quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Breve História da Tinta a Óleo

Arte e Alquimia
A obra em tinta óleo mais antiga (pintura mural), que sobreviveu e chegou ao conhecimento humano, data do séc. 7 A.C.  A pintura á óleo alcançou máxima expressão com os mestres flamengos e holandeses, que catapultaram a técnica á óleo entre os artistas, em meados de 1600. Para exercer o ofício da pintura era necessário conhecimento de algumas susbstâncias, algo próximo da química moderna, para que o pintor pudesse produzir diferentes tintas, telas, impermeabilizantes, seladores, bases, vernizes, colas pigmentos e todos os outros materiais necessários para o feitio de um trabalho artístico. Um de seus materiais principais, a tinta, era feita através de diferentes processos de pulverização ou moagem de uma infinidade de materiais brutos, como vários tipos de minérios e vegetais. O pó resultante desse processamento, devidamente seco e de partículas finas, era conhecido como pigmento.


Ateliê Medieval: tinta artesanal (à direita)

Os artistas e médicos adquiriam seus materiais brutos e ingredientes num tipo de loja que atendia a ambos, o correspondente as farmácias de hoje. Desse modo, tintas eram feitas a partir dos mesmos ingredientes do que substâncias medicinais – mercúrio, ervas, óleos, marfim, e outros. Até mesmo o santo padroeiro dos médicos, São Lucas, era o mesmo dos artistas. O conhecimento alquímico em comum uniam ambas profissões, colocando-os praticamente no mesmo patamar. As tintas eram feitas através da dispersão desses pigmentos em óleos secantes, com o uso da moleta sobre uma lâmina de mármore, um demorado processo que exigia pratica e paciência. O pintor era praticamente um químico, ou como dizíamos antes, um alquimista. O aspirante desse ofício tinha de aprender uma variedade enorme de receitas e conhecer as reações e propriedades de inúmeras substâncias para empregar esse conhecimento em seus processos artísticos. Sem esse conhecimento, seu treinamento não estaria completo, sendo indispensável para que pudesse se qualificar como um profissional.

As Lojas de Cores e os Coloristas
Por volta de 1720, a demanda por uma “farmácia” que contasse com uma seleção de matéria prima específica para pintura causou a formação de um segmento comercial especializado: as lojas de cores, onde um novo profissional trabalhava, o colorista, que dispunha de pigmentos e materiais para que os artistas pudessem confeccionar suas tintas. Essa é a primeira grande mudança: o artista deixa de colher e processar seu pigmento.

A Tinta Pronta e o Tubo de Estanho
A segunda grande mudança ocorre em meados de 1800: essas lojas passam a comercializar a tinta óleo para o uso imediato: tinta pronta. Primeiramente, envoltas em vísceras e bexigas de animais, mais tarde, embaladas em pequenos sacos de pele ou couro. Em 1840, surgem as seringas de vidro.


A evolução dos tubos de tinta. (Arquivo Winsor & Newton)


Finalmente, em 1841, os primeiros tubos de estanho começam a ser usados como invólucro de tintas prontas, trazendo maior praticidade, higienização, mobilidade e conservação ás tintas, viabilizando o estoque e comércio desse novo produto em grande escala. Com a disponibilidade da tinta pronta para o uso, o maçante processo de dispersão de pigmento em óleo com a moleta poderia agora, ser deixado aos cuidados dos coloristas. Não se faz mais necessário uma infinidade de objetos e de espaço para a atividade de produzir tintas: moletas de diversos tamanhos, pedra para moagem, pigmentos, jarros e outros. O estúdio fica menor, ideal para os tempos modernos. A tinta agora poderia ser facilmente obtida por qualquer pessoa nessas novas lojas.

Pintura como Hobby e o Ateliê Portátil
Os materiais de pintura profissionais agora estavam ao alcance de todos, sem a necessidade do conhecimento, esforço físico e tempo para produzi-los. O tempo constitui peça fundamental nesse acontecimento. O homem começa a valorizar o tempo depois da revolução industrial, e toda a conveniência que possa economizá-lo passa a ser uma grande vantagem. A conveniência da disponibilização de materiais artísticos prontos catapultou um maior interesse pela pintura. Essa nova atividade dos coloristas ajudou a proliferar a pintura como atividade amadora, ou hobby.

Temos então, com o surgimento da tinta em bisnaga, duas grandes conseqüências: Uma nova possibilidade para os artistas de carregar facilmente sua mais importante ferramenta de trabalho, a tinta, e a popularização da pintura á óleo como hobby ou atividade de lazer. Esses dois novos adventos potencializam a comercialização dos materiais artísticos, gerando muitas marcas, principalmente após 1840. As marcas pioneiras que ainda perduram incluem: Old Holland (1664); Lefranc & Bourgeois (1720); Winsor & Newton (1832). As novas marcas líderes do mercado depois de 1840 viriam a ser: Lukas (1862); Schmincke (1881); Sennelier (1887); Talens (1889), entre outras.

Tornou-se possível levar a tela para fora do ateliê. Pintores do período romântico podiam arrumar as malas e sair pelo país para pintar o arco-íris, o pôr do sol e os montes de feno. Estavam livres para capturar o momento. O meio da pintura tornou-se portátil, e mudou radicalmente. 1

"Claude Monet Painting by the Edge of the
Wood" de John Singer Sargent, 1885.

Seria correto afirmar que essa nova indústria foi responsável por disponibilizar ferramentas para que os pintores deixassem o estúdio, dando condições para que o impressionismo proliferasse. A indústria do material artístico guia o pintor: a disponibilidade de uma nova ferramenta sugere novas possibilidades. Essas grandes mudanças fomentaram o desuso de todo o conhecimento alquímico que antes o pintor necessitava para produzir seus materiais. Um vagaroso distanciamento do preparo dos materiais como fundamentos primordiais do ofício da pintura. Mas nem todos eram adeptos a essas mudanças, como vemos através dos comentários de Delacroix e Thompson:

A técnica mais perfeita do mundo se encontra nos grandes mestres: Rubens, Tizziano, Veronese e os holandeses; o trabalho árduo, o moer dos pigmentos, as preparações, a secagem de diferentes camadas de tintas. Entre os modernos, essa tradição foi completamente perdida. Produtos de má qualidade, negligência nos preparos, falta de cuidado dos artistas. 2
Começamos a compreender que as telas, tintas e pincéis oferecidos pela indústria ditam nossas operações técnicas em alto grau; a mecanização pode ser de tirania maior que a tradição. 3


Contemporaneidade
Desde então, a indústria tem tomado conta do mercado, produzindo a maior parte dos materiais artísticos, e a produção artesanal vem deixando de existir. Por conta da perda de um hábito que antes pertencia aos artistas, quem dita as regras de quais materiais devem ser usados, é a indústria de materiais. O artista, com falta de intimidade dos processos de feitio, na maioria dos casos, não tem parâmetros para julgar. 


Pigmentos: grande variedade

Com o advento da internet e da globalização, uma pequena, mas expressiva, quantidade de artistas que fazem questão de estarem ligados a cozinha da pintura estão atentos ao mercado e a qualidade dos materiais. As vezes, o estudo e a discussão dos materiais da antiguidade pode levar a impressão de que os procedimentos antigos são superiores, o que nem sempre é verdade. Essa discussão (processos antigos vs. modernos) sobre a qualidade de diversos materiais é delicada, e antes de mais nada, deve se lembrar que existem muitos materiais e procedimentos diferentes, ontem e hoje, portanto devemos analisar sempre caso a caso. De fato, alguns materiais modernos, industrializados, representam grande melhoria e avanço quando comparados a materiais antigos, outros, não são o caso.

Para aqueles que preferem, como exemplo, as tintas artesanais e processos de feitio que condizem mais com os da antiguidade, diversas produtoras independentes tem ganho força e estão se elevando a um nível comercial onde já é possível a comercialização internacional de materiais artesanais para todo tipo de público e utilidades. É um paradoxo, no qual o produto artesanal e de baixa escala comercial volta a ser produzido por empresas que visam esse perfil de produto para se elevar num mercado competitivo e dinâmico.

BIBLIOGRAFIA
1 Palestra de John Lienhard, da Universidade de Houston. Disponível em http://www.uh.edu/engines/epi831.htm
2 Eugene Delacroix, 1857 (The Journal of Eugene Delacroix, trans. Walter Pach, New York; Crown Publishers, 1948: p. 533)
3 THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York; p. 44.



4 comentários:

  1. Amei esta matéria!!!!!
    Parabéns!!!!
    Gde abço, Namastê!!!!

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  2. Eu quero saber os nomes para uma pesquisa

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  3. Caro anônimo, o autor do artigo é Márcio Alessandri. Abraço!

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