quarta-feira, 22 de abril de 2015

Materiais Industriais Vs Artesanais

A maioria dos artistas compra seus materiais em lojas, prontos para uso. Uma outra parcela bem menor, compra parte de seus materiais em lojas e escolhem um ou outro material para ser feito artesanalmente no ateliê. Uma parcela cada vez mais rara, seguindo uma tradição secular, prefere produzir artesanalmente tudo (ou quase tudo).

Até o começo dos anos noventa, o mundo dos materiais feitos a mão ainda soava como uma perda de tempo, praticamente um retrocesso, algo desnecessário. Essa lógica vagarosamente tornou o conhecimento da fatura de materiais em algo muito incomum. Por mais incrível que possa parecer, muitos artistas não tem idéia do que é feita a tinta óleo, e a falta de informação tornou-se ainda mais profunda acerca de materiais menos usados. 

Com a facilidade de acesso a informação na internet, a fatura artesanal de materiais passou a ser novamente procurada como uma curiosidade entre os mais interessados. Recebemos com certa frequência algumas perguntas muito pertinentes sobre esse assunto: 

Os materiais artesanais são melhores que os industriais? Além disso, até que ponto é válido o esforço para confeccioná-los e não comprá-los prontos? Esse breve artigo tenta considerar alguns pontos importantes dessas questões.

Custo
Embora seja possível pesquisar entre as muitas lojas de materiais artísticos de seu país na esperança de se obter o preço mais em conta, o artista que só usa materiais industriais estará sempre a mercê do preço fixo para o consumidor final. Em casos extremos, pode-se tentar obter o mesmo preço do lojista na compra de grande quantidade através de contato direto com o fabricante.

Os fabricantes de materiais artísticos sempre compram a matéria prima em enorme quantidade, obtendo sempre um preço melhor do que os pintores (consumidores finais) conseguiriam. O artista que opta pelo artesanal nunca consegue preço semelhante, pois sempre comprará quantidades muito menores do que os fabricantes. Enquanto o artista faz compras em gramas, os fabricantes compram sempre em kilos ou toneladas. 



Tinta artesanal feita pela Cozinha da Pintura

Desse modo, é o preço da grande maioria das materias primas que acaba inviabilizando a fatura artesanal. Sobretudo nesse país onde as taxas de importação e impostos são uma verdadeira piada. Tomemos a produção do material mais básico ao pintor, a tinta a óleo, como exemplo. O pintor que desejar fazer sua própria tinta a óleo verá que grande parte das tintas produzidas no ateliê acabarão tornando-se mais caras em relação as cores industriais de marcas já consolidadas no mercado, como por exemplo a Winsor & Newton. Não há como competir: a diferença de custo do produto final, para nós brasileiros, é gritante. Isso se torna ainda mais contrastante nos casos de cores mais caras, como os cádmios, cromos, cobalto, uma vasta gama de orgânicos sintéticos, muitos vermelhos e violetas. Esses pigmentos necessitam de alta tecnologia industrial para serem produzidos e por isso, são mais caros do que as terras. Como são impossíveis de serem confeccionados no ateliê, o artista é obrigado a comprar a matéria prima da indústria, por altos preços. 

A exceção a essa regra só acontece quando o artista produz também a matéria prima. Alguns pigmentos vegetais e minerais podem ser colhidos da natureza e adequados para tornarem-se pigmento, obtendo matéria prima de qualidade com quase nenhum custo para produção de sua própria tinta. Ficando o artista livre da matéria prima produzida pela indústria, há obviamente grande vantagem no custo final. O outro lado dessa moeda é que Infelizmente as matérias primas que geram cores permanentes tem número menor do que aquelas geradas artificialmente, o artista é quase sempre dependente de terceiros para a obtenção de uma vasta gama de matérias primas impossíveis de serem produzidas e em termos de cores em paleta, é obrigado por optar por um número não muito vasto de cores. Portanto, é quase sempre obrigado a arcar com os custos da matéria prima produzida pela indústria, principalmente no caso de quando se quer produzir as próprias tintas.


Mas é importante lembrar que "custo" não necessariamente está vinculado ao custo monetário. Em alguns casos, o artista tem a possibilidade de comprar determinado material numa loja especializada, mas prefere produzí-lo pelo simples prazer e satisfação de confeccionar e usar um material feito por ele. Na verdade, esse é quase sempre o caso quando os materiais são feitos artesanalmente. Dessa forma, cada pintor deverá dizer o real valor e necessidade de faturar seu material. O "valor" obviamente possui relação monetária mas também é relativo a suas necessidades processuais, poéticas e mercadológicas.

Ferramentas Auxiliares

Quando compramos materiais industriais não há qualquer complicação além do deslocamento até a loja e em ter de pagar pelos mesmos. No caso dos materiais artesanais além da compra da matéria prima e de ter de confeccioná-los, é quase sempre necessário uma ou mais ferramentas auxiliares. A lista dependerá do material a ser produzido, mas imagine que diferentes tipos de suportes ou bancadas, pilões, moletas, garfos, espátulas, potes, frascos, máscaras, luvas, funis, peneiras e mais uma outra infinidade de objetos podem figurar entre alguns desses objetos. 

Nem sempre algumas dessas ferramentas podem ser complicadas de se obter, mas é possível que para algum material específico algum tipo de ferramenta muito específica será necessária. O aquecimento de resinas duras por exemplo, necessita de material especial para aquecimento em alta temperatura, como placas aquecedoras e frascos em vidro boro-silicato, ferramentas indispensáveis e muito caras. O espaço de trabalho, com iluminação e ventilação adequadas, também deve ser considerado. 

Tempo
Não há nenhuma dúvida de que os materiais industriais oferecem a melhor opção para todos aqueles que consideram o "tempo" como um problema. O revés do artista que pretende faturar seus materiais é obviamente o tempo que utilizará para fazê-lo. Portanto, ele deve levar em consideração que a quantidade de tempo necessária para sua produção também deve ser considerada como uma espécie de "custo". Tempo é dinheiro.



Suporte medieval: painel de madeira com acabamento em tecido e base


Tomemos como exemplo a fatura de um painel rijo, um dos muitos suportes para pintura. Um painel como esse, preparado exatamente como nos moldes do Renascimento, pede um processo longo e muito meticuloso, podendo tomar semanas ou até meses. O artista deve ter absoluta certeza de que as propriedades oferecidas por esse material são primordiais para a execução de seu trabalho. Do contrário, o uso de qualquer outro suporte rijo industrial poupará tempo de trabalho ao artista, tempo que poderá ser usado na busca de objetivos mais proveitosos.

Exclusividade e Diversidade
Apesar da industria oferecer um grande leque de opções aos artistas, há um grande número de materiais que não são produzidos por inúmeras razões. Os grande produtores de materiais artísticos consideram inviável a produção em larga escala de materiais que necessitam de matéria prima rara, geralmente por seus altos custos. O mesmo acontece para matérias primas tóxicas.

Nesses casos, o artista irá se comprometer a faturar seu material, independente de seu custo ou da preocupação com a toxicidade, por que a indústria não oferece o mesmo. O artista simplesmente não tem opção: caso ele mesmo não faça seu material, não haverá um modo de usá-lo. Por mais alto que seja o custo de uma empreitada para se faturar um material raro, o artista é obrigado a pagá-lo. A exclusividade tem um preço, e isso certamente significa arcar com todas as implicações envolvidas num processo de fatura artesanal. Um exemplo é a base tradicional, clássica, para suportes de pintura a óleo. A base tradicional, que contem cola animal e gesso não é comercializada pronta para uso pela indústria. A cola animal além de apodrecer em pouco tempo, seca de forma muito rápida quando forma uma catálise com o gesso, por isso deve ser feita no momento de aplicação, usada ainda fresca. É o tipo de material que possui substitutos, mas em sua forma original, é preparada somente pelo artista.

Mais um exemplo. Durante algum tempo, a Cozinha da Pintura estudou a possibilidade de viabilizar um medium para pintura a óleo que se comportasse como os géis usados na virada do século (todos com adição de resinas naturais) mas que não apresentasse seus diversos efeitos colaterais.  A questão é complicada, pois as resinas naturais embora façam um bom serviço de dar corpo tixotrópico em forma de gel, também conferem propriedades indesejáveis a longo prazol levando a riscos de conservação. A melhor solução seria o uso de algum material que pudesse substituir essas resinas naturais, conferindo somente as propriedades desejáveis e suprimindo as outras.

Conseguimos recentemente chegar a uma mistura de vários componentes que leva também uma resina sintética muito estável, que dá exatamente as mesmas características sem os efeitos adversos do infame medium Maroger (também chamado de Megilp). Além disso, podemos controlar o tempo de secagem produzindo um excelente medium para pintura alla prima com o tempo de secagem customizável. Apesar da indústria estrangeira oferecer alguns géis para pintura, nenhum possui as mesmas qualidades desse. Todos oferecidos pela indústria conferem secagem rápida enquanto nosso gel pode oferecer vários tempos de secagem e várias densidades corpóreas, do mais líquido ao mais denso.


Versão sintética do Maroger Medium da Cozinha da Pintura

É esse o grande trunfo do artista que adquire conhecimento e experiência na busca por materiais artesanais: ele não está a mercê da indústria, pois em muitos casos, desenvolve com seus próprios meios o material que desejar, do modo que melhor funcione a ele, moldando suas funções e características exclusivamente para seu benefício, feito sobe medida a seu processo. O artista que não acumula esse conhecimento limita seu leque de opção por aquele oferecido pela industria.

Qualidade 
Objetivamente, nem todo material é superior por ser artesanal ou industrial. Ser feito através de uma tecnologia milenar ou muito recente não são sinônimos de qualidade. Novamente, cada caso é um caso. Embora seja uma conclusão que possa parecer decepcionante para alguns, ela pode ajudar aos profissionais que acreditam que os materiais da antiguidade são insuperáveis e também aqueles que só confiam na última palavra da indústria. 

Infelizmente, é muito complexo, o que dificulta em grande grau qualquer análise. No caso das tintas por exemplo: enquanto a tinta artesanal possui uma quantidade muito superior de pigmento quando comparada a tinta industrial, a segunda é superior quando analisamos a qualidade da dispersão. Nenhuma tinta artesanal possui uma dispersão tão adequada quanto aquela feita em maquinário industrial, é simplesmente impossível. E essa é somente uma das muitas diferenças que podemos analisar. Todo material possui uma lista longa de propriedades que deve ser julgada.

Tomemos o Vermillion como mais um exemplo. O pigmento original não é permanente. Todos seus substitutos originais são mais permanentes, mas em contrapartida, quase nenhum chega próximo de sua cor original e menos próximo ainda de sua massa corpórea (capacidade de alastramento/índice de transparência). Cabe somente ao pintor, julgar quais dessas características é mais importante a ele. Portanto, "qualidade" pode residir em inúmeros ou poucos quesitos particulares de um material e em outros casos pode até mesmo ser relativo.


Branco de Chumbo produzido na Cozinha da Pintura

Conclusão
As grandes questões acerca de nosso artigo são as problemáticas do tempo de produção e a dificuldade na obtenção de matéria prima. São questões centrais que devem receber atenção máxima no momento da decisão de escolha entre artesanais e industriais. 

Cada material deve ser considerado de modo independente. O material refere-se a um verniz, suporte, tinta, pincel, medium? No caso da tinta, qual é a cor ou pigmento em questão? O Amarelo Ocre possuirá considerações completamente diferentes de uma outra cor, como por exemplo o Azul Ultramar original. O mesmo vale para outros materiais. Qual tipo de verniz? É uma resina natural ou sintética? Ele possui quais componentes? Há uma versão moderna que substitua o original? Qual o preço e dificuldade de obtenção desses componentes? Quais são as características que o torna fundamental para o processo do artista?

Note que essas características (plásticas ou poéticas) certamente mudarão de artista para artista. Enquanto um pintor julga fundamental trabalhar com uma cor extinta pela indústria para compor sua poética ou para executar um tipo de "efeito" de aplicação, outro poderá considerar completamente irrelevante para seu trabalho. 

Uma resposta direta e conclusiva a nossa pergunta inicial é impossível de ser feita através de uma perspectiva geral, pois cada artista confere um valor aos fatores individuais expostos aqui. Porém, da perspectiva pessoal de cada artista, a resposta é bem mais simples. 

O que deve ficar claro a todos é que não necessariamente um material é melhor ou pior por ser artesanal ou industrial. É necessário avaliar cada material individualmente, assim como os meandros necessários para sua fatura e tudo aquilo que eles podem oferecer em suas aplicações plásticas e poéticas.


BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2014.
ACMI; Art & Creative Materials Institute; 2014.

Agradecimentos de revisão: Hiram Gama.