domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cross-sections: Dissecando a Cozinha

Consigo entender que certos aspectos excessivamente científicos do estudo da pintura podem se tornar maçantes, mas insisto em que tenham paciência e leiam o artigo com atenção. Pode não ser algo que ajude diretamente na fatura pictórica, mas é informação útil na busca de fontes seguras em pesquisas dentro do campo. Conhecimento ao pintor, nunca é demais. É um assunto pouco abordado no meio artístico, dirigido mais aos restauradores, mas de interesse a todo pintor que julgue tratar a pintura com seriedade.

Pintura do Séc. XIX, Smithsonian. 

O tema em questão é uma dissecação científica da estrutura pictórica e é com ela que profissionais das maiores instituições artísticas do mundo obtem informações precisas sobre as antigas técnicas de pintura e os materiais usados por certos artistas, tornando possível separar as especulações dos fatos irrefutáveis.


"An Old Man in a Chair", Rembrandt, 1606.


Além do respaldo científico que esses artigos nos trazem, os resultados obtidos dessas análises podem nortear a popularidade de certos materiais artísticos e as vezes até despertam o interesse da indústria na criação novos produtos. Essa abordagem investigativa é tão importante que chega ao extremo de guiar a indústria de materiais artísticos, principalmente os fabricantes em maior sintonia com os pintores exigentes e atualizados. Isso é um reflexo de que muitos pintores estão voltando a artesania, e nada melhor do que beber na fonte da antiguidade.


"Margaret" Jan Van Eyck, 1439.


Essas análises saõ possíveis a partir de uma técnica, chamada nos EUA, de Cross-section. Na verdade, cross-section é o nome que se dá ao modo como se faz o "corte" numa pequena lasca de pintura retirada de uma tela, mural ou painel. Essa pequena lasca é então "banhada" em uma resina sintética transparente, que é então polida até que suas propriedades ópticas sejam dramaticamente melhoradas para um exame no microscópio. 


1. Lasca da Pintura; 2. Aquecendo a resina para fundir com lasca;
3. Corte da placa de resina; 4. Placa pronta para análise

Com a lasca envolta pela resina extremamente transparente, é possível cortar a peça de modo que a "lasca" de tinta também seja cortada ao meio, mostrando sua estrutura de diversas camadas claramente. É possível então enxergar cada camada da pintura com o auxílio de um microscópio eletrônico que ilumina a peça de resina e o "filme" preso dentro dela. Cada camada é analisada separadamente através de spectrometria ou outro sistema de análise química, para que se conclua com precisão quais os materiais usados nos diferentes momentos da pintura.

O aspecto esfumaçado e difuso das fotos apresentadas nesse artigo é resultado da incidência de luz do microscópio na resina que envolve a lasca de pintura. As imagens apresentadas aqui são fotogramas digitais aumentados em 100x por microscópio eletrônico.

Como resultado dessa análise, é possivel diagnosticar em qualquer pintura:


  • A ordem de fatura de cada camada
  • Suas espessuras e o método empregado (impasto, veladura, sfregazzo)
  • Composição dos pigmentos
  • Composição dos veículos (e mediums)
  • Presença de cargas inertes
  • O modo como essas camadas interagiram ao longo dos anos. 
  • Detectar possíveis intervenções de restauração aplicadas ao filme
  • Composição química e método de aplicação do verniz


Quer dizer: não só é possível descobrir precisamente quais os materiais usados pelo artista e a ordem dos procedimentos mas os resultados mecânicos e químicos da interação entre as substâncias. Temos resultados que nos fornecem um completo estudo técnico para artistas, informações que podem beneficiar a indústria de materiais artísticos a apostar em materiais seguros e expressivos e dados úteis aos restauradores, museus e instituições que podem compreender como melhor conservar e restaurar suas obras.

Uma outra faceta desse procedimento estupendo, é a identificação de falsificações. Camadas de pigmentos modernos, devidamente escondidos atrás de veladuras de pigmentos antigos, podem revelar quando a obra fora pintada, detectando a fraude.



"Retrato em Grupo Italiano", falsificação detectada pela presença de azul
cobalto, e camada de cola animal para envelhecimento do filme.

Falsificação de uma obra de Albert Durer 


Com essa técnica é possível confirmar ou descartar antigas teorias e assim desmistificar "achismos" acerca de técnicas e materiais da antiguidade. É uma luz que se joga no passado, abrindo novos horizontes a pintura contemporânea. Sempre dou atenção minuciosa a artigos e estudos científicos que façam uso desse procedimento. Com eles, e com o cruzamente de informações, tenho como balizar minhas opiniões e chegar a conclusões mais incisivas sobre uma diversidade enorme de questões ligadas aos materiais e as técnicas de modo seguro e atualizado.

Aos artistas, caberia o mesmo modus operandis. É mais seguro e confiável beber nesse tipo de fonte do que em qualquer experiência "prática" de pintores amadores ou profissionais acerca de técnicas antigas ou contemporâneas.



"The Tribute Money", Jacob Jordaens, circa 1630. 


Infelizmente, não são todos os museus e instituições que dispoem de verba, ou que dirigem as mesmas, para o uso desses procedimentos e instrumentos de precisão, logo, são publicações esparsas de poucas empresas, que acontecem com uma peridiocidade menor do que gostariámos.

Como um dos inúmeros exemplos de seus resultados, a National Gallery pode detectar que Raffaello usava como medium somente óleo de nozes e as vezes óleo de linhaça, constatação feita por cross-sections de diversas obras do artista. O RRP (Rembradt Research Project) fizeram uma verdadeira catalogação dos pigmentos usados por Rembrandt em inúmeras obras, constituindo uma lista compreensível de suas preferências de cores. 



"Retrato do Rei Felipe IV", Diego Velásquez, Séc. XVII.


Na Holanda, A Molart, dirigida pelo Professor Jaap Boon, em parceria com a pesquisadora britânica Leslie Carlyle e do holandês Ersnt van de Wetering, não só detectaram o medium usado pelo pintor em inúmeras obras, como detectaram a presença de clara de ovo e carbonato de cálcio em alguns pigmentos, assim como areia (quartzo) em alguns "grounds", ou bases. São substâncias que nenhum pintor ousaria pensar que Rembrandt poderia ter usado, e não poderiam ser revelados de outra maneira.

O Van Gogh Museum, ao analisar um cross-section conseguiu deduzir quais eram as cores originais de uma de suas telas que apresenta hoje forte diferença de cor. A descoberta guiou a restauração no sentido de conferir a cor original usada pelo pintor.



"The Bedroom", Vincent Van Gogh, 1873. Presença do pigmento fugitivo Eosin.


Essa semana, como última descoberta dentro do campo das investigações de materiais, através de cross-section, foi possível detectar a presença de farinho de trigo em alguns pigmentos de Rembrandt. Qual especialista ou pintor experiente poderia sequer pensar em tal hipótese?

Não é a primeira, nem a segunda vez, que expresso aqui no Cozinha uma linha de pensamento que julgo de suma importância: não basta pintar, não basta estudar, mas atualizar seu conhecimento, seja através de livros e artigos (físicos ou virtuais) ou até mesmo de um bom papo com outros profissionais. Essa "inquietação" artística acerca dos materiais abre um leque surpreendente de novas possibilidades. Investigue, leie, atualize-se e descubra.



BIBLIOGRAFIA
GELDOF, Muriel; Artigo do Museu Van Gogh, Online.
VÁRIOS; 'Renaissance Faces: Van Eyck to Titian', Exh. Cat., National Gallery, London 2008. 
VÁRIOS; "How to Prepare a Cross-Sectional View of Failing Paint Chips for Paint Failure Diagnosis; inspectapedia, 2009.
VÁRIOS; “Jordaens. The Making of a Masterpiece” – A description of the treatment processes, analytical methods and results are available on the website of the Statens Museum for Kunst.", Leica Microsystems, 2009.

11 comentários:

  1. Como comentei com voçê, depois dizem que a pintura moderna e contemporânea prima pela experimentação...É impressionante termos de fonte segura a informação que um pintor da magnitude de Rembrandt se dava liberdade absoluta de experimentação dentro de regras auto impostas e objetivos traçados...Nos dá mais confiança de testar e menos vontade de sermos sempre 'certinhos" e seguidores de todas as regras, sem nunca perder de foco nossos objetivos estéticos. Quanto a parte técnica eu só escuto rsrsrsrsrs nada a acrescentar...

    Abraço.

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  2. Pois é... justo Rembrandt, um dos maiores ícones da pintura acadêmica... grande experimentalista! A grande verdade é que vale tudo pra se expressar... sem arruinar a longevidade da obra, é claro! Obrigado pelos comentários Wesley! Abraço!

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  3. Olá Márcio,
    Excelente post!
    A respeito da descoberta recente sobre este inusitado material descoberto no trabalho do Rembrandt, pelo que eu entendi da matéria publicada, a farinha de trigo foi encontrada junto com chumbo, o que pode indicar que foi adicionada junto ao branco nos impastes em uma espécie de "putty medium" (por favor, me corrija se estiver errado)...Até pôr a prova as possibilidade desse material no atelie, ficam as dúvidas; A farinha de trigo ficará parcialmente transparente ao ser adicionada ao óleo? Como isso influência no tempo de secagem, retarda ou acelera? O quanto de tixotropia é adicionado a mistura possibilitando esmpastes mais "moldáveis"...
    Estou me "segurando" para não perder o foco dos meus estudos e sair experimentando a farinha como pigmento inerte..rs
    Alias, fica a sugestão de pauta, ver mais sobre pigmento inerte aqui! um assunto pouco difundido no Brasil e de grande valia para os artistas...
    Abraço, e mais uma vez parabens pelo excelente post!

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  4. Olá Leonardo! Obrigado pelo elogio!
    Sim, provavelmente a idéia era alterar o branco para criar mais empaste nas luzes. Quanto a suas dúvidas: não sei como a farinha de trigo irá se comportar. É um material que não é citado em nenhuma das minhas fontes bibliográficas, portanto, não há nenhum registro de seu comportamento. É realmente necessário testá-lo e entender o que faz a tinta. Sugestão de pauta anotada! Obrigado!

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  5. Olá, Márcio!
    Excelente post!

    Como dizia meu velho mestre, Pedro Alzaga: “O branco é a cor mais importante da palheta. Você tem que dominá-lo.”

    Hoje começo a entender melhor isso... “Dominando” o branco, regulamos o tempo de secagem, empastes, plástica, etc.

    Valeu, Márcio!
    Abraço

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  6. Olá Paulo! Obrigado!

    Pedro Alzaga tinha toda razão, e não é a toa que ele tenha criado tantos pintores talentosos.

    Obrigado pelo comentário!
    Abraço!

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  7. Excelente matéria, Márcio. Também já estou visitando os outros sites que você indicou. Estarão na próxima lista, com certeza.

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  8. Obrigado José. Fico contente que tenha gostado da matéria e dos artistas que indiquei! Entre hoje ou amanhã tenho um post novo que está ficando bem legal, e é bem útil pra qualquer pintor! Abraço!

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  9. Olá! Adorei o blog...e já que postaram sobre uma obra de velázquez gostaria de saber se podem me ajudar colocando quais os principais pigmentos ele utilizavae a partir de quais materiais os obtinha...
    Muito grata,
    S.A.S.

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  10. Olá S.A.S, se você pretende estudar o procedimento de Velasquez, recomendo que leia o livro “Velazquez: The Technique of Genius”, de Carmem Garrido. A melhor publicação que li sobre o artista.

    Segundo a pesquisa de Garrido, o artista fazia uso de inúmeros pigmentos, que variavam de acordo com a obra a ser pintada, mas girava em torno das seguintes cores: Amarelo e branco de chumbo, lacas naturais vermelha e roxa, amarelo nápoles, vermillion, azurite, lápis lázuli, esmalte e óxidos de ferro verde, marrom, laranja, verde , amarelo e vermelho. Obrigado por seu elogio! Abraço!

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  11. Parabéns pelo conhecimento e por levar todo esse conhecimento para os artistas plásticos,restauradores, proporcionando a elevação do nível artístico do cidadão brasileiro.

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