sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Alizarin Crimson

Já discutimos em dois artigos diferentes (Pigmentos Não Permanentes e Vermelhos), sobre a alta sensibilidade a luz de uma cor muito popular entre os artistas: o Alizarin Crimson. Para aqueles que não se recordam, peço que leiam somente os trechos de ambos artigos que tratam sobre a cor em questão. Com o post de pigmentos não permanentes, muitos me escreveram, dizendo-se surpresos quanto a essa falta de permanência. Devido a essa polêmica, decidi explicar de modo mais detalhado seu comportamento.

Alizarin Crimson
O pigmento usado na antiguidade como Alizarin Crimson possui o índice de cor NR9, uma laca vegetal extraída da planta Rubia Tinctorium, usada desde os remotos tempos das civilizações egípcia e romana. Seus principais constituintes são a Alizarina e a Purpurina. Devido a suas propriedades não permanentes recebe índice "IV" (fugitivo), e essa formulação original foi então substituída por uma substância orgânica que recebeu o índice de cor PR83 (índice III, pouca permanência) , uma forma sintética do pigmento original, sem a purpurina. Portanto, o PR83 é mais permanente do que sua formulação original, o NR9, mas ainda apresenta certo grau de não permanência. O PR83 acabou se tornando o substituto oficial do Aliazarin legítimo, e acaba por ser chamado de Alizarin "Original", embora na realidade seja o NR9 o verdadeiro Alizarin natural. Para evitar confusão, nesse artigo, chamo de Alizarin original o PR83 (ou PR83:1), sua versão sintética.

Muitos fabricantes substituíram o PR83 por outros pigmentos mais permanentes, como o PR177, PR179, PR264 e o PV19. Mas praticamente todos seus substitutos possuem um grau de não permanência. Os melhores substitutos são o PV19 ("I", excelente) e o PR264 ("I-II", bom), pois até o momento, não parecem ser alvo da crítica da maioria dos artistas que investigam a permanência de seus materiais. Mas uma outra questão importante, é que nem somente um substituto é idêntico em cor, enquanto outros não simulam a cor com exatidão. Alguns mostram-se mais avermelhados ou mais violetados. É uma questão de adquirir o produto e compará-lo ao Alizarin original. O PR264 é o único praticamente idêntico ao Alizarin original, em cor e transparência. O PV19 e o PR177 são pigmentos que podem mostrar inúmeras variantes de cor, e geralmente se parecem menos com o Alizarin original, mas isso pode variar de marca para marca.



Raiz da Rubia Tinctorium

Se voce acha que só ficará satisfeito com algo próximo mas permanente, mas não perfeitamente igual em termos de cor, a Cozinha recomenda testar o PV19 para averiguar qual marca pode oeferecer esse pigmento numa cor próxima. Se prefere algo idêntico e com boa permanência (embora seja menos permanente que o PV19) experimente o PR264 ou o PR177 (geralmente menos parecido). Ambas opções são mais permanentes do que o Alizarin original, e não será necessário se preocupar com permanência, resolvendo prontamente o problema.

Mas e quanto aos artistas que possuem vários tubos do pigmento original e não querem abrir  mão dos mesmos? Embora o melhor seja substituir esse pigmento, pois não há solução para sua falta de permanência, tenho conhecimento de algumas observações interessantes, pouco divulgadas. As mesmas podem ser úteis na maneira como o pigmento é usado, numa tentativa de minimizar sua propriedade fugitiva. Portanto, os mais disciplinados, podem usar essas informações. No entanto, recomendo fortemente que o pigmento seja substituido pelo PV19, PR264 ou ainda pelo PR177 
("I-II", bom)


Substitutos
A linha Rembrandt, da Talens, oferece o Permanent Madder Deep (PR264 - "I-II"). A linha Georgian, da Daler-Rowney oferece o Permanent Alizarin Crimson (PV19 - "I"). A Artist´s Oil, linha profissional da Winsor & Newton oferece o Permanent Alizarin Crimson (PR177 - "I-II"). A Winton, linha estudante da Winsor & Newton também oferece o Permanent Alizarin Crimson (PR177 - "I-II").

Misturas
O Alizarin original perde significantemente a cor principalmente quando misturado a outros pigmentos. Como exemplo, a maior parte das cores minerais não calcificadas contribuem para a perda de sua cor: Amarelo Ocre, Amarelo Nápoles, Sombra Natural e Siena Natural. Mas os óxidos de ferro calcificados, não contribuem para a perda de sua cor, como o Sombra Queimada, Terra de Siena Queimada, Indian Red, Tuscan Red, etc.

Algumas cores "químicas" seguras para mistura são: Amarelo de Cádmio, Vermillion (original) e qualquer pigmento Preto (PBk). As cores sintéticas provadas como reagentes na perda de sua cor são: Os Chromos, Branco de Chumbo, Branco de Zinco e Amarelo Nápoles. A lista de cores é complexa, tornando o uso do pigmento um procedimento restrito, fazendo necessário a consulta a uma dessas listas sempre que o Alizarin for empregado numa mistura. Não muito prático.

Em velaturas
No entanto, a maneira mais segura de se usar o Alizarin PR83 (ou PR83:1 - "III") é isolando-o dos outros pigmentos. Se o artista isolá-lo numa velatura, tendo certeza de que a camada anterior esteja completamente seca, estará diminuindo drasticamente suas chances de perda de cor provocada por reação a outros pigmentos.

Apesar de algumas fontes afirmarem que o uso isolado da cor é suficiente para a solução do problema, é bom guardar algum ceptismo. Em alguns meses terei os resultados de meu teste de permanência, analisaremos juntos tão logo tenha o resultado. Na minha opinião, (e NESSE caso, por enquanto, é somente um palpite) julgo que a perda de cor provocada pela ação dos raios ultra-violetas não será bloqueada com essas medidas, ainda permanecendo possível que a longo prazo o pigmento desbote. 


BIBLIOGRAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
DELAMARE; Guineau; Colors: The Story of Dyes and Pigments; Harry Abrams; 2000.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2011.

15 comentários:

  1. Quer dizer que para uma pintura Alla Prima ou mais solta fica muito difícil controlar esta falta de permanência; ou seja, para estes casos ele não é muito indicado? É uma pena, acho o alizarin crimson uma cor maravilhosa...

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  2. Wesley, algumas fontes dizem que o pigmento SÓ é impermanente em algumas misturas. Mas acho muito estranho. Talvez, o que essas fontes queiram dizer é que a coisa PIORA com as misturas. De qualquer forma, estou fazendo um teste de velatura, vai demorar um tempo para termos uma resposta, mas colocarei minha análise aqui. Mas, seria MUITO legal se a afirmação for verdadeira, e então, nesse caso, pudessemos contar com seu uso pelo menos em velaturas! Abraço!

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  3. Ficarei feliz se o seu teste confirmar o que estas fontes afirmam!

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  4. Márcio, estou usando o Permanent Alizarin Crinson (PR177) da série Artists' Oil da Winsor. Pelo que li no post acima, terei problemas com essa cor.
    Que marca usa o PV19?

    Obrigado

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  5. Léo, eu também!

    Paulo, alguns artistas dizem que o PR177 também é fugitivo. Mas tudo depende do modo como o pigmento foi produzido nesse caso. Existe uma maneira de "contornar" a não permanência quimicamente, mas tudo depende do metal que foi usado para isso e do modo. O PV19 é o mais confiável, mas seria necessário fazer um teste de permanência com seu PR177, talvez tenha boa permanência, talvez não... é como no caso do Vermelho Chinês de Corfix. O pigmento é cotado como não muito confiável em algumas fontes, mas meu teste de permanência revelou ser um pigmento resistente.

    Abraços!

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  6. Vim apreciar seu cantinho, adorei!!!!!
    Sucesso!!!!
    http://andreaarteva.blogspot.com

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  7. Olá Andrea! Obrigado pela visita! Abraço!

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  8. Maravilhosos posts, Marcio!!!
    Sem palavras para elogiar e agradecer as informações.
    Ah, muito bom o médium!! Estou tirando muito proveito dele :)
    Abração

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  9. Olá André! Obrigado!
    O Paulo te ensinou como usá-lo?
    Abraço!

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  10. Olá,esse espaço dedicado a pintura e suas tecnicas é realmente muito importante para todos que precisam aprender e tirar dúvidas!! Quando o encontrei foi como se tivesse descoberto um tesouro ....amo pintar e sempre passo por aqui para me atualizar !! Abraços, e parabéns pelo talento ...;
    Beth Ferraz- Petrópolis-RJ

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  11. Olá Beth, agradeço suas palavras! Fico muito contente com suas visitas! Um abraço!

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  12. Olá! não conhecia a cozinha da pintura, adorei todas as matérias, encontrei tudo que precisava e procurava na internet, achei tudo reunido num só pacote. Apartir de hoje serei um visitante nato. Obrigado. Edmilton Sebastião (artista Plástico) SP

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  13. Olá Ed! Obrigado pela visita e pela força, seja bem vindo! Um abraço!

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  14. olá Marcio,parabéns pelo post muito esclarecedor a williamsburg oferece dois alizarim, alizarim crinson, e permanente alizarim a propria empresa fala que as cores de sua paleta que são fugitivas são apenas o alizarim crinson e marron van dick, já que tenho que comprar via internet sem saber qual é o pigmento, seria viavel esse permanent alizarim? grande abraço.

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  15. Olá Anônimo. O pigmento da tinta Permanent Crimson da Williamsburg é o PR177. A primeira empresa a usar esse pigmento como um alizarin permanente foi a Winsor & Newton, a idéia já virou um clássico e esse substituto tornou-se o mais usual. É um pigmento de excelente permanência, portanto, pode comprar! Abraço!

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