sábado, 17 de setembro de 2011

Mastíque

Em diversos artigos anteriores comentei sobre o uso das resinas naturais. Uma notícia interessante surgiu recentemente, acerca do estado de conservação de algumas obras de um importante pintor. Essa informação pode nos servir de exemplo para ilustrar as consequências do uso das resinas, como o mastíque.

Antigos manuscritos medievais, como os manuscritos de Jehan Le Begue, Bolognese, Archerius, di Lucca, San Audemar, De Mayerne e o manuscrito de Fra Fortunato di Rovigo, de fato relatam o uso das resinas pelos pintores da antiguidade, como ingrediente de verniz e até mesmo misturadas no pigmento, no entanto não entram em detalhes específicos quanto a seu uso incorporada ao medium. Não temos por exemplo, um relato de como esses mediums com adição de resina eram exatamente usados, assim como um esclarecimento sobre a quantidade de medium usado numa pintura. 


Pedras (lágrimas) de Mastíque

Mas hoje sabemos, pela dissecação de inúmeras pinturas em grandes instituições, que a maior parte das obras dos períodos mais férteis da história da arte apresentaram resultados negativos quanto a presença de resinas. Uma minoria que apresentou resultado positivo mostra uso esporádico de material derivado de árvores da família das pináceas, empregadas por alguns artistas do renascimento assim como de períodos posteriores, mas com escasso uso de outras resinas naturais. O mastique parece ter sido introduzido um pouco mais tarde, assim como o copal.

Embora seu uso com devida moderação possa criar reologias interessantes e despertar o interesse de pintores que busquem uma abordagem romantizada de pintura, seu uso em abundância pode trazer severas consequências, como veremos adiante. Daremos foque a resina mastíque, que parece ter adquirido um status de exotismo e nobreza entre os pintores, mas que ironicamente, de todas as resinas, parece ser uma das menos indicadas para o uso em mediums.


Popularização do Uso em Mediums
Mas por que então o mastíque ainda é tido como um ingrediente nobre em alguns círculos artísticos? Alguns artistas dedicados a pesquisa da cozinha da pintura, como Merimee, Doerner, Abendschein e outros atribuiram como efeito das resinas os resultados obtidos na pintura antiga. Mais tarde a publicação de Maroger, que encontra continuidade na obra de Frederic Taubes e mais recentemente na obra de Claude Yvel, que continuaram a insistir nesse assunto
.

O problema é que essas publicações insinuam que o "segredo" da pintura antiga são os mediums ricos em resinas, quando na verdade, um medium serve somente para facilitar o alastramento de tinta e sua mudança corpórea. Além disso, esses mediums são usados hoje em quantidades muito maiores do que provavelmente as semelhantes substâncias um dia foram usadas na antiguidade. Em nenhum artigo científico que nos apresente os resultados de testes químicos das pinturas da antiguidade temos dados sobre a quantidade de resina usada.

Trata-se de uma interpretação errônea assumir que a resina era usada abundantemente como meio de alterar o comportamento da tinta radicalmente. Devemos lembrar que os artistas da antiguidade, que pintavam de forma indireta, usavam as resinas com moderação, somente para garantir a adesão de uma camada em outra e nunca como meio de adquirir transparências através do uso abundante de um medium rico em resina.

Os mediums constituídos com exageradas proporções de resinas relatados nessas publicações foram responsáveis por um "revival" do uso desse ingrediente. Nem todo escritor está a prova de erros, principalmente quando tratamos de publicações tão antigas. Com a quantidade de material bibliográfico que apontava a resina como elemento primordial da pintura antiga, criou-se um mito romântico em torno do material.

Entre as resinas, o mastíque encantou gerações por ser extremamente transparente, fácilmente dissolvido por ser mais macio do que as outras resinas e possuir odor mais agradável. Sua transparência cristalina tornava-o uma escolha lógica aqueles que tentavam encontrar um material que não mudasse a cor das tintas. Mas nem todos partilhavam do mesmo pensamento, e ao meio a todas as outras publicações técnicas, a obra de Sir Charles Lock Eastlake, em 1847, foi a primeira publicação a alertar que qualquer resina fatalmente irá amarelar e endurecer demasiadamente, mais tarde, Ralph Mayer voltaria a abordar o problema.


Verniz Mastíque da Old Holland


Seguindo um pensamento racional, é fácil chegar a conclusão de que: se toda resina irá amarelar e endurecer com o tempo, um filme pictórico que contenha maior quantidade desse material possivelmente irá se tornar ainda mais amarelo e quebradiço do que um filme sem resina. Portanto, seu uso em abundância é nocivo para a formação do filme de pintura. Existem algumas evidências científicas disso, sendo as mais famosas, o estado de conservação das obras de Sir Joshua Reynolds, Ralph Albert Blakelock e de alguns Pré-Rafaelitas, hávidos usuários de inúmeras concatenações em forma de "gel" que levavam diferentes resinas, muito similares aos mediums relatados por Merimee, Maroger, Taubes, Yvel, entre outros.

A
té a presente data, nenhuma instituição que porventura possa ter restaurado e examinado as obras da antiguidade encontraram concatenações parecidas com esse medium em "gel", óleo resinoso, relatado por esses escritores. Tudo indica que de fato, esse medium nunca tenha sido usado na antiguidade, e que se trata na verdade, de um medium usado depois do séc. 19.

N
ovas Informações
No meio artístico mais voltado a restauração e aos conhecimentos da cozinha da pintura, é comum surgirem boatos e rumores sobre o estado das obras de alguns artistas. Como exemplo, o boato das péssimas condições das obras de Jackson Pollock. Mas as galerias, museus e colecionadores dificilmente se prontificam em exibir fotos ou relatórios sobre o estado de conservação dessas pinturas, pois certamente trata-se de má publicidade. Ninguem gosta de afirmar que seu acervo está literalmente caindo aos pedaços. Essas pinturas muitas vezes passam por restaurações em sigilo.

Há alguns anos atrás, ouvi mais de uma vez certos boatos sobre o estado de conservação de algumas pinturas do fabuloso artista sueco Odd Nerdrum. Fiquei particularmente interessado, não somente por que Nerdrum é meu pintor contemporâneo favorito, mas por que seu estilo de pintura exige um altíssimo grau de conhecimento técnico, não somente nas abordagens de pintura mas também sobre a cozinha da pintura, portanto, entender o que teria saído errado, era de suma importância. Os rumores diziam que algumas de suas obras, pintadas durante um período específico, estavam literalmente se desmanchando. Nunca pude confirmar essa afirmação e naturalmente passei a ignorar os boatos.

Recentemente, veio a tona algumas informações fornecidas diretamente pelo pintor e por sua esposa, que julgo serem de inestimável valor informativo a qualquer artista que se aventure com mediums óleo resinosos. Nerdrum, um pintor brilhante e bom investigador da cozinha da pintura, certamente passou por uma fase de experimentar diferentes mediums, provavelmente com o respaldo de uma pesquisa calcada nas famosas publicações que advocam o uso das resinas. Fato comum para qualquer pintor interessado nas abordagens antigas, que as investigará, assim como os materiais usados pelos Velhos Mestres, e fatalmente encontrará as informações acerca do uso das resinas naturais, que por um período de tempo, teve o aval de alguns especialistas no assunto.


Odd Nerdrum: abandona o uso de mastique

Durante certo período, Nerdrum usou a resina mastíque em suas pinturas, outrora tão indicada em ínumeros livros técnicos. Pintou inúmeras obras que foram vendidas a instituições e a colecionadores particulares. No entanto, depois de muitos anos, Nerdrum foi comunicado por um de seus clientes que o trabalho estava "desmanchando". O verdadeiro terror, se deu ainda mais tarde, quando outras pinturas no mesmo estado começaram a surgir.

Reproduzo aqui, um trecho do texto de Turid Spildo, esposa do pintor:


Mas quando a notícia de uma segunda e terceira pintura arruinada chegou, ele se deitou prostrado na cama por três dias inteiros. Por lá, se deu conta que dez anos de produção foram perdidos, lentamente, mas com toda certeza... ...o mastique que ele e seus estudantes usaram como experimento não era bom. Mais tarde, se deu conta que esse mastique provavelmente era de arbustos jovens e não de arbustos maduros como de costume... ...essa resina ativa o derretimento (da pintura)... ...decidiu pintar novamente as obras dessa década, sem mastique é claro, imagino que naquela noite tenha jogado todo o mastique no lixo... Lembro-me, tempos depois, que um de seus estudantes ficou curioso sobre essa mistura (óleo/mastique). Odd empalideceu e disse a ele para nunca mais perguntar sobre isso e que nem deveria pensar sobre o mesmo.


É muito claro que não se trata de inexperiência ou ingenuidade do artista, pois ele é retentor de um conhecimento técnico inigualável. Nerdrum pintou essas abras numa época em que as informações sobre o uso desse ingrediente partiam de meras suposições dos estudiosos, mas que as escreviam com tom de certeza científica.

Estudando um Caso Específico
A conclusão de Nerdrum sobre a resina ser procedente de arbustos jovens é interessante, mas não encontrei em nenhuma fonte bibliográfica material que corroborasse com essa afirmação. Algo a ser pesquisado e discutido com outros colegas com os quais mantenho correspondência técnica e posteriormente discutido aqui. Mas arrisco a dizer que há possivelmente outros fatores que podem ter contribuído a esse caso, como por exemplo, a quantidade usada de resina. Em todo caso, enquanto as obras comprometidas não forem analisadas por spectrometria, nunca saberemos de fato a principal causa do ocorrido: idade do material (resina de arbustos jovens ou velhos) ou quantidade usada de resina. 

Mas, uma coisa é certa: se não houvesse traços de resina, seja ela de arbustos jovens ou não, não haveria perigo de "derretimento", craquelamento ou outros desastres. Se a mistura usada por Nerdrum fosse constituida somente por tinta a óleo, a relação óleo/pigmento não estaria quebrada, garantindo proporções ideais entre veículo e carga inerte, tornando-se uma película resistente e elástica, garantindo que as mudanças naturais de temperatura não comprometessem sua estabilidade e integridade. 

Nerdrum, o pintor contemporâneo por quem nutro grande fascinação e respeito, felizmente interrompeu o uso da resina mastíque muitos anos antes de receber o aviso da primeira obra com problemas de integridade. Caso tivesse continuado a empregar a resina em suas obras, teriamos um número muito maior de obras comprometidas. O prejuízo econômico para Nerdrum é altíssimo, mas não significa nada comparado ao dano moral e psicológico desse extraordinário pintor. Parte dessas obras foram novamente pintadas pelo artista, sem o uso da resina, e entregue aos compradores.

P
essoalmente, por experiêcia própria, prefiro o uso da resina damar, que parece ter secagem mais rápida e formação de filmes menos macios. Através dos experimentos feitos no ateliê com a resina Mastíque, obtivemos bons resultados somente quando a resina foi usada em finíssimas camadas. As camadas mais generosas de Mastíque tiveram tempo de secagem demasiadamente prolongado, permanecendo por um longo tempo num estado grudento, algumas amostras demoraram espantosos 10 meses para secar por inteiro, e ainda permanecem levemente macias. Na adição de mediums promove as mesmas caracterícticas da resina damar, sem nenhuma diferença, talvez a única compreendendo seu odor característico. O Mastíque só mostrou vantagens como elemento fundamental na fatura do Megilp e do Maroger, sendo que a adição de resina damar ao óleo negro resulta num "gel" que se liquifica em poucos minutos. Sendo esses mediums não absolutamente saudáveis ou particularmente úteis, nossa conclusão é de que o Mastíque não oferece muitas vantagens.

Tudo indica que o melhor para a saúde de uma obra feita com tinta a óleo é o uso exclusivo de tinta, sem nenhum outro tipo de adição. Com algumas ressalvas a mediums simples que fazem uso com parcimônia de resina, preferencialmente as resinas mais duras como o Copal ou até mesmo o Âmbar ou alguns bálsamos, como a Terebintina de Veneza, ou melhor ainda, sem o uso de resinas.


BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
BILLINGE, Rachel. 'Recent Study of Raphael’s Early Paintings in the National Gallery, London, with Infrared Reflectography'. Raphael’s Painting Technique: Working Practices Before Rome. Nardini Editore, 2007.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.
MERIMÉE; The Art of Painting in Oil and in Fresco; Whitaker & Co.; 1839.
YVEL, Claude; La Peinture à L´huile; Flammarion; 1991.
LAURIE, A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
CENNINI, Cennino; Il Libro Del´Arte; 14th Century.
MERRIFIELD, Mary P.; Original Treatises On the Arts of Painting; John Murray; London; 1849.

AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2011.


6 comentários:

  1. Estou com uma curiosidade absurda de saber como ocorre esse "derretimento" das pinturas do Nerdrum...

    Marcio, parabéns pelo post, mas uma vez, excelente!

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  2. Curioso, o Mayer já destacava os efeitos nocivos das resinas desde seu lançamento na década de 50, é surpreendente que ainda seja usado em abundancia nos dias de hoje, uma vez que o Manual do artista é um livro bem popular entre os artistas...

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  3. Leo, a descrição da fonte onde li o ocorrido fala sobre "derretimento", mas sabe se lá o que de fato está acontecendo com a obra?

    De fato, talvez somente o Eastlake e o Mayer sejam os únicos a alertar os artistas sobre isso. Abraço!

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  4. Vou adicionar ao artigo sua lembrança sobre o Mayer. Muito bem lembrado, obrigado Leo!

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  5. Olá, preciso comprar Mástique em lágrima para uma fórmula, vocês tem ou tem como indicar onde comprar? Obrigado

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  6. Olá Alan,

    Voce encontrará na Lukas (www.lukasdobrasil.com.br). Fale com a Sara ou com a Sônia e diga que o Márcio da Cozinha da Pintura lhe indicou.

    Grande abraço!

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