quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Vermelhos

Importantíssimo para as composições pictóricas não somente para colorir objetos que naturalmente são avermelhados mas para esquentar cores mais neutras ou frias, as tintas de cor vermelha despertam um fascínio especial aos pintores desde o período paleolítico. O pintor moderno que usa tinta a óleo depara-se com uma quantidade considerável de tintas vermelhas e isso pode se tornar um problema caso não compreenda suas diferenças. Cada vermelho possui um comportamento diferente, mesmo aqueles que a priori são muito parecidos. Vamos analisar essas cores e usando o teste de mistura de tom descobrir suas naturezas tonais. O teste de tom (em inglês, tint. Refere-se a mistura de uma cor com branco) é importante pois a adição do branco nos revela nuances que não são percebidos quando a cor é usada de maneira pura.

Devido a grande quantidade de leitores que usam tintas nacionais, compreendendo a esmagadora maioria, todas as cores aqui avaliadas são da marca nacional Corfix. Trata-se da marca de tinta brasileira com maior número de cores em sua paleta, e mais importante que isso, a única que discrimina em seus rótulos o código de pigmentos e a quantidade de pigmentos usados. Os leitores já aprenderam, em post anterior, que a escolha de uma tinta monopigmentária, isso é, que usa somente um pigmento, é importante para manter uma alta qualidade de intensidade cromática em suas pinturas. Portanto, todas as tintas apresentadas aqui são cores da Corfix que usam apenas um pigmento, e não misturas de dois ou mais pigmentos em sua formulação.


Os diferentes vermelhos testados

As amostras de cores da primeira linha (acima da linha cinza) são as tintas puras, direto do tubo. Cada coluna compreende a tinta original com adição gradativa de Branco de Titâneo. A primeira amostra com cerca de 10 a 20%, a segunda com 40 a 50% e a terceira com 70 a 80% de branco.


1. Terra de Siena Queimada
2. Vermelho Óxido Transparente
3. Vermelho da China
4. Vermelho de Cádmio Claro
5. Vermelho de Cádmio
6. Vermelho de Cádmio Escuro
7. Vermelho de Cádmio Púrpura
8. Alizarin Crimson
9. Magenta


1. Terra de Siena Queimada (PR101)
Apesar dessa cor ser terrosa, de todos os tons terrosos é o mais avermelhado. Importantíssimo na história da pintura clássica, tem lugar insubstituível nas paletas que exigem uma quietude cromática, principalmente para a paleta dos Velhos Mestres, sobretudo na Itália, e para a paleta dos retratistas. O contexto quando tratamos de cor faz toda a diferença. Essa cor pode parecer apagada ao lado dos Cádmios, mas ao meio uma paleta totalmente terrosa, é um vermelho intenso e muito útil. É uma cor que não deixa a paleta da maioria dos pintores. Permanência excelente, em ambas versões: sintética e natural. No caso da Corfix, uma versão sintética.

T
este de Cor e Mistura: O PR101 da Corfix comporta-se exatamente como esperado por uma cor terrosa, se neutraliza cada vez mais com a adição de branco, atingindo uma ótima base para tons de pele ao final do teste. Nenhuma surpresa aqui, sendo uma cor clássica e amplamente usada.

2. Vermelho da China (PR170) 

Conhecido popularmente como Vermillion nos EUA e Europa, também foi conhecido como "Vermelhão" ou "Vermelho Chinês" aqui no Brasil. Esse substituto do Vermillion original é um pigmento orgânico da família dos Pyrols (Monoazo) usados como substitutos baratos para os Cádmios. Há relatos de perde de chroma dos pigmentos dessa família, como o PR188, PR170, PR57 e PR254, sendo os dois últimos, os piores. Meus testes de permanência com o PR170 da Corfix resultaram em excelente desempenho.

T
este de Cor e Mistura: O PR170 da Corfix começa o teste de tom como um vermelho surpreendentemente mais intenso do que os Cádmios, com temperatura levemente mais fria. Enquanto os cádmios se tornam tons mais alaranjados ou terrosos, o Vermelho da China, ao começo da adição de branco, torna-se um vermelho menos alaranjado do que os cádmios e gradualmente, transforma-se num rosa com tendência levemente magenta ao fim do teste. É uma cor indispensável para tons de pele levemente rosados.

3. Vermelho Óxido Transparente (PR101)

Essa cor é muito importante para aqueles que pintam de forma indireta, na adição de véus de tintas transparentes, pois nos dá a possibilidade de velar sem a necessidade de mediums ou adições extras que possam alterar a proporção pigmento/veículo e comprometer a durabilidade ou estabilidade do filme formado pela tinta.

Teste de Cor e Mistura: De extrema transparência, o PR101 da Corfix quando usado em grande quantidade é uma cor muito escura, mas quando usado esparsamente, é na verdade um vermelho alaranjado. Somente um toque de branco foi necessário para mudar completamente sua cor, tornando-o muito mais claro. O teste de tom mostra que seu tom laranja torna-se um castanho muito parecido com os castanhos gerados com o Terra de Siena Queimada, mas conforme adicionamos branco, tende a se tornar um ocre com forte acento amarelado. De todos os vermelhos testados, é o com maior tendência amarela no teste de ton.


4. Vermelho Cádmio Claro (PR108)


5. Vermelho Cádmio (PR108)



6. Vermelho Cádmio Escuro (PR108)
É fato que os cádmios compreendem pigmentos de excelente durabilidade, e confirmo essa máxima em questão a todas as cores de Cádmio PR108 usados pela Corfix. Só vale lembrar que a Corfix disponibiliza uma série de Cádmios da série I que são na verdade uma imitação. Prefira os Cádmios originais da série III, mais caros, porém duradouros. São pigmentos extremamente opacos que usados de maneira "fina" ou em impastos não apresentam mudança de cor (entre camadas finas ou grossas)

Teste de Cor e Mistura:  Quando comparamos suas três versões, nota-se uma pequena mudança quando misturados ao branco. No teste de tom, nota-se que o Cádmio Escuro é menos cromático do que o Cádmio Vermelho que por sua vez é menos cromático do que o Cádmio Claro. O vermelho mais "puro" entre eles é o Cádmio Claro, os outros dois apresentam uma perda de seus traços vermelhos indo em direção a tons levemente mais acinzentados. Numa comparação entre as amostras com 80% de branco, nota-se que quanto mais escuro a cor do cádmio, mais rosado temos os tons, e quanto mais claro, mais traços de amarelo ou laranja. O tom final do Cádmio Escuro é praticamente um carmim desaturado ou terroso, enquanto o Claro ainda exibe forte traço cromático e menos "terroso". Isso comprova a preferêcia de pintores retratistas experientes pelo Cádmio Claro como vermelho para misturas de tons de pele. Com esse teste, entendemos que os nomes Claro, Médio e Escuro realmente estão diretamente relacionados NÃO somente a valor, mas TAMBÉM ao chroma dessas cores. Sugiro que façam o teste, pois as fotos não captam as cores com fidelidade, tornando difícil uma compreensão apurada dessa análise.


7. Vermelho Cádmio Purpura (PR108)


De valor muito escuro, o Cádmio Purpura é ainda mais escuro do que o Cádmio Escuro, e exibe, naturalmente, traços violáceos que não o tornam um violeta avermelhado, nem um roxo, mas um carmim bem escuro, quase como o Alizarin Crimson com um traço de branco, de maneira impastada.

T
este de Cor e Mistura: Esse PR108 com traços de carmim perde gradativamente o chroma exponencialmente, quando misturado ao branco. Ao fim do teste, temos um cinza levemente roxo, praticamente uma cor terrosa clara. É uma cor muito interessante para uma paleta terrosa que necessite de uma terra levemente roxa. Torna-se demasiadamente apagado próximo aos outros cádmios. Pessoalmente, não vejo vantagem dessa cor numa paleta de alto chroma.


8. Alizarin Crimson (PR83)

Meu teste de permanência do PR83 confirmou as informações obtidas em inúmeras publicações de que o mesmo é um pigmento mais sensível a luz do que se deseja, tornando-se um rosa apagado a longo prazo, dependendo da quantidade de luz e do ambiente onde a obra ficou exposta. Muitos fabricantes conferem índice de permanência II para essa cor, ou até mesmo "excelente", mas um simples teste de permanência revelará o contrário. Existem vários substitutos mais permanentes para essa cor, como o PR177, PR179, PR264 e o PV19. Embora vários fabricantes possam avaliar o PR177 como um excelente substituto, há indícios de que não é um pigmento cem por cento confiável, e além disso, sua cor é consideravelmente diferente do legítimo Alizarin, embora mais permamente. Dê preferência principalmente ao PV19, ou na ausência do primeiro, ao PR179, de todas as variantes as mais confiáveis.

T
este de Cor e Mistura: Usado direto do tubo, essa cor é um vermelho com traços de magenta quando usado de modo "fino" e usado em impastos é um carmim bem escuro. No teste de tom (misturado ao branco) o Alizarin torna-se um carmim forte ao começo do teste e um rosa violáceo levemente desaturado ao final. O problema é sua falta de permanência. Mas para alcançar o tom mais claro descrito acima, é possível empregar o Vermelho da China. Para alcançar seu tom mais escuro somente uma mistura de dois ou mais pigmentos, como o Vermelho de Cádmio Púrpura e o Vermelho da China com um toque de Magenta. Sinto fortemente que o Alizarin é uma dessas cores que surte misturas únicas, portanto, insubstituível. Para evitar muitas misturas que dificilmente chegarão perto da cor original, continue com o Alizarin Crimson, mas prefira o de formulação PV19 ou PR179. Já é hora da Corfix disponibilizar essa cor sem o uso do PR83.


9. Magenta (PR122)

O Magenta, como diz seu nome, não é exatamente um vermelho, mas achei interessante incluí-la no teste pois pode ser usada para modificar temperaturas. Nesse caso, o Magenta PR122 é um Quindo Red chinês usado em diversas industrias. É o único pigmento vermelho da Corfix o qual não testei permanência. A indústria chinesa dá nota 7 de permanência. Seu uso é por conta e risco do artista. Pessoalmente, prefiro futuramente disponibilizar aqui os testes de permanência que aplicarei a essa cor antes de sugerir seu uso.

T
este de Cor e Mistura: Muito transparente, essa cor aplicada em velaturas é realmente um magenta, mas usada em impastos, é um carmim escuro. Ao começo do teste adquire um tom mais próximo a um carmim escuro violetado, na metade da mistura torna-se um "pink" de alto chroma, e finalmente um rosa claro violetado.

C
omo finalização, considero o Vermelho Cadmio Claro, Vermelho de Cádmio, Vermelho da China e o Vermelho Óxido Transparentes como cores interessantes (dentre as analisadas aqui) e muito úteis, como os vermelhos mais populares de alto chroma. Para uma paleta terrosa ou de baixo chroma, destaco o clássico Terra de Siena Queimada.


BIBLIOGRAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
DELAMARE; Guineau; Colors: The Story of Dyes and Pigments; Harry Abrams; 2000.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.


16 comentários:

  1. Márcio, mais um excelente post! Parabéns!
    Gostaria de pegar "carona" no tema abordado, e perguntar o seguinte: porque os cádmios nacionais são muito mais baratos que os importados?

    Abraço

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  2. Muito bom o site, está nos meus favoritos, acompanharei sempre. Agora uma dúvida: existe muita diferença de qualidade entre a marca corfix e acrilex? Obrigado.

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  3. belíssimo post, marcio! (já está redundante falar isto, preciso mudar minha exclamação, rs...). prá mim valeu mais como um estudo do comportamento cromático dos vermelhos. já havia percebido algumas das coisas que você cita, a maioria, não. bom, você sabe de meu pé atrás a respeito de vermelhos "baratinhos", mas não vou tocar no assunto. estou aconselhando o uso da corfix aos meus alunos tendo você como fiador. começo a ficar tentado a fazer alguns testes. no que diz respeito à variedade de cor, concordo com você: não tem outra por aqui.
    abraço,
    paulo de carvalho
    p.s.: hoje usei o branco de zinco da forma como você indica e ganhei o dia! vai ficar prá sempre. (bom, ao menos enquanto eu durar...)

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  4. Obrigado Paulo Frade, meu amigo! A maioria das tintas nacionais, como voce sabe, são mais baratas mesmo. Existem cádmios mais caros e cádmios mais baratos, assim como a maioria dos outros pigmentos. Não somente a QUALIDADE do pigmento altera o preço, como sua QUANTIDADE. Mas acredito que a Corfix tenha um bom custo benefício quando tratamos de tinta nacional! Abraço!

    Borealis, obrigado! Nunca fiz muitos testes com a Acrilex. Mas uma coisa que NÃO gosto na marca, é a falta de informações sobre os pigmentos que vão em sua formulação. Não dá pra comprar algo que voce não saiba o que vem dentro. Abraço!

    Paulo de Carvalho, obrigado! A desconfiança quanto aos cádmios baratos não é só com voce... Note o comentário do colega Paulo Frade! Abraço!

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  5. Oi Márcio!

    Que post maravilhoso! Acabei de chegar de minha aula de pintura e, por coincidência, conversávamos sobre vermelhos, sobre esquentar as cores, etc. Perfeito encontrar esse post aqui, pois complementou as informações da aula!

    Vou aproveitar a oportunidade para te perguntar se vc já fez alguma publicação (em forma de livro, e-book, apostila, artigo, etc) com o conteúdo dessas tuas postagens para venda... eu já te falei que sempre imprimo e levo para o atelier para consulta, mas seria ainda melhor se esse conteúdo estivesse organizado em uma publicação que pudesse ser manuseada com mais facilidade. Se vc ainda não publicou esse material, deveria! Eu seria a primeira a adquirir o trabalho!

    Um grande abraço e obrigada, mais uma vez, por desvendar tantos mistérios para essa alma iniciante aqui do outro lado da tela!

    Abs

    Luciana

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  6. Olá Luciana!
    É provavel que a solidificação dessa pesquisa um dia torne-se um livro. Mas por hora, pensei na apostila sim. Estou providenciando, e logo postarei um link aqui para download. Um abração, e obrigado por acompanhar sempre o Blog!

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  7. Márcio, sempre esclarecedor seus posts!!!

    Eu particularmente nas acrílicas, que não é o caso em questão, não gosto da marca Acrilex. Não tem "pegada" e suas tintas parecem sempre flutuar no trabalho o que me fez lembrar da Pebéo nas tintas à óleo.Eu não gostei dessa marca também e aí sou muito mais a Corfix para quem não pode ou não quer trabalhar com importadas boas.

    Abraço.

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  8. Obrigado Celso, meu amigo! Acredito que os pigmentos das acrílicas nacionais sejam exatamente os mesmos em suas cores correspodentes a óleo, com uma ou outra exceção.

    Não testei as tintas da Acrilex. Aliás, preciso considerar testá-las assim que possível, pois devido a pouca quantidade de marcas nacionais, sempre tem alguem que pergunta.

    Sua preferência é mais uma prova da popularidade da Corfix aqui no Brasil. E a Pebeo é realmente uma tinta estudante... abraço!

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  9. Tenho usado os cádmios sintéticos, os do tipo "imitação" grupo 1. Como alguém já mencionou antes, uma tinta "honesta" Acho o resultado muito bom, com boa pigmentação inclusive, não sei quanto a permanência, apesar das 03 estrelinhas rsrsrs...
    Abraço!

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  10. Leo, eu nunca usei os Cadmios da série I. Vou testá-los! Abração!

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  11. Posso misturar várias marcas de tintas ex:. Lukas, Pebeo, rembrandt...Para pintar uma tela à óleo?

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  12. Gilberto, sim. Elas são todas misciveis.

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  13. olá Marcio desculpe incomodar mas certas questões ficam batendo,tudo o que sei é pegar a tinta pronta e usar, por exemplo os vermelhos de cádmios são feitos de pr108, assim como quase toda cor branca é feita com pw6 pw4 e pw1 os mais conhecidos do publico, tenho uma tinta da mussini amarelo de cádmio claro feita com py35 e com pw21 nunca ví brancos feitos com esse pigmento,mas minha duvida é tenho um sombra queimada da mussini com pbr7 e um terra de siena queimada italiana da williamsburg,com pbr7 apenas um pigmento sem misturas um marron e o outro vermelho como? grande abraço.

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  14. Caro Jose

    Sua cor feita de PY35 é um Cadmio - Sulfeto de Zinco.

    O índice de cor PBr7 é dado a uma enorme quantidade de diferentes terras naturais, que podem apresentar variações de marrom avermelhado, alaranjado, amarelado, etc...

    Grande abraço!

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  15. valeu Marcio, obrigado pelo esclarecimento abraço.

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