segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pigmentos parte II: Idade Média

A maior parte dos pigmentos naturais foram descobertos durante a Antiguidade, por isso, a "paleta" antiga estende-se à Idade Média. É necessário incluir na lista de cores medievais a maior parte das cores da Antiguidade, vistas no artigo anterior. Porém, há algumas exceções: entre os pigmentos que deixaram de ser muito populares estão o MalaquitaAzul e Verde Egípcio e de certa forma, o Azurite. O último passou a ser usado somente em estudos ou trabalhos que necessitavam de redução no custo dos materiais, devido a qualidade superior e o alto custo do azul feito de Lápis Lázuli. Apesar do Lápis Lázuli ser encontrado em pinturas
murais do período Antigo, sua popularização em larga escala se estabilizou somente na Idade Média (Proto-renascença).

"Maestá" de  Duccio; Siena - Itália; 1308.

Durante a Idade Média não há vasta quantidade de novas descobertas no campo de pigmentos, compreendendo um período onde há intenso tráfego comercial entre regiões distantes, promovendo a proliferação de conhecimento e troca de receitas. Dois dos pigmentos mais importantes de toda a história da pintura foram colocados em intenso uso nesse período. O Vermillion e o Azul Ultramarino feito de Lápis Lázuli.

Uma lista mais completa de todos os pigmentos populares durante a Idade Média poderia ser algo parecido com a lista abaixo, sendo que alguns pigmentos eram mais raros do que outros, e a frequência de seu uso variava comforme a região do artista e suas preferências:
  • Amarelo Ocre 
  • Vermelho Ocre
  • Preto de Carbono (todas variações)
  • Branco de Chumbo
  • Malaquita
  • Terra Verte
  • Azurite
  • Azul e Verde Egípcio
  • Verdigris
  • Cinnabrio e Vermilion
  • Vermelho de Chumbo
  • Amarelo de Estanho
  • Sangue de Dragão
  • Massicote (só em Iluminuras)
  • Orpimento
  • Indigo
  • Madder Lake


Esse artigo não compreende uma lista completa e definitiva sobre os pigmentos usados na Idade Média, mas um apanhado geral dos mais importantes para a história da pintura com apenas algumas informações básicas. Uma lista completa e bem estruturada pede um estudo complexo e demorado. Além da quantidade imensa de diferentes pigmentos, os nomes mudam conforme as regiões, além das inúmeras contradições encontradas nas fontes bibliográficas.
 
A
Cores de Sombras
Durante a Idade Média, as cores terrosas chamadas de "sombras" (ver post anterior) não eram extremamente populares, apesar de haver inúmeros exemplos por toda a Europa de seu uso. Parece haver uma predileção maior pelas cores intensas, e uso menor das cores mais apagadas. Voltam, mais tarde, a despertar o interesse dos pintores, principalmente na Itália, ao final do séc. XV. É interessante notar que a necessidade da obtenção de maior realidade cromática, durante o Renascimento, obrigou os pintores a evitar as cores de alto chroma, principalmente para a pintura da pele humana, e explorar tons com maior quietude cromática, aproximando a cor da mímese mais precisa e realística.


Pedra natural de Lápis-Lázuli

Código desconhecido - "Lápis Lázuli" (Lápis Lázuli)
Feito através da pulverização da pedra preciosa Lápis Lázuli (Lazurite) proveniente do Afeganistão e proximidades, essa tinta possui um azul violáceo inigualável. Durante a idade média consistia no pigmento mais caro a ser encontrado, seu uso tinha conotação simbólica de status, ostentação e de competência artística. O Azul Ultramar é uma das tintas mais difíceis de se dispersar e acertar a proporção ideal de óleo/pigmento e criar uma tinta de densidade adequada. O manto de Nossa Senhora, assim como outras áreas importantes de uma composição religiosa, eram sempre reservadas para essa cor. Há inúmeros registros da igreja católica e de diversos mecenas, onde uma das principais cláusulas de contrato para a fatura de um afresco ou pintura, era o comprometimento do artista no uso de "Lápis Lázuli legítimo, de primeira qualidade", tamanha a importância da cor. Por todos esses motivos, sempre houve, como ainda há, uma aura de nobreza e reverência em torno de seu nome.

Substituto moderno: Apesar do Lápis Lázuli e do PB29 - "Azul Ultramar" (Blu Oltramare/Ultramarine Blue) possuírem essencialmente os mesmos compostos químicos, o Lápis Lázuli natural possui caracterícticas comportamentais muito diferentes de seu similar sintético. As cores, quando comparadas, são realmente muito próximas, mas diferem no comportamento reológico e óptico. O Lápis Lázuli natural ainda é encontrado em algumas empresas que produzem tintas artesanais a preços altos, enquanto o PB29 tornou-se um dos azuis mais baratos e populares. A
Daniel Smith comercializa tubos de Lápis Lázuli com 37 ml.


Amarelo de Estanho

Código desconhecido - "Amarelo de Estanho" 
(Giallorino/Giallo di Piombo/Lead Tin Yellow)
Pigmento amarelo claro, bem opaco, com muito poder de cobertura. Existem dois tipos de Amarelo de Estanho: o Tipo I, composto de óxido de chumbo e estanho, e o Tipo II, composto de óxido de óxido de chumbo e estanho com presença de silicone. O primeiro é encontrado com maior frequência nas pinturas de cavalete em vários períodos da Idade Média. O Tipo II possui cor mais quente e acentuada, assim como maior transparência. Os dois tipos não são afetados pela luz, mas podem escurecer em contato com substâncias sulfídicas pelo ar. Trata-se de pigmento tóxico devido a presença de chumbo.

Substituto moderno: As características de cor e corpo do PBr24, ou uma de suas variantes mais claras, o PY41 - "Amarelo Nápoles" (Naples Yellow Light) são muito similares ao do Amarelo de Estanho, com a vantagem de serem variantes não tóxicas. O Amarelo Nápoles possui um poder de cobertura que fica entre os dois tipos de Amarelo de Estanho, sendo que se assimila mais ao
Tipo I, menos transparente. Talvez seja necessário um leve ajuste com algum outro pigmento amarelo transparente para conferir mais chroma.


Vermillion


PR106 – “Vermelhão” ou “Vermelho 
da China” (Vermiglio/Vermillion)
Feito a partir do sulfeto de mercúrio, o PR106 é uma variação do Cinnábrio ou Cinabrese. Estudos apontam para a possibilidade de um possível registro helenístico sobre esse pigmento, no entanto, a cor só se tornou popular e amplamente usada após o séc. XII, sendo um dos vermelhos mais importantes da história. O Vermillion deve ser extremamente puro para que não escureça, Isto é, não pode haver altos índices de chlorine e substâncias halógenas em sua composição, pois do contrário, sofre alterações em contato com vapores sulfosos.

Substituto moderno: O pigmento moderno que chega mais próximo do Vermillion é o PR112, e leva geralmente o nome "Vermelho da China". O PR112 não é um dos pigmentos mais confiáveis, tendo índice de permanência II. Prefira o PR108 - Vermelho de Cádmio (Rosso di Cadmio/Cadmium Red), como um substituto de permanência indiscutível, embora haja uma leve diferença de tom que pode ser corrigida por outros cádmios.



Madder lake


PR8 ou PR9 – “Madder Lake” (Lacca Arancio/Madder Lake)

Pigmento carmim de cor suntuosa. Um de seus componentes é a substância purpurina, que desbota com o tempo, não permanente. Tintas feitas com o madder lake contendo maior porcentagem de purpurina são muito sensíveis a luz. Pigmento extremamente transparente. Em 1868 o PR8 foi substituído pelo PR83, que contem substâncias que tentam corrigir a permanência da purpurina.
 
Substituto moderno: Algumas empresas ainda usam o PR83, que em certas condições pode escurecer. Prefira variações que usam o pigmento PR177.

PRÓXIM
O POST:
Pigmentos Parte III: Renascença e Idade de Ouro da Pintura

BIBL
IOG
RAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967. 
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.

Fonte de Imagens: Dick Blick

2 comentários:

  1. Adorei seu site!!!! Sou escritora e pesquisadora e vejo que os cristais estão até nas pinturas....abraçoss

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  2. Olá Danny. Obrigado!

    O cristal clássico, transparente e sem cor, não é usado. De fato, existem inúmeras pedras preciosas e semi-preciosas que podem ser trituradas e pulverizadas para tornarem-se pigmentos, embora seja mais comum o uso de matéria que seja encontrada naturalmente em forma de pó, como as terras por exemplo.

    Um grande abraço e obrigado pela visita!

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