sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Mitos e Lendas

Nosso artigo tratará de um pigmento extremamente popular, que pode ser achado em abundância nas paletas modernas. Não somente um pigmento com uma cor interessante e útil, mas de fácil aplicação e que exerce certo fascíneo sobre os pintores, tanto dos retratistas ou aqueles que de alguma forma usam a figuração do corpo humano como tema principal, mas também na abstração, natureza-morta e nas paisagens.

Amarelo Indiano

Com altíssima transparência, o pigmento é particularmente útil para ser usado puro (sozinho, sem adição de outras cores), através do uso de veladuras, mas também pode ser usado em misturas, apesar de sua característica transparente torná-lo difícil de influenciar certas cores opacas e com alto grau de cobertura. O pigmento popularizou-se a partir do séc. 15, principalmente entre os pintores holandeses, mas era usado antes disso principalmente na Índia e na Pérsia. Uma outra característica da cor, é sua secagem demasiadamente lenta.

O
Magnesium Euxanthate (PY20 ou NY20), popularmente conhecido como Amarelo Indiano (Giallo Indiano, Indian Yellow), possui variantes levemente diferentes, mas todas são claras, muito luminosas e geralmente quentes. Na antiguidade, usava-se dois amarelos principais: o Amarelo de Chumbo (frio) e o Amarelo Indiano (quente), dupla que promovia a variação de temperatura dos amarelos numa obra, apesar de outras variantes de amarelo fazer meio campo de temperatura, como o Orpiment, e uma variação mais neutra, o Amarelo Ocre. Portanto, a importância do Amarelo Indiano vem justamente de sua característica transparente e quente, tratando-se de uma "inovação" interessante, única, na paleta holandesa, e mais tarde, na paleta européia. Acabou por se tornar uma das cores mais importantes na paleta dos pintores.


Forma pura do Amarelo Indiano


Processo de Fatura
Os produtores do Amarelo Indiano, localizados na Índia (daí o nome do pigmento), possuem criações de vacas para a produção exclusiva do pigmento. Além dos animais, é necessário o cultivo de mangueiras, árvores frutíferas. O gado é alimentado exclusivamente com as folhas da árvore, que possuem forte carga de matéria natural de cor amarela. Esse material é ingerido pelos animais, que ao urinar, reforçam a matéria prima em cor, e a urina é então separada em baldes. Esses baldes são reservados para decantação, e então, o material é:


"...aquecido para precipitar a matéria amarela, filtrado, prensado a mão em forma de bolotas e então secado ao sol."

Por certo, um processo trabalhoso e complexo. Além de dispendioso e demorado, o processo provavelmente resulta em pouca matéria prima. Mas o principal problema do processo, é que as vacas são alimentadas somente com as folhas de mangueira, e isso tornou-se uma questão de natureza preocupante entre os produtores e a indústria de materiais artísticos, para não dizer aos indianos, que consideram a vaca um animal sagrado:


"De fato, as vacas eram judiadas ao extremo, sendo que as folhas de manga não supriam nutrientes de forma suficiente, e viviam por um curto período de tempo. O processo foi considerado desumano e, desde 1908, o pigmento Amarelo Indiano foi proibido no mercado."


Com tantas informações pontuais, temos então, um interessante resumo da fatura do Amarelo Indiano, essas informações podem ser confirmadas em uma infinidade de fontes. Se nossos leitores correrem (antes que outros leiam esse artigo), encontrarão as mesmas dezenas de sites com exatamente as mesmas informações acerca desse processo.

No Entanto...

Em 2003, Victoria Finlay, uma cientista e pesquisadora, que questionou o processo, resolveu investigar profundamente a história do Amarelo Indiano. Finlay, procurou por provas escritas sobre o processo do pigmento, o único registro encontrado foi uma carta de T.N. Mukharji, um desconhecido supostamente da cidade de Calcutá, carta que se encontra na Society of Arts in London.  O autor descreve ter sido testemunha do processo em Monghyr (Índia), vilarejo da cidade de Byhar, descrevendo-o exatamente como aquele conhecido popularmente. Absolutamente nenhuma outra evidência escrita foi encontrada. Depois de extensa pesquisa por mais documentos ou relatos sobre o processo e de não achar mais nada além dessa simples carta, Finlay tentou achar provas da suposta lei que proibira o processo em 1908. Nenhum tipo de lei ou medida do governo Inglês ou Indiano menciona o pigmento, nem na virada do século ou outra época, nem mesmo na Biblioteca Nacional de Calcutá.


Teste de Cor e Opacidade do Amarelo Indiano


Partindo de outro ângulo, na esperança de encontrar relatos ou testemunhos orais sobre a produção do pigmento, Finlay foi a Índia, especificamente até a cidade mencionada na carta de Mukharji. Nenhum dos habitantes interrogados disse ter conhecimento de tal processo ou que a pratica foi um dia comum no local ou imediações. A conclusão de Finlay é de que, se o processo um dia existiu, não deixou nenhum tipo de registro oral ou escrito, a não ser pela carta encontrada em Londres. Além disso, não há nenhum traço físico deixado por qualquer tipo de instalação que pudesse ter sido usada para a fatura do pigmento. No entanto, a cor continua sendo amplamente produzida por inúmeras empresas, possuindo a mesma característica de antigamente. As constatações de Finlay tornam a "teoria" das vacas e das folhas de mangueira difícil de engolir.

O mais incrível, é que essa "revelação" não se trata de algo n
ovo. A revelação de que esse processo fantástico nunca existiu, já era "investigável" há muito tempo. Em 1844, isto é, antes mesmo da suposta "proibição" do processo de fatura do Amarelo Indiano, o Dr. John Stenhouse publicou seu artigo que investiga a parte química encontrada no pigmento. Nesse artigo, relata que não há traços de amônia ou de nitrogênio, substâncias obrigatórias no caso de traços de urina. Sua conclusão é que o pigmento é de origem vegetal, e que:


"...altamente provável que o pigmento comercial é a seiva de alguma árvore ou planta, a qual depois de ser prensada foi saturada com magnésia e aquecida para adquirir sua consistência atual."


Portanto, o antigo pigmento conhecido como Amarelo Indiano, é nada mais do que um extrato vegetal misturado a pó de magnésia e finalmente aquecido para adquirir uma consistência particular. Hoje, o pigmento pode ser feito artificialmente em laboratório e a maioria das tintas comerciais são feitas com uma versão sintética do pigmento.

Mesmo com esse fato científico irrefutável, o "famoso" processo do pigmento é tido como uma "verdade amplamente conhecida". A lista de fontes que trazem o mito da produção com urina de vaca e folhas de manga, conta com um número de 27 fontes, entre endereços na web e publicações de empresas de tintas famosas.

Faça uma pesquisa: a informação
 de que a cor se trata de um pigmento animal está em todo lugar, assim como o "famoso processo de fatura" e o "terrível tratamento" dado a esses animais. Não somente encontramos a informação em livros, nacionais e estrangeiros, mas também em sites de artistas e pesquisadores "respeitáveis", fontes consideradas "da mais alta confiança".

M
itos e Lendas
Não é o caso do Amarelo Indiano, onde investigações foram feitas, mas nunca se sabe ao certo onde e como essas lendas surgem. Talvez no caso do Amarelo Indiano, o autor da carta encontrada em Londres possa ser o responsável pelo começo do mito, ou pode ter se apropriado de um boato já existente para pregar uma peça em alguem. De qualquer forma, essas histórias possuem o estranho poder de prender a atenção dos artistas, principalmente os mitos com um toque de exotismo, como esse caso. Nos Workshops da Cozinha da Pintura que realizei em alguns ateliês e escolas, grande parte dos participantes parecem sempre mais fascinados pelos pigmentos de natureza fantástica: o Cochineal, laca vermelha (Carmim) extraída das espécies femininas do inseto mexicano Cochonilha, o Roxo de Tyrian que é extraído de gastrópodes (uma das famílias dos polvos) marinhos, e todo o tipo de material excêntrico. Ninguem parece interessado no Amarelo Ocre ou no Terra de Cassel, ambos simples porções de terra extraídas do solo.

O
 campo das técnicas e dos materiais de pintura está repleto dessas "teorias" ou "histórias fantásticas" que tornaram-se "verdades", apoiadas em teorias imaginativas e pela atenção dos mais sedentos pelo exótico. Particularmente rico nessas histórias, é o campo das "atribuições" de técnicas e materiais a escolas ou pintores específicos. Os mitos são inúmeros: o uso das inúmeras variações de Megilps ou Maroger Mediums atribuídos a várias escolas de pintura da antiguidade, Verniz Cristal sendo usado por Caravaggio, uso da cera de abelha e outros vernizes como o Vernice Liquida por Rembrandt, a "descoberta" ou "invenção" da pintura a óleo pelos irmãos Van Eyck, uso da câmera obscura por Vermeer (que de todas essas, é até uma teoria interessante, mas com furos detectáveis) e muitos outros exemplos.


Descartes: Artistas pesquisadores DEVEM
entender mais sobre seus métodos.


Essa fixação pelo exotismo, a existência de teorias miraculosas e a falta de ímpeto investigativo são os principais motivos pelos quais essas histórias, e aquelas sem nenhuma prova científica, continuam a rodar o mundo com tom de verdade. Elas prendem a atenção, despertam o interesse por sua natureza excêntrica. A parte que me parece incrível é o fato de muitos acreditarem em absolutamente qualquer coisa, sem a menor necessidade de comprovação científica. Em certos casos, bastaria uma rápida checagem no velho e empoeirado bom senso, seria o bastante para desmontar algumas dessas histórias incríveis. Já frisei inumeras vezes nesse blog, que o artista, antes de tudo, é um pesquisador. Além da necessidade da pesquisa, é necessário que ele esteja sempre atualizado, e com o ímpeto de pesquisa, há outros cuidados necessários: cruzar informações, comparar, averiguar, questionar.

A postura natural do pesquisador é a de
questionar. Não se pode esperar que um estudioso aceite qualquer teoria simplesmente por que a mesma encontra-se escrita em algum meio (livro, revista, jornal, internet, etc). Assim como no caso do Amarelo Indiano, se Finlay não fosse uma questionadora, ainda acharíamos que Vermeer cobria os rostos de suas figuras com urina de vaca. Mas graças a sua inquietude científica, hoje sabemos a verdade. Se uma teoria não tem quaisquer provas, não aponta fontes de informações seguras ou possui algum "furo", é necessário questioná-la, e procurar evidências com a ajuda da ciência para elucidar essa questão. Uma teoria sem provas científicas é apenas uma opinião.


BIBLIOGRAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
STENHOUSE, John. "Examination of a yellow substance from India called Purree"; The London, Edinburgh and Dublin Philosophical Magazine and Journal of Science; Novembro de 1844.
FINLAY, Victoria. "Color: A Natural History of the Palette". Random House. 2004.
MERIMÉE; "The Art of Painting in Oil and in Fresco"; Whitaker & Co.; 1839.
AMIEN; "Art Materials Information and Education Center"; 2011.


12 comentários:

  1. Confesso que estava gostando da "historinha" da vaca, pena ser mentira!rs

    Esse artigo me levou a outra reflexão, sobre o interesse humano pelo "fantástico", postura tão presente nos diversos níveis das atividades humanas. Seja na Literatura, Cinema, Religião, Arte, O "Fantástico" sempre esta presente, nos entretendo, e nos enganando...

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  2. Pois é Leo, meu amigo! O pior é que temos provas desde 1844 de que isso é um mito, e ainda vemos a mesma história publicada em uma infinidade de lugares. A pintura é cercada dessas histórias fantásticas. Algumas são inofensivas, mas outros mitos podem prejudicar seu trabalho. É sempre bom fazer uma pesquisa básica antes, não custa nada! De preferência, numa fonte segura! Abração!!

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  3. Fiquei surpreso tbm em saber que o uso da câmera obscura por Vermeer pode ser mito. Sempre achei aqueles pontos brilhosos dele tão fotográficos...Mas sendo ele um pintor tão escasso de informações, fica aí a margem para as suposições fantasiosas...
    Curti muito o post Marcio!
    Abraço!

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  4. Leo, em inúmeros quadros de Vermeer é possível observar a olho nú, uma pequena perfuração em um ponto chave do quadro. Se voce inserir um alfinete no buraco e amarrar uma linha, verá que usou isso para traçar linhas. O buraco é o ponto de fuga de suas composições. Ainda existem outros argumentos, mas pra mim, esse basta! Abração!

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  5. Muito curioso o post, nos faz refletir a origem dos pigmentos e a cultura mágica da descoberta. Assim como o Leo estava achando interessante a questão da vaca e no começo quando estava lendo até pensei “poxa eu uso urina e não sabia", ainda bem que não. Li algumas vezes sobre pigmentos com compostos tóxicos, porém no meu parco conhecimento não estudei a fundo a verdade disso. Outro dia estava assistindo um filme "Incognito", onde um pintor é contratado para fazer uma pintura de Rembrandt e ele usa,se não me engano, soldadinhos de chumbo colocados em um vidro molhados com vinagre e depois disso retira os resíduos da oxidação do material obtendo o branco. Seria verdade?
    Parabéns. Grande abraço!

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  6. Olá Gianni! As chances de alguem ter usado urina são praticamente nulas! Mas o mito é tão forte, e já que estamos citando filmes, até mesmo no filme "Moça com Brinco de Pérola", o mecenas de Vermeer comenta que o Amarelo Indiano de Vermeer é urina de vaca. Voce vai encontrar essa informação da urina e das vacas em todo lugar!

    O filme incógnito é uma "viagem" feita em cima da vida de Han van Meegeren, falsificador de muitas obras atribuídas a Vermeer, e de fato, ele pintou uma obra ao vivo para provar que havia sido ele o falsificador das pinturas, assim como no filme. A passagem dos soldadinhos de chumbo é razoavelmente próxima da realidade. Se quiser se divertir, leia o livro "Eu fui Vermeer", recomendo.

    O Branco de Chumbo, que Vermeer usava, era feito de carbonato básico de chumbo, que é basicamente conseguido através da oxidação do chumbo por ácido acético, embora o processo usado no filme não seja exatamente o mais prático e resulte num tipo de pigmento com ausência de hidróxido e acetato de chumbo (ambas substâncias presentes no carbonato feito pelo método "de empilhamento holandês"). Na época de van Meegeren era muito comum obter o carbonato em casas de componentes químicos, portanto, ele dificilmente teria de recorrer a um método como esse para empregar o pigmento. Abraço e obrigado pelo comentário Gianni!

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  7. Gianni, um adendo, pois somente agora notei que não respondi: o branco de chumbo é venenoso sim, assim como os cádmios, o branco de zinco, todos os cromos e uma lista bem considerável. Mas o pior perigo é aspirar o pigmento em pó, isto é, quando se FAZ a tinta. Quanto as tintas prontas em tubos, é só não deixar que entrem em contato com a corrente sanguínea, como através de cortes nos dedos ou ingestão. Abraço!

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  8. No começo da leitura até me distraí imaginando como separar o pigmento do líquido da urina da vaca,rsrsrs se fosse possível, tinha que ser muitos litros para conseguir algumas gramas.
    Concordo, pintura é uma ciência, o pintor um investigador, a técnica é o fruto, o resultado de muito trabalho.

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  9. Olá Vinicius! Pois é meu amigo... lendo nas entrelinhas, dá até pra fisgar as incoerências dessa "história", como voce o fez, sem precisar de testes químicos pra entender que é um mito. É o que sempre digo sobre o bom senso. Mas não deixa de ser engraçado! É justamente a postura científica, investigadora e questionadora que nos torna melhores. Fico contente em estar em contato com tantos artistas assim, aqui nesse espaço!

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  10. Muito obrigado por responder e também pela indicação do livro, sem dúvida o melhor blog de referencia artística. Grande abraço e sucesso!!!

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  11. Obrigado Gianni! Eu é que agradeço, o prazer é meu em ajudá-lo. Um abraço!

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  12. É tudo uma pena. Os artistas orientais não divulgam sob nenhuma hipótese os métodos de fabricação de suas tintas nem de suas fontes de matéria-prima. É-lhes importante manter o segredo.

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