pronto e só façam o engarrafamento. É o solvente mais popular e adequado para fins artísticos, com bom custo benefício.



Terebintina Mineral (Mineral Turpentine/Turpentine Substitute/Mineral Spirits)
Apesar de não ter nenhum tipo de relação com as árvores pináceas ou com a terebintina, e ser na verdade um solvente orgânico derivado do petróleo, a terebintina mineral é chamada de "terebintina" simplesmente por que é um substituto da mesma, mas trata-se de um solvente de natureza diferente. É um derivado da parafina e possui odor diferente do que a terebintina, levemente mais neutro, e nota-se a ausência de odor pináceo. Costuma ser mais barato do que a terebintina, e é achado no Brasil no comércio de produtos químicos e materiais de construção, muitas vezes com o nome de terebintina ou "substituto de terebintina". É vendido na maioria das casas de materiais de construção dos EUA, sendo usado por muitos artistas que preferem "economizar", assim como a Água-Ráz no Brasil. Prefira a terebintina vegetal original, bi-destilada.




Terebintina Inodora (Ecosolv/Sansodor/Diluente Eco/Solvente Stoddard/Mineral Spirits)
É a versão da terebintina mineral com menos hidrocarbonetos voláteis, resultando em um produto com menos odor, pelo mesmo motivo, e possui menor poder de solvência. Muito popular nos EUA, principalmente na indústria de limpeza, por ser um solvente pouco agressivo, mas também é usado na indústria de tintas. Possui poder de solvência mediano quando comparado a terebintina e nem todas as marcas desse produto conseguem dissolver algumas resinas naturais ou artificiais, aqueles que conseguem, levam muito tempo para isso. A terebentina inodora é geralmente um pouco mais cara do que a terebentina comum, pela "comodidade" de não apresentar odor. Apesar de ter fama de produto "ecológico" e seguro, é um produto tóxico e inflamável, no entanto, menos do que a terebintina. É a melhor opção para artistas que não gostam de trabalhar com produtos tóxicos (se o mesmo necessita modificar sua tinta com solvente) ou que possuem algum tipo de aversão a solventes, mas sempre lembre-se das medidas de segurança quando fizer uso do produto, como se estivesse usando terebintina. Se você pretende fazer verniz no ateliê, esse não é o solvente mais aconselhável. Os solventes inodoros artísticos feitos no Brasil não devem nada aos estrangeiros, são opções de excelente custo benefício e possuem a mesma formulação.




Óleo Mineral (Parafina Líquida/Mineral Spirits/"Óleo Johnson´s")
É comum encontrar pintores que usam Óleo Mineral para limpar seus pincéis, mesmo sabendo que o produto não tem nenhuma relação com solventes, tratando-se de um óleo mineral usado como substituto de óleos vegetais comuns, portanto, ele não evapora. Assim como o White Spirits, também é um produto secundário da destilação de petróleo ou da geléia de gasolina, usada na obtenção de gasolina, similar a parafina e a vaselina, mas é líquido e não tem nenhum poder de solvência. É transparente, incolor e quase não apresenra odor. É um produto totalmente seguro para contato humano, possuindo vasto uso na indústria de maquinários, alimentícia, veterinária, medicinal e cosmética, encontrado comumente em loções para bebês, pomadas, maquiagens, e outros produtos. Superfícies lubrificadas com esse óleo adquirem menor chance de absorção de água, pois o óleo funciona como uma espécie de repelente, "isolante" ou protetor. O óleo mineral pode ser usado para limpar pincéis, mas o pincel deve ser limpo depois disso, para retirar quaisquer traços do óleo que porventura possam ficar nos pincéis, com água e sabão abundante. Isso torna o processo dispendioso, agressivo e demorado. Não é inflamável nem tóxico.

Limpar os pincéis com esse óleo resulta na difícil tarefa de retirar seus resíduos das cerdas e do ferrolho. Se os traços do óleo mineral não são completamente erradicados das cerdas dos pincéis, eles podem se misturar a tinta e se alojar na superfície da pintura, resultando em problemas de adesão. Recomenda-se que não seja usado como substância de limpeza para pincéis, espátulas ou outros tipos de materiais artísticos, embora muitos usem. Para os artistas que gostam de limpar os pínceis nesse óleo, substitutos mais adequados incluem o próprio óleo de linhaça, nozes, papoula ou cártamo, óleos que possuem afinidade com os óleos secantes contidos na tintas e mediums. Mantenha sempre seus pincéis livres de resíduos, principalmente resíduos com pouca familiaridade aos óleos vegetais.

Teste de Resíduo e Evaporação
Foi aplicado a um papel sulfite comum, com ajuda de um conta-gotas, uma gota de cada um dos seguintes solventes: Álcool 92,8º INPM, Álcool 46º INPM, Álcool de Cereais, Águarrás (Mineral), Óleo de Pinho, Terebintina Bi-destilada, Diluente Eco, Querosene e Óleo de Lavanda. Após espera de 24 horas, observando e anotando os tempos de evaporação, ficou claro que os álcoois evaporam mais rápido do que todos os outros solventes, sendo que os solventes mais demorados são, a Águarrás, e em segundo lugar, o Óleo de Lavanda. Os únicos solventes que deixaram rastros, resíduos ou manchas, foram a Águarrás e o Querosene, deixando o papel sutilmente mais amarelo e transparente, como se estivesse levemente impregnado de gordura.

Conclusões
Para uso na pintura moderna, a terebintina bi-destilada feita para uso artístico é o solvente mais útil com o melhor custo benefício e minimo resíduo, sendo completamente seguro. É aconselhavél que se faça uso desse solvente, na pintura a óleo, inclusive de marcas nacionais, que não devem absolutamente nada aos estrangeiros e são consideravelmente mais baratos. Qualquer marca para fins artísticos é excelente: Corfix, Acrilex, Gato Preto, Águia, etc.

Para os artistas mais sensíveis ao odor desses produtos, a melhor opção é a Terebintina Mineral Bi-destilada em sua variante inodora (Ecosolv, Sansodor), com bom custo benefício, ou o Óleo de Lavanda, material mais dispendioso mas com inúmeras vantagens, benefícios e características únicas. Quaisquer outros solventes não mencionados nessa conclusão devem ser veementemente evitados para uso na pintura a óleo.


BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.
MERIMÉE; The Art of Painting in Oil and in Fresco; Whitaker & Co.; 1839.
YVEL, Claude; La Peinture à L´huile; Flammarion; 1991.
LAURIE, A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
CENNINI, Cennino; Il Libro Del´Arte; 14th Century.
MERRIFIELD, Mary P.; Original Treatises On the Arts of Painting; John Murray; London; 1849.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2011.
DE MAYERNE; De Mayerne Manuscript, B.M. Sloane; 1620.
GOTTSEGEN, Mark David; The Painter´s Handbook; Watson-Guptill; 1993.

16 comentários:

  1. Tive um intoxicação série com solventes há cerca de 12 anos. Acabei, por isso, adaptando todo o meu trabalho apenas com o óleo de linhaça. Reduz bastante efeitos, mas consegui me adaptar.
    Belas postagens, Márcio!

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  2. É sem sombra de dúvida, um bom procedimento, totalmente possível, e sadio! Obrigado pela visita José, um abraço!

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  3. muito bom post, marcio, como sempre. sabe onde consigo a lavanda? já consultei o site da casa do artista e não encontrei por lá.
    paulo de carvalho

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  4. Olá Paulo! Não consta no site, mas eles tem no estoque, um amigo viu na semana passada. É da Le Franc, o frasco com 120 ml (se não me engano), sai por R$ 93.00 (o preço é esse mesmo). Mas voce encontrará de várias outras marcas nos sites estrangeiros. Pedi via correio e não tive que pagar imposto, chegou direto em casa. Pessoalmente, acho os produtos da Le Franc meio estranhos... No caso do Óleo de Lavanda, recomendo o da Maimeri, Lukas, Holbein ou da Natural Pigments. E ainda existem outras marcas. Abraço!

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  5. Oi marcio, excelente post! Sei que você disse que nao recomenda outros solventes. eu tenho usado o ecosolve nas minhas pinturas. E tem funcionado... tem algum risco a longo prazo nas telas este uso?

    abraços!

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  6. Olá Hiram! Não, não há risco algo, sendo um solvente completamente seguro. Só lembre-se de pegar leve no solvente... nunca mais do que 20% na sua porção de tinta. Um abraço!

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  7. Olá Marcio, passando por aqui para aprender um pouco mais...grande post, muito bem detalhado e redigido.Fiquei mais cuidadoso com o uso dos solventes e estou aprendendo seu uso correto com o Paulo Frade também. Grande abraço

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  8. Olá Gianni! Fico contente que esteja com o Paulo, que tem um talento ímpar! Os solventes ganharam fama de obrigatórios, sendo que ele tem uma função específica, e nem sempre o artista necessita do mesmo para seu trabalho. Sempre depende da técnica empregada e do tipo de tinta óleo que voce usa. O resto são detalhes, que podem ser lidos no artigo. Um abração, e obrigado por marcar presença no espaço, gosto muito dos seus comentários! Até!

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  9. Prezado Marcio, muito bom o post sobre solventes. Veio em boa hora, pois eu estava querendo mesmo saber sobre a vaselina l´quida que atua como solvente e não tóxica. Mas como um assunto puxa outro, resolvi perguntar sobre a pintura sobre o veludo. Tendo em vista que não é fácil utilizá-lo como base, sem uma preparação/im´rimação adequada que faça a tinta à oleo deslizar ou fluir sobre este tecido.
    Tens alhuna dicas a esse respeito, pois a maioria dos artistas que lidam com essa técnica, nçao a divulgam, ou necessitam levá-la para o túmulo sem que os amantes da arte possam sequer usufluí-la.


    Parabéns e um forte abraço.

    Paulo Mauricio F. Silva

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    1. Olá Paulo! Não tenho nenhuma experiência com a pintura a óleo sobre veludo. Portanto, meus palpites aqui, não passam de palpites, sendo que sempre é necessário que se tenha uma boa idéia sobre as necessidades estéticas de uma técnica particular para observar sobre os procedimentos dos materiais usados. Diria que todo tecido deve ser protegido da tinta óleo, sendo que o óleo com absoluta certeza pode danificar o mesmo a longo prazo. Mas sendo inexperiente quanto ao tecido e técnica em questão, não saberia informar os materiais e procedimento correto. Fico devendo essa. Um abraço!

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  10. Olá Márcio!
    Utilizo o D-Limonene, é feito da casca de laranja, nunca tive problemas com ele.
    Compro na Dim Clay, é o único que não é tóxico pelo que andei pesquisando e experiência própria.Só deixa um cheiro de laranja danado haha
    Seria legal ver sua análise dele!

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  11. Olá Anônimo!

    Conheço o D-Limoneno, tem fragrância acentuada de laranja, é muito agradável. O óleo de Lavanda também não é tóxico e pode ser usado! Farei uma análise do D-limoneno aqui no blog, é uma boa idéia e não sei como deixei de fora! Obrigado pela dica!

    Grande abraço!

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  12. Olá,

    Você comenta de leve sobre a limpeza de pincéis e levanta uma questão que poderia dar um post. Tenho dúvidas se estou fazendo isso da melhor maneira - mais rápida, econômica, menos agressiva para as cerdas e fácil.

    Tem algumas dicas para dar?

    Obrigado e parabéns pelo ótimo blog!

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  13. ola gostaria de agradecer por dividirem seus conhecimentos conosco, eu adoro fazer artesanato e essa semana resolvi investir e aprender a pintar tela, so que o solvente que usei foi terebintina , e como sou alérgica a muitas coisas não deu outra, foi enxaqueca na certe e passei muito mau, então pesquisando que solvente usar para eu não passar mau, vi seu post e adorei...Deus o abençoe....amei seu site....
    abraços
    Regiane

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  14. Cara Regiane, fico muito contente com suas palavras. Favor ler o artigo "Pintando sem Solvente". Segue o link: http://www.cozinhadapintura.com/2011/06/pintando-sem-solvente.html

    Grande abraço!

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  15. Que post esclarecedor, muito bom de se ler! E com referências bibliográficas no final, ou seja, muito confiável. Parabéns!

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