quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Diferenças entre Métodos Direto e Indireto

No artigo anterior, discutimos as principais características do antigo método de pintura e sua estreita relação com o conhecimento da cozinha da pintura. Os argumentos e articulações abordados nos levaram a inevitavelmente comparar as diferenças entre o antigo método indireto e o método moderno de pintura. Vamos analisar, como continuidade do último artigo, quais são os principais pontos positivos e negativos de ambas abordagens, tópico raramente discutido, numa tentativa de entender quais dos métodos é mais eficaz, prático e "permanente", em termos de conservação.

O que é o Método Indireto ou de Camadas?
É o antigo método clássico de pintura. Implica em pintar "indiretamente", isto é, para alcançar uma cor ou valor final, é necessário o uso de artifícios que cheguem num resultado final de forma indireta, como as velaturas, a somatória de várias aplicações de cores transparentes ou semi-opacas.

O que é o Método Direto ou Alla Prima?
Muitos pintores costumam dizer que o método alla prima é justamente o que seu nome sugere: "de primeira", ou "pintar de uma vez", "numa sentada só" ou "sessão". No entanto, essas explanações dão espaço para algumas especulações.

Se um pintor pinta uma área inteira de sua pintura, como por exemplo, somente as porções do céu de sua paisagem, e só começa a pintar as porções de terra em outra sessão, isso é alla prima? E no caso do pintor começar uma área isolada do céu, esperar que seque, e terminar o restante do céu numa nova sessão de pintura? Também constitui-se como alla prima?

No meu entendimento, ambos os casos constituem o método alla prima. Apesar de ambos terem sido finalizados em etapas, e não de "uma só vez", o importante é que o pensamento e o ato de aplicar tinta acontece de maneira que a ela já se "aloje" com as cores e as formas do efeito final. Não há um pensamento ou procedimento de inúmeros estágios que somados formam um resultado final. O pintor almeja conseguir a cor final de uma área já na paleta. Essa mistura é transferida para a tela e aplicada com uma pincelada uniforme que não será mais tocada, geralmente permanecendo no suporte, até o fim da pintura, do mesmo jeito que foi colocada originalmente. O método alla prima, é um método de se chegar a uma cor ou valor de forma "direta", sem recorrer a inúmeras aplicações ou somatórias de artifícios. A abordagem já se encontrava presente nas últimas camadas da pintura indireta, principalmente nas luzes e impastos de cânones da pintura como Velasquéz, Rembrandt, Frans Hals e em outros exemplos até mais antigos.

Outros preferem usar a descrição de que alla prima é pintar "molhado sobre molhado", mas mesmo usando tinta "fresca sobre fresca" é possível pintar em camadas, principalmente se aplicamos um medium que altera as propriedades reológicas da tinta, tornando possível aplicar tinta "molhada" por cima de "molhada" sem que se apague ou se arraste a camada de baixo. Tudo indica que as primeiras pinturas inteiramente completadas com adição de tinta que já almejavam a cor do efeito final (e não através da adição de inúmeras velaturas), são provavelmente derivadas da escola Veneziana de pintura. Foram os pintores Venezianos que popularizaram a abordagem direta, criando uma forma mais prática, rápida e solta de pintura, algo sob medida para o homem moderno, uma abordagem flexível.

Características Estéticas
De maneira geral, o método indireto tende a produzir pinturas contidas, extremamente lisas e precisas, com degradês perfeitos, sem deixar marcas de pincéis, apagando a qualidade gestual. Algumas cores são alcançadas através de efeitos ópticos, pela somatória de suas cores transparentes, fenômeno possível somente com esse processo. Alguns acadêmicos tem a opinião de que o processo resulta em pinturas com um campo de profundidade só obtido com essa superimposição de camadas transparentes. Um bom exemplo do processo são as pinturas de Jan Van Eyck e dos italianos do Renascimento.

O método direto produz pinturas impastadas, com grossas camadas de tinta, blocos de cores muito bem definidos e com atmosfera solta, enaltecendo o gestual. O método é mais usado pelos pintores que preferem maior liberdade de trabalho e resultados mais imediatos, assim como uma estética mais solta e espontânea, somente obtidos de modo alla prima. Sem o método direto, não teríamos inúmeras tendências e movimentos artísticos como o impressionismo e os expressionismos. Tornou-se o "novo método" oficial de pintura acadêmica depois do séc. 18, substituindo o método indireto. Exemplos do processo são as pinturas de John Singer Sargent, Vincent Van Gogh e todos os expressionistas.

Características Processuais
O método indireto pode ser usado de duas maneiras. A mais usual é a aplicação de "molhado sobre seco", isto é, tinta molhada sobre uma camada previamente seca. Esse é o procedimento mais comum da pintura clássica, embora seja possível aplicar "molhado sobre molhado", como discutido anteriormente. Através do processo mais usual (molhado sobre seco), é necessário que a camada anterior esteja completamente seca ou pelo menos parcialmente seca antes que a camada subsequente seja aplicada. Esse tempo de espera, pode levar pelo menos uma ou duas semanas para que o próximo passo seja tomado, no caso de não haver uso de secantes e sobre um suporte não absorvente. Isso pode se tornar um horror aos pintores mais imediatistas principalmente quando muitas camadas são usadas. A criação de inúmeros mediums secantes, registrados em inúmeros manuscritos e tratados, foi justamente em função disso, assim como os suportes abosorventes ou semi-absorventes. O método é usado pelos pintores que preferem montar os valores através da soma de transparências, um processo demorado, mas só alcançado dessa maneira.

O método direto caracteriza-se principalmente pela aplicação de "molhado sobre molhado", trabalhando a tinta diretamente antes que seque. Desse modo, como não há camadas, ou sobreposição de substâncias, a pintura resulta numa película única sobre o suporte. Portanto, não há riscos de subverter a ordem de "magro sobre gordo", e também não há delaminações e craquelês em função da estratificação de vários filmes. Também se elimina a preocupação com a opacidade dos pigmentos, pois não se usa veladuras: mistura-se as cores na paleta, e na própria paleta descobre-se o resultado da mistura que irá direto para a tela. É um método descomplicado, flexível, intuitivo e dinâmico.

Características de Envelhecimento
O sistema indireto costuma apresentar filmes mais "baixos" ou finos do que o sistema direto. Isso quer dizer que a espessura de tinta alojada no suporte é menor. Inúmeros estudiosos, como Eastlake, já escreveram sobre suas observações acerca do fênomeno de que filmes compostos de pigmento e óleo ficam cada vez mais transparentes com o tempo. Isso implica numa situação desconfortável para aqueles que usam camadas. Se o pintor resolve, mais tarde, fazer uma pequena modificação anatômica em alguma figura, corre o risco de que a correção apareça como um "fantasma", anos mais tarde. Esses fantasmas são chamados de pentimenti, numa tradução livre, algo como "arrependimento". Isso ocorre justamente por que a camada de cima, que corrigiu um certo elemento, torna-se translúcida. O fenômeno é ainda mais contrastante quando as camadas de baixo são mais escuras do que as de cima.


Velasquéz: Observe o pentimenti, na imagem da direita, que
transpareceu e revela as alterações feitas na perna,

Isso tem uma segunda implicação ainda mais grave. Se o artista usa camadas, e tende a usar imprimaturas e underpaintings muito escuros, mesmo que ele clareie as últimas camadas, com o tempo, todas as camadas de cima vão adquirir transparência, e como o fundo da pintura é escura, afetará o resultado final. Somente o artista que tem consciência disso faz uso de cores claras e sutis nas camadas de baixo, uma maneira de evitar o problema. Um ponto positivo para a pintura em camadas, é que como seu filme é fino, os efeitos de amarelamento do óleo vegetal são reduzidos pela ação dos raios ultra violetas, que tendem a clarear facilmente camadas mais finas.

Com o uso de finas camadas de tinta, torna-se mais difícil que problemas de craquelamento apareçam. No entanto, quando pintamos em camadas, principalmente quando se usa "molhado sobre seco", é necessário tomar cuidado com a adesão. Quando uma camada não adere a anterior, a camada de cima pode se desprender, e criar o fenômeno chamado de "laminação" ou "laminamento". É por isso que alguns pintores da antiguidade adicionavam uma pequena carga de resina natural, pois a mesma dá maior adesão as camadas. Dificilmente encontra-se esse tipo de problema nas pinturas alla prima.

Quanto a conservação de pinturas executadas no modo alla prima, ou direto, é comum que os pintores usem mais tinta do que no método em camadas. Por esse motivo, é mais comum que as pinturas executadas com essa abordagem sofram mais danos com craqueluras devido a espessura do filme, ou em alguns casos o que se chama de "encolhimento" ou "murchamento" de uma área muito grossa. Esses são os problemas mais comuns da pintura direta em termos de conservação. A quantidade de óleo encontrado num filme abundante em tinta também é preocupante. Com o tempo o excesso de óleo pode atacar o tecido, principalmente se o mesmo não foi protegido por cola ou por gesso. Esse mesmo excesso pode contribuir para que a pintura fique mais escura. É nesse caso que os pigmentos claros feitos com óleos mais claros, como o óleo de nozes ou papoula podem ajudar. No entanto, é necessário lembrar que esses óleos possuem menor resistência e elasticidade.

Ação dos Raios UV sobre as diferentes abordagens

Por outro lado, como se usa maor quantidade de tinta, temos uma área mais "profunda" no filme para que os raios ultra-violetas consigam alcançar. Desse modo, as cores ficam "protegidas" por mais tempo, conservando sua cor, pois a ação dos raios necessita penetrar uma extensão muito mais grossa para promover a perda de cor das mesmas. Pigmentos com baixa resistência a raios ultra violetas (fugitivos ou não permanentes) tendem a durar mais tempo quando acumulados em grande quantidade. O mesmo princípio (acumulo de pigmento) torna o filme menos transparente com tempo, quando comparamos com filmes mais rasos ou finos. Equanto uma camada de tinta fina (método indireto) leva determinado montante de tempo para começar a transparecer, no método direto, temos o dobro ou o triplo de tempo para que a grossa camada possa começar a mostrar sinais de transparência, e em muito casos, a quantidade de pigmento no filme é tão grande, que o fenômeno simplesmente não é percebido a olho nú, ou simplesmente não faz diferença. Desnecessario dizer que os pentimenti são praticamente impossíveis em pinturas diretas.

Conclusões
Embora, a priori, o sistema alla prima possa parecer mais seguro em termos de conservação, uma análise mais detalhada pode sugerir que o conhecimento e a experiência no método indireto pode tambem resultar em pinturas com bom nível de "saúde" pictórica, principalmente quando a pintura foi feita num bom suporte rígido. Exemplos de péssimas aplicações assim como de excelentes resultados podem ser encontrados em ambos procedimentos. É particularmente importante, nesse caso, que o pintor lembre-se que as velaturas devem ser ricas em pigmento, e não em veículo, pois quanto menor a quantidade de pigmento na velatura, maior a ação dos raios UV a mesma sofrerá.

A verdade é que ambas abordagens possuem defeitos e vantagens. Cada uma deve ser aplicada observando essas características para que o artista consiga contorná-las, nos casos de suas desvantagens, ou aproveitá-las, nos casos de suas vantagens. Fica a encargo do resultado final então (atmosfera e estética), a escolha de quais técnicas são as mais interessantes para determinada obra.

BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.
MERIMÉE; The Art of Painting in Oil and in Fresco; Whitaker & Co.; 1839.
LAURIE, A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
CENNINI, Cennino; Il Libro Del´Arte; 14th Century.
MERRIFIELD, Mary P.; Original Treatises On the Arts of Painting; John Murray; London; 1849.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2011.
DE MAYERNE; De Mayerne Manuscript, B.M. Sloane; 1620.


13 comentários:

  1. Olá! Sensacional artigo! Gostaria de fazer uma pergunta: eu entendi direito, ou o método álla prima é então melhor que as camadas? Entendi que cada um tem seu efeito visual diferente, mas parece que em conservação o direto é melhoer.

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  2. Olá anônimo! Na verdade, não. Os dois métodos possuem vantagens e desvantagens. É questão de saber contorná-los ou aproveitá-los. Note o estado de conservação das obras renascentistas e flamengas (método em camadas), e verá que é possível conservar as obras em estado pristino de conservação. Só é necessário aplicar qualquer um dos métodos com bom senso. Obrigado e um abraço!

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  3. Muito bom meu amigo!
    Uma dúvida, tendo em vista a popularização dos suportes tipo “tela”, seria correto afirmar também que, o método direto potencializa suas vantagens se aplicado sobre painéis rígidos? Do contrário, essas mesmas vantagens transformam-se em desvantagens? Ou não existe essa equação em relação ao tipo de suporte?

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  4. Léo, eu diria que o método indireto tem melhores chances de conservação num suporte rígido, enquanto o direto não necessita tanto de um suporte rígido, ficando seguro em tecidos esticados em chassis. Mas, acredito que ambos podem beneficiar caso estejam sobe um suporte rígido. Ele é mais seguro para qualquer meio.

    Respondendo de forma objetiva, acredito que potencialize-se sua vantagens nesse caso. Mas não acredito que essas mesmas vantagens tornem-se desvantagens caso opte por tecido esticado em chassis.

    A não ser que o tipo de pintura seja em impastos extremamente grossos, como no caso de pinturas espatuladas, ou no caso de impastos usados em todas as estapas (underpainting, sombras, meio-tom, luzes). Nesse caso aconselha-se FORTEMENTE o uso de painéis rígidos.

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  5. Maravilha de post, estou ficando muito bem informado visitando o "cozinha". inclusive estou fazendo alguns estudos baseados em seus posts.Parabéns pela dedicação. Abraço!!!

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  6. Olá Gianni! Fico sempre contente com seus comentários! Obrigado! Gostaria muito de ver os estudos. Um abração!

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  7. Olá amigo. Tenho uma dúvida.Posso considerar uma pintura "alla prima" aquele feita com uma mancha tonal com formas indefinidas,e só depois começar a trabalhar cores e formas definidas e sua finalização.abraço

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  8. Olá Valzacchi! A pintura alla prima é quando pinta-se "molhado sobre molhado", de forma opaca, misturando as cores "uma nas outras". Abraço!

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  9. Antes de mais nada e, como sempre, excelente artigo. Vai então a questão: A advertência é para que na camada de underpainting os contrastes sejam baixos, ou seja, com os escuros não tão escuros assim, para não "subirem"?

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  10. Caro Oswaldo, obrigado por suas palavras generosas. Sim, esse seria o procedimento correto. Diminuir o valor do underpainting, tornando-o mais claro. Deixe os contrastes fortes para as velaturas do overpainting. Um grande abraço!

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  11. Há um erro no segundo parágrafo, você cita o método direto e explica o indireto.

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  12. Obrigado anônimo! Agradeço pela correção. Grande abraço!

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