quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Paletas e Cores

Quando falamos sobre paleta, não estamos necessariamente tratando sobre a paleta em si, mas sobre as cores que um artista escolhe para trabalhar uma obra. O tema envolve grande complexidade, pois cada artista possui sua preferência de cores, marcas, consistência e número de diferentes tintas. O mais importante é lembrar que não há certo e errado, mas sim, opções e predileções. Também vale lembrar que o sistema usado por um artista pode não necessariamente funcionar como processo de pintura para outro indivíduo. É através da experimentação que o artista pode adaptar processos para que funcionem em harmonia com o modo como ele pensa e faz uso das cores.


Não há regra para a quantidade de cores usadas. É comum encontrar artistas que usam uma infinidade de tintas próximo a seus cavaletes, paletas com 40 e 50 cores, assim como paletas de 30, 20, 12, 7 e 4 cores. A quantidade de cores usadas não é importante, mas sim sua habilidade de entendê-las e conseguir misturá-las para alcançar a cor pretendida. Um erro comum a muitos iniciantes é a vontade incontrolável de adquirir muitas cores diferentes, o uso de um número exagerado, tornando-se frustrante o julgamento de tantas misturas e combinações, também tornando difícil memorizar as combinações que um dia foram empregadas com sucesso. As recomendações mais razoáveis sugerem que se use entre 12 e 7 cores.

Paleta para Temas Específicos e Paletas Fixas
É comum encontrar artistas que mudam sua paleta baseado no tema que estão prestes a pintar. Portanto, mudam o número de tintas usadas e variam as cores baseadas naquelas que observam no tema. Outros artistas procuram usar quase sempre as mesmas cores, tendo uma paleta “fixa”, onde não importa qual seja o tema, sempre farão uso das mesmas tintas, talvez em alguns casos, adicionando ou subtraindo uma ou duas cores.

Quando um artista muda constantemente as cores que usa, como por exemplo, a cada novo quadro, há a desvantagem da compra de novas tintas e a falta de intimidade ou experiência com uma paleta ou cores específicas, que fatalmente acontece quando usamos poucas cores. Por outro lado, o artista que muda constantemente sua paleta, está aberto a novas descobertas e experimentações, adquirindo novos conhecimentos. As vantagens de uma paleta fixa, além da praticidade e economia, são o grau de intimidade que o artista alcança com suas cores, pelo hábito de usá-las constantemente e o fato de que ao ver um tema, o artista consegue determinar quais cores de sua paleta deverão ser misturadas para alcançar determinada cor, com eficiente rapidez.  Uma segunda vantagem, para o pintor iniciante, é que sem uma infinidade de cores evita-se que a obra adquira uma profusão excessivamente multi-colorida, criando um efeito “carnavalesco”,  sem harmonia. Manter a paleta simples é um excelente meio para o iniciante não se frustrar com a experiência de mistura.

Opções de Cores
Existem várias maneiras de se escolher as cores para uma paleta. É possível, por exemplo, primeiro estabelecer que tipo de pintura pretendemos praticar com mais freqüência, como paisagens, natureza-morta, retratos, abstratos, etc. Pode-se então, basear a escolha das cores com o tipo de pintura a ser praticada. A pintura de paisagem pode exigir mais cores que se relacionem com a própria paleta que encontramos na natureza, grande variedade de verdes e amarelos, a pintura de natureza-morta pode exigir paletas específicas para cada tema, a pintura de retrato pede mais tons terrosos e a de abstratos pode ser uma paleta de cores contrastantes, complementares e outras concepções de teoria de cor ou qualquer outra.

Os métodos de escolha são os mais variados. O artista que, por exemplo, almeja atingir cores fortes e vibrantes certamente escolherá várias cores de cádmio, devido a suas cores gritantes, enquanto aqueles que preferem certa “quietude” cromática deverão optar pelos tons terrosos. Nada impede que o artista opte por fazer suas escolhas baseadas em emoções que certas cores podem despertar ou até pela simbologia das cores. Tudo é pessoal e depende do que se quer alcançar, sempre obedecendo ao bom senso, pois aqueles que pretendem alcançar um nível de realismo mimético devem estar menos presos a essas liberdades poéticas e mais atentos a certas regras.

Paletas baseadas em Círculos Cromáticos
Alguns artistas optam por usar as cores chaves dos círculos cromáticos, como as primárias e secundárias, devido a facilidade com a qual conseguimos entender as misturas “mentalmente” antes que de fato comecemos a fazê-la com os pincéis. Portanto, pode-se optar pelo uso de uma paleta que possua as cores primárias, ou, aqueles que desejarem economizar tempo na ação de misturar, com primárias, secundárias e até mesmo terciárias.

Os Diferentes Sistemas de Cores Primárias
Antes da revolução industrial e da popularização da reprodução gráfica colorida, a concepção mais popular de cores primárias compreendiam as cores:  amarelo, vermelho e azul. O uso dessas cores como paleta para pintura a óleo é uma opção bem comum. Com a adição do branco e do preto, temos uma possível paleta. No entanto, para as tintas a óleo, não há primárias totalmente puras, e as variações de marca para marca são grandes. Mas é possível chegar muito próximo as primárias e pintar tranquilamente usando desses pigmentos. 

É fundamental lembrar que as tintas a óleo possuem diferentes massas, ou corpo, e o modo como eles se misturam deve ser similar, para que a tríade funcione com certa previsibilidade de mistura. Algumas marcas possuem “primárias” tanto transparentes como opacas, é importante que o artista tenha isso em mente e faça uso de uma paleta de primárias que possuam as mesmas características de corpo (transparente ou opaca). As cores de cadmiums estão entre as cores primárias populares que podem ser usadas (principalmente para o amarelo e vermelho), e alguns artistas preferem usar como seu azul primário o Azul Cobalto, embora algumas marcas possam oferecer outras cores que também cheguem muito próximo. No Brasil, as cores mais próximas as primárias puras, da marca Corfix, compreendem: Amarelo Cádmio, Vermelho Cádmio e o Azul Cobalto, dentro da opção de cores opacas. 


A escolha de uma paleta como essa, numa versão transparente, é mais complicada, devido a indisponibilidade dos pigmentos amarelo e vermelho que cheguem próximo as primárias. Seria uma excelente opção para o uso de uma paleta primária para aqueles que usam veladuras como principal procedimento.

Mais tarde tornou-se comum, principalmente pelo uso na área gráfica, a adoção de uma nova paleta de cores primárias, que compreende as cores: cyan, magenta e amarelo. As mesmas regras das primárias amarelo, vermelho e azul, também se aplicam para essas, quando se pretende escolher suas correspondentes na tinta óleo: preste atenção em como elas se comportam quando misturadas e em suas transparências ou opacidades. As cores que mais se aproximam, no Brasil, também possuem algumas limitações, devido a indisponibilidade de pigmentos opacos que cheguem próximos as primárias cyan e magenta, de modo que temos disponíveis uma cor opaca (Amarelo Cádmio) e duas cores transparentes (Azul Ftalocianina e Magenta). É possível fazer uso dessas cores adicionado um pouco de Branco de Titâneo nas cores transparentes para compensar sua falta de opacidade. 





Há a opção, no entanto com limitação, do uso do Azul Cerúleo e da Laca Rosa como primárias (Cyan e Magenta) opacas.

A discussão sobre qual sistema de primárias é o mais indicado para ser usado é longa e deveras complexa. Me limito a concluir que cada artista, novamente, possui suas razões pessoais e racionais para usá-las.

Paleta de Cores Clássicas
Nos primórdios do ofício da pintura, não era costume empregar primárias como cores “chefes” que poderiam deixar as rotinas de mistura mais práticas. Em primeiro lugar, as cores vivas e gritantes das primárias, usadas de forma abudante, não figuravam como adequadas para o padrão estético das pinturas, e de fato, não é o que ocorre na natureza. 

Em segundo lugar, na antiguidade não haviam pigmentos opacos que pudessem chegar próximo da pureza e força das cores primárias. Entre outros motivos, alguns pigmentos transparentes podem chegar muito próximo as cores primárias quando aplicados sobre um fundo muito claro, como o branco. Eles formam um efeito ótico que chega satisfatoriamente próximo. 

Sobretudo, existem algumas cores que são mais usadas na pintura por alcançarem mais rapidamente (sem necessidade de muitas misturas) certos elementos naturais que são recorrentes, como a pele, madeira, folhagens, a cor do céu, o acinzentado das nuvens e outras. Por esse motivo, o emprego de algumas cores muito específicas eram uma constante na paleta de diversos artistas. Os artistas passavam toda sua experiência com cores particulares a pupilos, e ao longo dos anos, certas cores provaram ser polivalentes e práticas dentro da pintura a óleo. Essas cores, “clássicas” pelo seu uso, são comumente produzidas pela grande maioria de marcas de tintas e comumente adotadas pela maior parte dos artistas. Nomes como “Terra de Siena Queimada”, são cores mais familiares a pintores do que a qualquer outro tipo de profissão ou atividade. 

A vantagem dessas cores, é justamente a familiaridade que outros artistas possuem com elas e pelas suas combinações. São as cores mais usadas em grandes ateliês, ateliês amadores, universidades, cursos particulares e livros sobre o assunto. O método de pintura usado a partir dessas cores remonta há séculos, tendo então colocado essas cores a prova, desde antes da renascença, passando pelo impressionismo (onde novas cores foram incluídas), pelo modernismo (substituição de cores impermanentes por permanentes assim como cores mais vibrantes começaram a estar disponíveis) e até a contemporaneidade. 


O número de cores disponíveis que podem entrar nessa classificação é enorme e fazer uma sugestão de paleta é algo muito subjetivo. No entanto, arrisco a apresentar abaixo algumas cores que compreendo como amplamente usadas. Esse exemplo pode ser uma sugestão de paleta (experimental), mas é importante que o artista teste as cores e misturas, e num futuro, esse número seja diminuído para 12 a 7 cores.




Paleta de Cores Transparentes e Opacas
Há aqueles que usam um processo de pintura onde a densidade da tinta é muito explorado. Nesse caso, existem circunstâncias onde emprega-se tinta opaca, e outros casos onde se emprega tintas com pigmentos transparentes. No entanto, existem momentos que o artista necessita de uma mesma cor, mas com consistências diferentes, transparente e opaco. Para essa paleta, escolhe-se diversas cores, no entanto, para cada cor uma versão transparente e outra versão opaca. Para organizar uma paleta com essas características basta escolher as cores que se deseja, e então procurar por cores similares que ofereçam as duas versões de opacidade. 

Paletas com Cores Quentes e Frias
Alguns artistas consideram a ênfase entre cores quentes e frias de fundamental importância. Por isso, procuram deixar disponível em sua paleta, várias cores diferentes, e para cada cor disponível, uma versão fria e uma outra quente. Portanto, é uma paleta que inclui dois azuis, dois vermelhos, dois amarelos, dois violetas e assim por diante. A grande discussão dos artistas acerca desse método, é que na verdade, a impressão de temperatura dada pela cores depende de dois pontos de vista: a subjetividade do observador, nesse caso, quando a cor está sozinha, e em segundo, a temperatura de uma cor depende também da cor que está a seu lado, nesse caso, quando temos mais de uma cor, adjacentes. Existem intermináveis discussões sobre por exemplo, qual a temperatura da cor “Azul Ultramar”. É muito comum ouvir de diversos artistas que se trata de uma cor fria, enquanto muitos outros dirão que na verdade, é uma cor quente. E isso acontece com a maioria das cores. 


A organização de uma paleta assim, é algo subjetivo e pessoal, mas totalmente possível e praticável, oferecendo resultados que se fazem notar. Essa paleta poderia teoricamente ser subjetiva, em termos de contrastes de temperatura, mas mesmo que para algumas opiniões isso não exista, ela acaba funcionando pela variedade de tons similares que apresenta (vermelhos, azuis e amarelos distintos), para aqueles que sabem controlá-la.

Paleta Limitada
A paleta limitada é a última opção que iremos analisar, no entanto, não é a última opção existente, quando tratamos desse assunto, as variações são praticamente inesgotáveis. A idéia desse artigo é fazer uma breve explicação das paletas mais comuns encontradas. No caso da paleta limitada, a idéia é limitar ao máximo as opções de cores, e trabalhar somente com pouquíssimas cores. Geralmente, 3 cores, mais o branco, e alguns artistas também incluem o preto. Podemos dizer que a paleta com somente cores primárias (mais branco e preto) é uma paleta limitada. 


A escolha de qualquer amarelo, qualquer vermelho e qualquer azul, sendo eles terrosos ou com pigmentos intensos pode ser usado como uma paleta limitada. Alguns artistas usam paletas limitadas como formas de exercício de mistura de cores. Existe a lenda de que Tizziano teria dito que "um pintor só necessita usar três cores: preto, branco e vermelho". É provavel que ele não esteja diretamente dizendo que somente essas cores devam ser usadas, mas que as paletas limitadas podem ser grandes aliadas dos artistas. É possível alcançar excelentes resultados trabalando somente com poucas cores, e contrastando os valores de cada uma dessas cores.


Experiências
Um exercício interessante é pesquisar em livros confiáveis as paletas de seus artistas preferidos e tentar testá-las em pequenos exercícios. É surpreendente o que se aprende através das paletas de muitos artistas.


Num post futuro, pretendo explorar mais o tema das paletas, analisando artistas específicos e como eles usavam essas paletas de forma a construir suas obras.

6 comentários:

  1. Oi Márcio!

    No começo da leitura deste post não ude conter o riso quando me identifiquei com o iniciante que compra milhares de cores que não vai usar! rsrsrsrs e tb já me aconteceu de esquecer a combinação de cores que resultou numa determinada cor que precisava reproduzir!

    Nunca havia lido ou ouvido a respeito dessas paletas de cores da forma como vc abordou. Até hoje a escolha das cores nos meus exercícios, inclusive com o pastel seco, sempre foi puramente intuitiva e, por isso mesmo, tão sofrida. De fato, com o avançar dos exercício, percebo claramente que algumas tintas tornam-se "favoritas" e outras continuam intactas nos tubos. No meu caso, sendo a figura humana meu interesse quase que exclusivo, faço uso recorrente de determinadas misturas, que agora vou analisar sob a ótica das paletas, colocando um pouco mais de sistematização nesse meu aprendizado!

    Em resumo, seu post é sensaional!

    Abs.

    Luciana

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  2. Olá Luciana! Existem muitas "escolas" diferentes quanto ao uso de inúmeras variantes de paletas. É um assunto complexo e polêmico entre os pintores. Existem muitos livros sugerindo uma infinidade de variações. É questão de testar as combinações e ir mudando suas cores até chegar numa paleta que "sirva" a voce! Abraço!

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  3. Embora já tenha lido tudo desse excelente blog, nem sempre tenho tempo para deixar um comentário. Vamos lá.

    Qual seria uma paleta interessante para velaturas? (No caso, uma paleta só com cores transparentes?)

    Seria nessa circunstância, uma paleta que eu já use, mas em uma versão com tintas transparentes em cores similares?

    Abraço.

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  4. Leandro, elas não precisam ser necessariamente transparentes, podem ser semi-transparentes. As tintas mais opacas costumam bloquear demais as áreas veladas. Grande abraço!

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  5. Gostei das dicas, estou comesando, e estou aberto a todas as dicas, para que eu consiga expresasr minhas obras. Obrigado.

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  6. Ainda nem comecei a estudar pintura e já comprei um grande número de tintas sem saber se eram transparentes , opacas o semi opacas. Cores diferentes sem me importar que poderia ter uma paleta pequena e misturar as cores.
    Gostaria muito de estudar com vocês mas a distancia me impede. Obrigada pelas dicas.

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