quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Diferenças entre Tintas Industriais e Artesanais

Tanto as tintas industriais, quanto as tintas artesanais possuem vantagens e desvantagens, e inquestionavelmente, são produtos diferentes. Talvez, aos olhos do pintor iniciante ou inexperiente, essas diferenças sejam imperceptíveis, mas conforme se adquire o hábito de se usar um determinado material, a experiência é sempre a mesma com todos os artistas: se trocamos a marca ou o tipo do material usado, percebemos que algo está diferente. Quando o artista se torna muito experiente, as diferenças que antes eram imperceptíveis, tornam-se as vezes, esmagadoras. Com isso em mente, escrevi esse pequeno artigo, para analisarmos mais detalhadamente quais são essas diferenças e por que é importante entendê-las.


Tinta Artesanal: Materiais para a fatura


Pigmentação e Pastosidade
Uma das diferenças é o uso de adulterantes pela indústria. O estearato de alumínio e o hidrato de alumínia possuem várias funções na produção dessas tintas. Servem para que o pigmento não separe do veículo, prolongando o tempo de estocagem, e para garantir uma pastosidade semelhante a todas as cores. Sua adição em grande quantidade também serve para baratear o custo da tinta, pois esses produtos substituem o pigmento no volume total da tinta, resultando numa pasta que embora possua corpo adequado, possuí menor quantidade de pigmento, retirando o poder de cobertura e adquirindo uma consistência cremosa muito característica.1 As tintas artesanais são feitas, geralmente, somente com pigmento e veículo, os adulterantes são opcionais e quase nunca usados dentro do ateliê. As vezes, coloca-se pasta de cera branca de abelha, em ínfima quantidade 2, para evitar que o pigmento separe-se do veículo. 

A generosidade de pigmento confere propriedades reológicas que mostram consideráveis diferenças daquelas que levam menos pigmentos. No entanto, é importante lembrar que algumas marcas possuem linhas de “estudante” e linhas “profissionais”, a segunda, ofereçem tintas com alta pigmentação, portanto, essa não é uma característica exclusiva da tinta artesanal, mas também não é característica das tintas do tipo “estudante”. 

Tinta Artesanal: Branco de Chumbo


A textura diferenciada entre industrial e artesanal se deve principalmente pelo uso do óleo alkalí e adulterantes, que criam uma textura “amanteigada” que não é obtida na tinta artesanal que leva somente pigmento e óleo de linhaça prensado a frio. A tinta artesanal possui uma maneira de “assentar” característica, diferente da cremosidade da tinta industrial, cria efeitos . É possível também, alcançar essa “cremosidade” da tinta industrial na fatura da tinta artesanal, dentro do ateliê, através do uso do óleo de linhaça alkalí e talvez a necessidade de alguns adulterantes, embora seja obviamente mais fácil comprá-las prontas.

Vale lembrar que hoje, é possível encontrar marcas de tintas industriais mas que na verdade usam processos praticamente artesanais na fatura dos produtos. Altíssima quantidade de pigmento, pouca quantidade de óleo e nenhuma adição de adulterantes. É o caso da Natural Pigments. No entanto, lembre-se: a falta de adulterantes e do óleo de linhaça alkalí não geram uma tinta “cremosa”. Portanto, vale a pena entender como funciona o processo de fatura de uma marca antes de comprar grandes quantidades. Outras marcas oferecem em suas linhas “profissionais” alto poder de pigmentação, mas usam adulterantes, criando a famosa pastosidade. É importante notar que certas características não sejam lidas como boas ou ruins, como por exemplo, no caso de “cremoso”, essa característica pode ser desejável a um tipo de técnica ou a um artista, mas pode ser totalmente desnecessária ou indesejável a outro. Logo, essas características de consistência dividem as opiniões entre diversos artistas, sendo uma questão de gosto, e as vezes, de hábito.



Michael Harding: Tinta industrial
com qualidades da tinta artesanal
Quantidade de Veículo
Quando optamos por fazer nossa própria tinta, as proporções de óleo/pigmento sempre são preferencialmente calculadas e reguladas para que nunca haja mais óleo do que o necessário. O excesso de veículo torna a tinta muito oleosa, e quando a mesma seca, corre o risco de ficar mais escura e amarela do que a tinta com menos óleo. 

As pinturas dos irmãos Van Eyck, Rubens, Rembrandt, Velasquez e outros continuam claras e luminosas. 3

É compreensível que as pinturas feitas pelos grandes mestres estejam em excelente estado de conservação, não somente pela forma como foram pintadas, mas também pela proporção óleo/pigmento, gerando uma tinta com menos risco de amarelar, conservando as cores menos suscetíveis a mudanças pela baixa quantidade de óleo. Outra vantagem da tinta artesanal é a opção de usar outros óleos, como o óleo de nozes, papoula ou cártamo, opções que raramente são encontradas em tintas industriais.

Qualidade do Veículo
Existem alguns óleos vegetais que podem ser usados na fatura da tinta óleo. O mais usado, é o óleo de linhaça. Ele é feito a partir da prensagem, ou, moagem da semente da linhaça. Dois processos diferentes podem ser usados: a extração á frio e a extração a calor, sendo a segunda, um processo bem mais recente do que o primeiro, que vem desde a idade média. Entre os pintores, discute-se qual é a melhor opção entre os dois tipos de extração. 
O óleo prensado a frio é, de longe, o melhor óleo para moagem dos pigmentos, e possui muitas vantagens. Possui um teor de acidez alto, que atribui características desejáveis. Primeiramente, tem cor mais estável, sendo particularmente mais estável nesse aspecto. Também produz um filme mais elástico e durável. Quando usado para moer pigmentos tem um poder de absorção superior. Deve ser a primeira opção como óleo de moagem nos ateliês. Existe um benefício econômico gigantesco para o produtor de óleo em manter o mundo usando seu óleo refinado a calor. Pelo uso do calor na extração, uma porção muito maior de óleo é obtido, sendo esse processo o padrão da indústria desde o séc. 19. Os produtores dizem ser um óleo superior ao prensado a frio, no entanto, seu processo de feitio é voltado a grande viabilidade econômica, fácil industrialização e outros parâmetros que os artistas não julgam tão importantes. O óleo refinado Alkali deve ser considerado como uma segunda opção, para ser usado quando não houver óleo prensado a frio disponível. 4
O uso de pressão e vapor é necessário para assegurar os resultados mais econômicos, mas a qualidade do óleo assim produzido é definitivamente muito inferior ao do que é extraído pela prensagem a frio, sem vapor, especialmente do ponto de vista do artista... ... e apesar de qualquer refino posterior ao qual o óleo seja submetido ele é mais frágil, e as películas quando secas tornam-se mais quebradiças do que a do óleo prensado a frio... ... os produtores de óleo forneciam aos fabricantes de materiais artísticos, como substitutos, óleos claros refinados a álcali, alegando que estes eram superiores em uniformidade e propriedades gerais ao óleo prensado a frio. 5

Esq.: Alkalí; Dir.: Prensado a Frio

Entre os artistas e acadêmicos, notamos uma grande preferência pelo óleo produzido a partir da extração a frio, e uma grande relutância ao uso do óleo refinado:

O óleo de linhaça prensado a frio é o melhor para os propósitos artísticos... é raramente prensado a frio, pois esse é o método que resulta numa mínima quantidade de óleo. 6
O óleo refinado prensado a calor (alkali ou álcali) é um produto moderno que possui inúmeros defeitos, e não possui as qualidades superiores do óleo prensado a frio... o processo industrial de refinamento usando calor, para remover o óleo das sementes em quantidade máxima, é motivado pelo lucro econômico... 7


George O´Hanlon, produtor de vários produtos artísticos, entre eles o óleo de linhaça refinado prensado a calor, químico especialista em materiais artísticos históricos, e diretor da Natural Pigments 8 é da seguinte opinião:

Os manuais antigos recomendam o óleo prensado a frio por que ele é melhor para dispersar pigmentos, pois absorvem o óleo mais facilmente e com mais rapidez. Esse era o único óleo disponível antes do séc.20. Ele é melhor para moer pigmentos pois contem mais ácidos graxos livres, dando maior índice de acidez. A desvantagem no uso do óleo prensado a frio é sua cor muito escura e impurezas, que levam a um maior amarelecimento. No começo do séc.20, os produtores de óleo desenvolveram métodos de refinar óleos vegetais que resultam num óleo que contém o melhor de ambos: alto índice de acidez juntamente com um refinamento de pouca ou nenhuma impureza. 9

Dentre os principais pontos, a cor do óleo, é assunto polêmico. Os produtores de óleo dizem que a cor mais clara do óleo refinado prensado a calor é prova de um produto melhor. No entanto, os artistas clamam que esse óleo claro, escurece com o tempo. 

Uma regra que deve ser levada em conta, é a de que as variações de óleos mais claras vão escurecer mais com o passar do tempo, enquanto que os óleos mais escuros (como o prensado a frio) mudarão menos. Então o resultado, no fim, é similar. 10


Segundo Eastlake, o escurecimento, ou amarelecimento do óleo ocorrerá, inevitavelmente, em todos os tipos de óleos de linhaça. Sendo isso inevitável, o problema não seria então sua coloração, e sim, se passou por algum processo de clarificação: se ele foi alterado. Para o autor, os processos de clarificação usados no óleo trazem para as cores um falso juízo de claridade ou pureza. Se o óleo fora clarificado por qualquer tipo de processo, e inevitavelmente voltará a escurecer, isso fará o artista obter cores claras durante sua pintura, mas que somente depois, irão escurecer. Como solução, Eastlake propõem que o óleo deve ser usado em seu estado natural, sem clarificá-lo, pois dessa maneira, o artista pode compensar sua carregada cor amarela enquanto ainda estiver pintando, colocando mais tinta, ou adicionando cores que compensem o amarelo, evitando surpresas futuras. Isto é, não importa a cor do óleo, contanto que o artista leve em consideração sua cor, e compense isso em suas misturas de cores.


Teste de Amarelamento

...sendo a descoloração (amarelecimento) dos óleos inevitável, é melhor usá-los desde o início já em seu estado de cor que alcançarão. 11


Na correspondência entre Rubens e Peiresc, carta datada de 1629, encontra-se a mesma informação, transcrita através do próprio punho do pintor:

Se meu retrato não parecer tão bom como quando foi acabado, o melhor remédio seria expô-lo ao sol e o excesso de óleo que causa essa mudança seria destruído. Se tornar a escurecer, repetir este processo que é o único remédio. 12


Em verdade, o óleo não é destruído pelo sol. Uma de suas características é tornar-se mais claro á luz. 13
Outro ponto a ser considerado é o tempo de secagem:

...Mais importante que a cor, é a grande diferença entre suas habilidades secantes: o óleo refinado prensado a calor seca de maneira excepcionalmente lenta, causando a necessidade do uso de secantes e solventes. 14


A discussão sobre qual meto de extração, e qual o óleo é o óleo mais indicado possui uma extensa lista de opiniões e estudos que estão longe de uma conclusão. Nossos experimentos mostraram que as diferenças de cor e secagem, entre óleos modernos prensados a frio e óleo alkalí de qualidade não apresentam muitas diferenças. No entanto, o comportamenteo reológico das tintas feitas a partir desses óleos, mostrou que o óleo alkalí refinado e prensado a calor consegue ser absorvido mais facilmente pelos pigmentos, e gerar a costumeira “cremosidade” das tintas industriais, enquanto o óleo prensado a frio tem maior dificuldade para ser absorvido e não gera um óleo “cremoso”.

Estamos fazendo novas investigações e experimentos, no sentido de entender processos caseiros de refinamento do óleo alkalí e do óleo prensado a frio, e então estudar como esses óleos modificados vão se comportar na fatura de tintas a óleo.


Esq.: Óleo Lavado; Dir.: Alkalí

Processamento
Outra importante diferença, é a dispersão do pigmento no óleo, ou, a maneira como a tinta é processada, os métodos de ação sobre as substâncias que formarão a tinta. Quando usamos uma pequena ferramenta para espalhar manualmente o pigmento com o veículo, temos um resultado totalmente diferente de quando usamos grandes máquinas e rolos de aço que mecanicamente preparam a tinta. Certamente o resultado de uma máquina foi projetado para aproveitar ao máximo a matéria prima de maneira que produza resultados econômicos e sempre iguais, garantindo uma padronização para o produto, enquanto o procedimento dentro do ateliê é mais difícil de ser controlado, padronizado e de evitar gastos desnecessários. Todos esses fatores, produzem tintas consideravelmente diferentes em sua pastosidade e comportamento.


Dispersão: Uso da moleta



Tamanho de Partícula do Pigmento
Geralmente, a indústria mói os pigmentos de maneira a pulverizá-los para que não estraguem o maquinário, gerando partículas muito finas. O pigmento quanto mais fino, possui mais facilidade de absorção de óleo. É impossível alcançar o mesmo grau de pulverizaçã das máquinas quando usamos somente a moleta no ateliê. A moleta na verdade é usada para dispersão, e não para a moagem do pigmento. Quando usamos essa ferramenta, estamos espalhando o pigmento e não deixando-o mais fino. Portanto, quando compramos um pigmento pronto, dificilmente iremos conseguir deixá-lo mais fino. Portanto, a tinta artesanal costuma ter maiores partículas de pigmento. Isso não é necessariamente ruim, como já havíamos visto antes. 

Alguns pigmentos, em alguns casos de aplicação, ou em algumas preferências de consistência para tintas, só atingem uma densidade e comportamento específicos quando encontrados com partículas grandes. Existem muitas histórias sobre o azul ultramar usado por Vermeer, que teoricamente, era feito a partir de pedras esmagadas de lápis-lázuli, mas não muito moídas, pois as partículas grandes tornavam sua tinta azul na consistência e efeito ótico que o artista desejava. 

BIBLIOGRAFIA
1 MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970. Pg. 199.
2 Receitas sugerem que cerca de 2% sejam suficientes.
3 MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976. p. 72.
4 Texto de Tony Johansen, artista e produtor de tintas artesanais. www.paintmaking.com.
5 MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970. p. 183.
6 DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921; p. 100.
7 VELÁSQUEZ; R. Louis; Oil Painting with Calcite Sun Oil: Safety and Permanence without Hazardous Solvents, Resins, Varnishes, and Driers; 2003; Califórnia; EUA. p. 13.
8 Empresa norte-americana que produz e comercializa pigmentos históricos e raros. 
9 Texto obtido através de correspondência com George O´Hanlon; 2008.
10 Texto de Tony Johansen, artista e produtor de tintas artesanais. www.paintmaking.com.
11 EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847; p.322.
12 DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921; p. 249.
13 MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976. p. 67.
14 VELÁSQUEZ; R. Louis; Oil Painting with Calcite Sun Oil: Safety and Permanence without Hazardous Solvents, Resins, Varnishes, and Driers; 2003; Califórnia; EUA. p. 13.

4 comentários:

  1. Gostaria de saber onde posso achar uma moleta barata para comprar?

    Obrigado

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  2. Olá Luciano! Existem três opções em São Paulo: A Casa do Artista, Casa do Restaurador e a Lukas. As três lojas possuem moletas em diferentes tamanhos. Veja os sites das lojas e confira os preços! Grande abraço!

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  3. Desculpe a demora em agradecer!
    Estava fora por uns dias!

    Muito obrigado!

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  4. Não há do que se desculpar Luciano. Espero que consiga comprar a moleta. Alguns estabelecimentos não chamam de moleta, mas de "Móz" ou "Mós". Curiosamente alías, por que nunca encontrei o termo em nenhum livro de pintura, somente "moleta".

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