segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Preparando Tinta a Óleo Artesanal

O pintor contemporâneo tem o privilégio de poder comprar tintas convenientemente prontas e entubadas em muitas lojas especializadas. Antigamente, o pintor não tinha opção: a tinta, que não era comercializada, tinha de ser feita dentro do ateliê e consumida antes que secasse. Com o progresso da indústria, a tinta não somente está disponível com uma infinidade de marcas, tipos e varieadades, como também pode ser armazenada durante um bom tempo, sem problemas de estocagem.

No entanto, a tinta artesanal e a tinta industrial são diferentes. No artigo "Diferenças entre Tintas Industriais e Artesanais" pudemos analisar mais detalhadamente essas questões, mas não averiguamos como se dá sua produção. Esse artigo tem como principal objetivo explicar como acontece a fatura da tinta artesanal, para que qualquer artista consiga produzí-la em seu ateliê.

Pigmento Pronto
O primeiro passo para se produzir tinta é a escolha do pigmento. Os pigmentos podem ter origem vegetal ou mineral e constituem-se por micro fragmentos de rocha ou plantas. É possível encontrar várias empresas que comercializam pigmentos, nesse caso, compra-se o pigmento pronto, e então, basta ir diretamente ao procedimento de pré-dispersão, que veremos mais a frente. Uma rápida pesquisa na Internet mostrará uma infinidade de lojas disponíveis, sugiro a Natural Pigments e a Zecchi como as melhores fontes.

Vale lembrar que pigmentos são diferentes de corantes. Geralmente, os corantes somem ou perdem a força quando expostos a intempéries ou até naturalmente. Os "pigmentos" vendidos em lojas de construção costumam ser na verdade, corantes. Portanto, se decidir adquirir pigmentos para fazer tinta, tenha certeza de que são pigmentos de verdade. Dê preferência a lojas especializadas em materiais artísticos ou compre diretamente de produtores estrangeiros.


Colhendo Pigmento
Uma outra possibilidade, é "colher" seu próprio pigmento. Isso significa recorrer a materiais vegetais e minerais encontrados na natureza, processá-los para transformá-los em pó, e então reservá-los para o uso. É claro que nem todas as cores estão disponíveis num só lugar. Cores muito intensas geralmente não são feitas a partir de terra, que é um dos tipos de pigmentos mais fáceis de se processar, pois já é encontrada praticamente em pó. Encontrar cores terrosas é tarefa fácil, enquanto azuis, vermelhos e amarelos intensos serão sempre feitos a partir de minérios e pedras semi-preciosas, quase sempre adquiridos através de algum fornecedor. Para artistas que usam muitas corres terrosas, que apresentam sutís mudanças cromáticas, pode valer a pena investir na procura de veios de terra que apresentem cores interessantes. Algumas regiões são particularmente ricas em solos coloridos. As cores básicas de terra vão do amarelo ocre ao marrom escuro, mas dependendo do tipo e quantidade de óxidos no solo, podem variar entre ocres avermelhados, violáceos, amarelados e até brancos. Quem nunca observou a terra avermelhada das cidades do interior? Existem inúmeros lugares que podem servir como fonte de pigmento natural. Achar cores diferentes é um trabalho que exige tempo, disposição e dedicação, mas totalmente possível.

Opacidade Vs. Transparência
Algumas terras resultam num corpo denso e espesso, formando tintas grossas e com forte poder de cobertura, essas são as mais difíceis de se encontrar. A maioria geram uma tinta semi-opaca ou até mesmo transparente. É necessário insistir e colher diversas amostras, de muitos lugares diferentes, e testar as propriedades de cada uma. Uma vez achada uma boa amostragem, temos a garantia de uma fonte praticamente vitalícia de pigmento.

Adequando a Terra
Depois de colher a terra, é necessário limpá-la. A terra retirada de qualquer tipo de solo pode conter todo tipo e tamanho de pedras que não podem estar misturadas ao pigmento. Para removê-las, é necessário reservar a terra numa bacia e adicionar água, o bastante para se tornar um "barro" um pouco líquido. Esse barro é então peneirado para que todas as pedras fiquem retidas, e somente os mais finos grânulos sejam selecionados. Depois de coada, a terra que agora está bem húmida irá para uma bandeija larga, e deverá descansar em algum lugar onde possa receber sol em abundância por alguns dias.

Terra descansando em água


O sol secará completamente a terra, tornando-a sólida novamente. O processo de peneirar e depois secar ao sol deve ser repetido pelo menos três vezes, até que a terra resultante torne-se bem mais fina. É possível cobrir a bandeija com um vidro para que a areia não seja levada pelo vento ao fim do processo de secagem ao sol. A última "leva" de terra deve ser "revirada" várias vezes, para que o sol seque-a por igual, pois ela costuma ficar húmida no fundo da bandeija. É importante que a terra esteja perfeitamente seca para continuar o processo. Alguns tipos de pigmentos requerem cozimento em forno para retirar totalmente a humidade.

A "areia" resultante desse processo, que provavelmente terá cerca de 1/10 do volume da terra original coletada, deverá ser esmagada várias vezes com um rolo de macarrão, para desmanchar os grânulos grandes. Isso é importante pois se restarem grânulos ou pedras grandes, eles danificarão a moleta (veja mais a frente) além de resultar numa tinta grosseira. Depois de ter desmanchado através de força física todos os grãos, a areia é peneirada três ou quatro vezes, usando tecidos de nylon ou polyester de 60 fios, e depois, tecido de 120 fios (use tecidos para telas de silk-screen). 


Peneira e secagem
Pigmento reservado


A terra resultante ficará parecida com a "espessura" da farinha ou do talco, ideal para a fatura da tinta. Algumas amostras de terra podem requerer peneiramento ainda mais intenso. Depois disso, é só reservar em jarros de vidro bem fechados.

Pré-dispersão ou "Maceragem"

Numa superfície de vidro temperado, ou mármore, coloque uma pequena parte de pigmento, abra um pequeno buraco ao meio, e pingue algumas gotas de óleo de linhaça. Uma das vantagens do preparo da tinta no ateliê é a liberdade de adicionar óleo de sua escolha, inclusive, óleo processado dentro do ateliê. Tudo isso é discutido no já mencionado artigo "Diferenças entre Tintas Industriais e Artesanais". Os pigmentos em pó necessitam de muito menos óleo do que imaginamos, portanto, nunca adicione muito óleo, prefira ir despejando em gotas. É surpreendente a pequena quantidade necessária para fazer tinta.


Pré-dispersão


Com o auxílio de uma espátula dura, e não flexível, começe a misturar o óleo com o pigmento. No começo é difícil misturar. Procure "raspar" a espátula de modo a fazer força para que ambos misturem. O resultado é uma massa densa, grudenta e de movimento limitado, muito grosseiro. Continue forçando a espátula para ter certeza de que todas as partículas de pigmento foram "molhadas" pelo óleo. Deixe a pasta "descansar" por pelo menos 30 minutos antes da dispersão, isso ajuda a obter um pigmento mais absorto em óleo, fazendo o deslizar com mais facilidade. Também é possível o uso de um pilão de mármore para "macerar" a tinta, caso prefira não usar a espátula e a superfície de mármore.


Pasta no início e ao final da pré-dispersão


Dispersão
Espalhe todo o pigmento já pré-disperso com uma espátula por toda a superfície, oberve atentamente para não deixar pequenos "montes" de pigmento aglomerados. A ideía aqui, é de que o pigmento pré-disperso fique espalhado formando um fino "lençol" de pasta sobre a superfície. Depois da pré-dispersão começa a dispersão propriamente dita, com o auxílio da moleta. A moleta é uma ferramenta de vidro, usada desde a idade média com o único intuito de dispersar veículos em pigmentos, servindo também para a têmpera de ovo.  A moleta pode ser substituída por algum outro objeto pesado, em forma da pilão, que possua a parte de baixo levemente porosa. Para melhores resultados, use a moleta. Segurando a moleta com ambas as mãos, coloque-a em um dos lados do "lençol" (e não ao meio) e faça movimentos lentos em forma de "8". Quanto mais tempo o pigmento é disperso, mais perfeita é a tinta, em alguns antigos manuais de pintura que remontam a idade média, encontramos a sugestão de que "se passarmos um ano dispersando o pigmento, a cada dia ele melhorará".



Dispersão com moleta


A dispersão não é uma questão de força aplicada a pasta, mas sim de repetição de movimento, não é necessário força física. Algumas vezes durante o processo, recolha a tinta com uma espátula flexível, e junte-a ao centro da superfície, espalhe-a novamente e começe a dispersar mais uma vez com a moleta. Alguns pigmentos levam mais tempo para dispersar completamente, mas 30 minutos (de boa dispersão) costuma ser suficiente. No começo da dispersão, alguns pigmentos podem apresentar uma resistência inacreditável sob a moleta, não sendo incomum, mas após um minuto de dispersão, ela começa a deslizar, e ao fim do processo desliza sem demonstrar nenhuma ou pouca resistência.


Pedra para maceragem na casa de Raffaello
Sanzio - Urbino. Foto de Rosalie Petroni

Caso após cinco minutos de dispersão a tinta não deslize com facilidade, é sinal que pouco óleo foi adicionado na pré-dispersão. Novamente, o primeiro impulso é sempre colocar o dobro de óleo colocado na primeira vez. Mas somente algumas gotas será o bastante para funcionar.


Observe nos manuais de pintura que cada tipo de pigmento exige uma quantidade diferente de óleo. Os diferentes derivados minerais e vegetais possuem diferentes corpos e índices de absorção, desse modo, uma proporção de óleo e pigmento específica a uma cor poderá não funcionar para outra. A melhor maneira é sempre misturar o óleo em poucas gotas, fazer a dispersão e verificar o resultado. Caso necessite de mais óleo, basta adicioná-lo.


Reserva em Tubos
Quando a tinta alcançar um corpo adequado a seu gosto, recolha tudo com o auxílio de uma espátula flexível e insira em tubos de alumínio. Segure o tubo com a parte de trás (que é aberta) virada para cima, perfeitamente na vertical, e com a outra mão, vá carregando de tinta. Bata levemente a ponta do tubo em alguma superfície para que a tinta sendo carregada vá assentando sem formar bolhas. 


Tubos vazios de alumínio


A tinta pode ser reservada por muitos anos, contanto que o tubo não seja perfurado ou fique destampado. Não reserve tinta óleo em frascos ou jarros de vidro, pois o ar que se encontra dentro oxida lentamente a tinta. Em alguns tipos de pigmento, é normal notar que óleo em demasia escapa do tubo quando está sendo aberto. O óleo tende a se separar com o tempo, mas nunca o suficiente para comprometer a integridade da tinta. Alguns artistas acrescentam uma quantidade pequena de pasta de cera de abelha durante a pré-dispersão, pois a mesma tem a função de impedir que o óleo e o pigmento separem-se.


Tintas artesanais entubadas e prontas

BIBLIOGRAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967. 
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.

28 comentários:

  1. Olá Márcio,

    Fiquei cansado só de imaginar o trabalho que dá para fazer isto, é por isto que os artistas tinham vários aprendizes...rs
    Não imaginava que era tão fácil fabricar as cores terrosas, fiquei surpreso!

    Ficou bem legal o novo banner do blog!

    Abç,
    Leonardo

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  2. Olá Leo!
    Na verdade, encontrar terra de qualidade, que tenha grande poder de cobertura e boa cor, é o mais importante. 90% da terra que encontramos gera tintas de cor muito similar e geralmente de baixo chroma. Então, no fim, o processo é razoavelmente simples, mas "acertar" pra gerar tinta de primeira linha é raro. O que ocorre também, é que alguns lugares são mais privilegiados do que outros, como a Europa e poucos estados americanos.

    Abraços!
    MARCIO

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  3. Obrigado André, agradeço a visita! Seus desenhos são lindos, parabéns. Também curto muito o Frazetta!

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  4. Obrigado por repartir seus conhecimentos....que as pessoas saibam valorizar isto....abraços.....amigo!!!!

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  5. Obrigado Adilson! Conhecimento DEVE ser repassado!

    Estou a disposição e responderei a qualquer pergunta dos leitores, dentro das minhas limitações, claro.

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  6. Márcio

    Obrigado por visitar meu blog.
    Curti muito os teus ensinamentos!
    Vou ter com detalhes....

    abr
    dimaz

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  7. O prazer é todo meu Dimaz, fico muito contente que o Blog seja útil!

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  8. SEU BLOG DEVERIA GANHAR UM PRÊMIO PELA INFORMAÇÃO!!!

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  9. Celso, entendo sua indignação pela falta de material sobre o assunto. Se depender de mim, o Blog continuará no ar, trazendo o resumo da minha pesquisa pelo método científico. Agradeço o elogio!

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  10. Parabéns pelo blog!!!!Viva a pintura!!!
    Abraço
    Fernando França

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  11. Fernando, obrigado pela sua visita! VIVA A PINTURA! (risos!)

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  12. Ola!!
    Obrigado pelo comentário no meu blogg.
    Fenomenal é o seu blogg!!! Muito material valioso. O seu mérito é gigantesco.
    É gratificante encontrar este tipo de informações e sintonia com a arte!
    Forte abraço!!

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  13. Obrigado Cristian! Obrigado pela visita, estamos a disposição!
    Abraço!

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  14. Márcio,

    Parabéns pelo blog. Fantástico.
    Depois de muito tempo, voltei a pintar e vi o link no wetcanvas.

    Adriano (Addy)

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  15. Adriano! Voce sumiu! Obrigado pelos elogios! Fiquei um tempão ainda no forum, mas já faz muito tempo que não frequento! Vamos voltar a nos falar! Dont be a stranger!

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  16. Shalom Márcio XD Parabéns pelo trabalho brother...

    Eu gostaria de saber onde posso compra os tubos de alumínio para por as tintas, a também se onde posso comprar pigmentos naturais aqui no Brasil.

    Grande Abraço...

    Victor Wicht.

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  17. Shalom, Victor!
    Para os mais corajosos, existem muitos pigmentos que podem ser processados através de plantas, minérios e raízes. É questão de ter paciência e conhecer quais são permanentes. Mas voce também pode comprá-los prontos, sem dúvida. Voce os encontrará na Pintar!, na Casa do Artista ou na Casa do Restaurador e na Lukas (lukasdobrasil.com). Recomendo os pigmentos da Maimeri e da Lukas. Os tubos de alumínio podem ser encontrados em empresas que fornecem material para farmácias de manipulação. Obrigado pela visita Victor! Um abraço!

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  18. Gostei da aula. Uma dúvida: há alguma maneira de se recuperar uma tinta que secou no tubo? Claro que para uma tinta barata o melhor é jogar fora e comprar uma nova, mas no meu caso são tintas profissionais guardadas há um bom tempo e fico com pena de descartá-las. Abs.

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  19. Voce pode abrir o tubo e raspar o pigmento seco. Com aquilo que sobrou, pode tentar molhar com uma mistura de 1:1 de linhaça e terebintina. Não é exatamente um procedimento sadio, mas é possível usar essa "maçaroca" pra alguma coisa, rsrsrsrs. O grande problema das tintas que "secaram" nos tubos é que na maior parte do tempo, oxidaram por completo, formando uma película dura. Seria necessário um solvente um pouco mais forte do que a terebintina para dissolver esse filme de linóleo. E por fim, é uma mistura que perdeu totalmente suas propriedades elásticas, ruim para a pintura. O melhor mesmo, é comprar uma cor nova e usá-la. Espero ter ajudado! Um forte abraço!

    PS: Agradeço ter indicado o Cozinha na lista de discussão. Grato pelas palavras gentis!

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  20. Fantástico!...
    Sua aula, mereçe nota "zilhão"... nunca imaginei q seria desta maneira... e eu sofrendo para encontrar tintas diferentes...
    Eu faço atualmente mandalas com areia colorida para jardim... seria possível elaborar tintas à óleo, a partir da areia colorida?
    Parabéns... Guerreiro, continue sempre...
    Grato...
    Pedro Gutierrez

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  21. Olá Pedro! Agradeço as palavras! Sim, é possível, no entanto, lembre-se que nem toda areia resulta numa tinta com bom corpo, permanência ou cobertura. É preciso colher de diversas fontes e testar exaustivamente até encontrar uma parte de terra que ofereça bons resultados. Não é fácil. Grande abraço!

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  22. Olá primeiramente gostaria de parabeniza-los pelo ótimo site, segundo, gostaria de saber a respeito da qualidade do pigmento em pó xadrez no uso da fabricação artesanal de tinta óleo, pois fiquei sabendo que ele tem como base o óxido de ferro, que consequentemente pelo que aprendi é um bom pigmento, desde já agradeço

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  23. Robson, use o óxido de ferro puro ao invés do pó xadrez. Existem outras cargas inertes que não pigmentos na mistura pois ele é feito para a construção civil e não para artistas. Voce verá que a tinta feita com ele tem uma qualidade grosseira. Lembre-se que os óxidos de ferro são baratos portanto não terá grande gasto para usá-los. Grande abraço!

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  24. Riqueza de informações sobre a arte,parabéns pelo blog

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  25. Muito grato, caro Isaías, um grande abraço!

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  26. Estou a adorar o seu blogue. Parabéns continue partilhando com esse gosto e profissionalismo.

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  27. parabéns pelo texto equipe do blog!
    Muito informativo, de grande ajuda.

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