terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Pensamento Pictórico e a Reologia dos Materiais de Pintura

Deixando rapidamente de lado os artigos sobre materiais, técnicas e a tecnologia da pintura, gostaria de discutir a importância e o impacto desse assunto na formação de um artista.

Pintar é básicamente arrastar tinta em alguma superfície com as próprias mãos ou com algum objeto que deslize ou aplique a tinta de uma maneira desejada. Para se pintar, não é necessário muita coisa. Um tubo de tinta qualquer, um pincel barato e uma superfície já são suficientes para criar um trabalho. Citando um dos meus autores prediletos sobre o tema,
James Elkins, há alguma coisa mágica no arrastar da tinta, no seu manuseio, que encanta as pessoas, até aquelas que não possuem nenhuma inclinação artística. Além de divertido é uma 
atividade que tende a acalmar e nos absorve numa concentração capaz de nos transportar para um mundo longe daqui.

O pensar pintura
Quando nos tornamos mais íntimos da pintura, e começamos a pensar mais sobre como pintaremos uma imagem, é nessa instância que ocorre o que os filósofos da arte chamam de pensamento pictórico. Esses pensamentos são sempre descritos como investigações cerebrais que tentam solucionar diferentes abordagens de se reproduzir cor, linha, forma, massa, perspectiva, profundidade, valor, contrastes, composição e muitos outros relacionados com a imagética da pintura.

Mas quero chamar a atenção para algo interessante: o pensamento pictórico também é composto por outros pensamentos, igualmente importantes. São eles o adicionar, deslizar, esfregar, aderir, grudar, espirrar, escorrer, pingar, estucar, alisar, espalhar, cobrir, transparecer, misturar, limpar, retirar, amontoar, empastar, diluir, engrossar, secar, humedecer e uma infinidade de outros pensamentos, até mesmo não verbais, relacionados as propriedades dos materiais e das substâncias usadas em todas as formas de pintura.

E é justamente quando o artista se concentra nesses pensamentos que novas técnicas são criadas, novas expressividades encontradas e procedimentos são finalmente compreendidos e deixam de ser obstáculos. Abre-se um campo infinitamente fértil.

A História da Arte está repleta desses momentos, quando artistas usaram esses pensamentos em prol de criarem ou dominarem técnicas que catapultaram seu trabalho, suas idéias de como se expressar através das propriedades de seus materiais. Os primeiros monges medievais que criaram as receitas de cores para a têmpera a ovo e a douração de iluminuras e ícones, os pintores da delicada encáustica das máscaras mortuárias de
Fayum, os italianos do proto-renascimento com a invenção mais importante de toda a história da pintura: o sfumatto, Jan Van Eyck com suas inúmeras camadas que formam efeitos óticos deslumbrantes, Diego Velázquez com sua pincelada que de perto é praticamente precursora do impressionismo e que ao nos afastar remete-nos novamente a mímese, Johannes Vermeer e o pointillé, Rembrandt Van Rijn com seu empaste elegantemente vigoroso e cheio de informação, e inúmeros outros artistas que filosofavam ao pensar sobre o arrastar de substâncias.

O artista nesse sentido, é um alquimista. Alquimia que tem se afastado da mente dos artistas pela própria industria de materiais, mas que também é um reflexo da velocidade alucinante da contemporaneidade, onde tudo tem de ser conveniente, pronto, instantâneo e descartável.

A volta da artesania
De alguns anos para cá, essa situação, espantosamente, tem tomado outro rumo. Artistas de todo o mundo desejam cada vez mais estar em contato com essa alquimia, o íntimo conhecimento de seus materiais e da artesania.

Para dar um "salto" com esses pensamentos pictóricos, é necessário lembrar-se de que a pintura não é somente "o que" se pinta e "como" se pinta, mas quais as funções específicas de cada substância e mais importante do que tudo: conhecer com detalhes a vasta gama de materiais e procedimentos para que o artista possa tirar proveito de cada função em particular.

É por isso que sou totalmente a favor de que haja maior ênfase, por parte das instituições de ensino de artes, sobre o comportamento e a reologia dos materiais nas disciplinas da linguagem pictórica. É comum dar atenção aos pensamentos imagéticos da análise formal, mas os materiais e seus comportamentos, assim como as técnicas de como "arrastar" as substâncias, ficam sempre num nível básico, inexplorado. A restauração, apesar de beber nas mesmas fontes, é mais voltada para a conservação e a recuperação de obras. Quando me refiro a um conteúdo forte sobre materiais e técnicas, quero dizer um conteúdo que seja pertinente ao aprendizado de artistas atuantes, e não somente de profissionais da restauração, o estudo da aplicação das substâncias por um profissional preocupado em controlar a "matéria" adequadamente no campo pictórico.

Nos estados unidos, assim como em algumas escolas fenômenais da europa, o assunto do manuseio, fatura e comportamento de materiais artísticos é tomado com importância, recebendo a mesma atenção do que outras disciplinas que tratam sobre cor, forma e composição. A Academia de Arte Figurativa de Los Angeles (LAAFA), uma das "mecas" de pintura em todo o mundo, possui em seu forte programa disciplinar um extenso período de aulas que tratam do assunto. Não seria maravilhoso, poder oferecer no Brasil, além de mestres na interpretação e expressão de cores, valor e profundidade, um curso que também une o entendimento pleno e profundo do comportamento e expressividade de toda a gama disponível de materiais da pintura? Certamente isso seria um verdadeiro curso nos moldes dos antigos ateliês europeus, onde os pupilos recebiam do maestro não somente os ensinamentos formais, mas todo o conhecimento de sua vivência na "cozinha" da pintura.

Novos horizontes
De minha parte, sigo estudando e tentando ampliar meu conhecimento nessa área. Para que eu possa levar essas informações a artistas que queiram usurfruí-las de maneira séria, é necessário parcerias com escolas, instituições e ateliês que compartilhem dessa mesma visão, na busca de um curso pleno, seja ele livre ou catedrático. 

12 comentários:

  1. Olá Márcio!
    Primeiro parabéns pelo blogger! Ele é ótimo, a começar pelo nome!
    A última vez que eu ouvi alguém se referir a cozinha da pintura, foi um professor que tive no Liceu de Artes e Ofícios, quando eu fazia pintura lá...
    ...bem , de lá para cá, não sei bem o que acontece, mas o que tem de cara que me diz que a pintura tá morta e todo aquele blá blá blá sobre o conceito , etc etc etc...

    Continuo pintando, gravando , fazendo xilo, desenho, escultura, etc, etc, etc...
    Arte me interessa e não o discurso pronto.

    Bem, passei aqui, porque vi sua mensagem deixada em nosso blogger (coletivo 308) e com você viu, somos um um grupo aberto a parcerias, trabalhos, arte, vida... enfim, sem limites para estudar e sem o preconceito, hoje quase que totalizante, massivo e idiota da galerinha "entendida" ...

    Seu blogger é muito bom! Muita informação com precisão e qualidade! Parabéns! Adoramos.
    Vou linkar no nosso, ok?

    Abraços, e bom 2011...

    ...vamos manter contato parta futuros projetos juntos.

    Alexandre Gomes Vilas Boas,
    Coletivo 308

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  2. Grandes novidades!? Isso é bom!
    Ótimo texto.

    Abçs
    Leonardo Climaco

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  3. Olá Alexandre!
    Pois é, eu já perdi a conta dos artistas que mataram a pintura. O incrível, é que ela continua por aí! Entrarei em contato via e-mail. Obrigado pela visita e pelo elogios!

    Léo, obrigado pelo elogio. Grandes novidades, se tudo der certo! Em breve, serão anunciadas por aqui!

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  4. Olá mestre,
    parabéns pelo Blog, é de grande importância para nós arte educadores e artistas, só acho uma pena não termos seus cursos em B.H. pois seria a primeira matrícula. Você teria algum nesta altura para nos indicar? Precisamos de pessoas assim como vc para nos abrir caminhos.
    Abraços
    Fabiana - Betim, M.G.,Grande B.H.

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  5. Olá Fabiana! Mestre é exagero da sua parte não? Infelizmente não conheço NADA em BH. Mas estou tentando fechar Workshops por todo o território nacional onde puder encontrar alunos. Estou atualmente negociando um workshop no Rio. Se voce souber de mais pessoas interessadas, ou alguma escola ou até um ateliê de artista em BH que porventura possa se interessar em trazer o Workshop em sua cidade, terei prazer em entrar em contato e podemos ver as possibilidades. Se houver um número razoável de pessoas interessadas, é sempre possível. Obrigado pelos elogios e pelo seu comentário!
    Abraços!

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  6. Acho impossível, matar algo que vive há mais de 20.000 anos, desde Duchamp e todas as supostos decretos de morte da pintura, ela se mantem como a mais nobre das artes, aliada a literatura e a musica na minha modesta opinião.
    Agora o quem esta no "corredor da morte" desses conceitos efêmeros, é o livro, como se o mesmo fosse tomar um caráter fetichista em prol das suas manifestações digitais. Pura histeria coletiva e sensacionalismo.
    Seus textos tem, grande Marcio, são didáticos e muito bem escritos ao mesmo tempo, sem se tornarem modorrentos como acontece nos livros práticos de arte.
    Uma honra poder ser seu aluno e amigo. E não há exageros.
    Abraços
    Martan

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  7. Olá Rodrigo. É muita ingenuidade achar que ambos (pintura e livro) um dia desaparecerão.

    Agradeço imensamente seus elogios. Agradeço particularmente por ter comentado nesse artigo, pois de todos os que escrevi nesse blog, é meu preferido, pois trata da verdadeira essência da pintura. Muita gente me escreve, mas a maioria está mais interessada em saber qual tinta é a melhor, qual é a resina mais barata ou com quais cores se mistura um tom de pele.

    Acredito ser esse, um texto com valor maior, ainda que breve e suscinto. Fico muito contente com seu comentário. Tenho sorte em ter voce como aluno! Um grande abraço e VIVA A PINTURA!

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  8. Olá amigo, excelente post. Blog de ótimo conteúdo.

    Sempre acreditei na pintura, mesmo tendo ouvido falar que é uma arte morta. Que bom encontrar outros que a valorizam assim como eu.

    Abraços,
    Cristina Jacó
    www.cristinajaco.art.br

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  9. Cara Cristina, agradeço pelas palavras! VIVA A PINTURA!!!

    Grande abraço!

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  10. Parabens pelo blog, eu não saio da cozinha!

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  11. Marcio, parabéns pelo comprometimento com a arte. E obrigado por nos fornecer informações tão importantes, que contribuem para ampliar nosso olhar.

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