segunda-feira, 27 de julho de 2020

Preparação de Tela

É comum encontrar telas para pintura feitas com tecidos de algodão com poucos fios por centímetro quadrado. O resultado disso é um acabamento poroso e muito rústico na superfície da tela. Os fabricantes brasileiros dão um acabamento as telas com uma base que na grande maioria da vezes é o mesmo que nada. As telas brasileiras são todas assim, bem diferentes das telas americanas e européias, que são feitas quase sempre de linho e possuem um acabamento muito mais liso, pois as demãos da base são sempre mais espessas e geralmente usadas de modo duplo, característica conhecida pelos artistas desde o período barroco como double priming ou double ground. 

Portanto, nas telas nacionais é sempre visível, principalmente nas áreas onde a tinta permaneceu mais fina, os largos poros do tecido, criando uma textura de pontos ou pequenos buracos que podem ser vistos á distância e que nem sempre são convenientes aos artistas. Além disso, esse tipo de tecido costuma absorver demais o óleo da tinta, fazendo com que as pinceladas fiquem sutis e acanhadas. A tela quando adequada, torna as marcas e pinceladas de tinta mais notáveis, valorizando a estética pictórica.


Textura de tela não preparada

A verdade é que a grande maioria dos pintores brasileiros não se incomodam com essa característica pois não possuem um outro parâmetro de comparação. Já ensinamos anteriormente aqui em nosso site, como preparar painéis similares aos usados tradicionalmente na antiguidade, assim como as diferenças de bases tradicionais para esses painéis. Os alunos de nosso curso de Pintura Clássica (turmas presenciais e online) também aprendem como preparar uma base adequada, mas nunca houve um artigo aqui no site, apresentando uma solução para aquilo que os artistas mais precisam: bases adequadas para telas. Esse novo artigo tem como intuito ensinar uma solução prática e segura para esse problema dos pintores brasileiros, dando um acabamento mais adequado as telas encontradas em nosso mercado.  
A base ou preparação de tela que sugerimos é feita em dois estágios. Em primeiro lugar, o estágio da encolagem. Em segundo, o estágio do acabamento propriamente dito. Todos os materiais usados nessa receita são encontrados em lojas de materiais artísticos por todo o pais. 

É importante que o artista entenda quais são as funções de cada um desses estágios: a encolagem irá funcionar como um isolante, impedindo que o óleo seja sugado pela tela, produzindo o que chamamos de superfície não-absorvente. O segundo estágio, do acabamento, irá fechar os poros do algodão, tornando a tela mais lisa e consequentemente também menos absorvente.


Preparando a base numa tela de Linho

Encolagem
Adicione um pouco de cola PVA (polivinílica, também chamada de cola branca escolar) num recipiente descartável e adicione um pouco de água. A água fará com que a cola torne-se menos espessa, fazendo com que sua aplicação seja mais fácil e com que penetre com mais facilidade nos poros do tecido. Aplique com uma trincha larga, não esquecendo de aplicar também nas lateriais. Tenha certeza de que a sua demão não é nem muito fina e nem muito grossa.

O tempo de secagem irá variar conforme a temperatura do ambiente. Em época de calor, é possível observar a secagem em aproximadamente 30 minutos, enquanto no frio é possível que demore até duas horas, dependendo da quantidade de cola usada nessa demão. Lave imediatamente a trincha após o uso, com água abundante, a cola tende a secar mais rápido nas cerdas do pincel.

Cola PVA Cascorez

É possível usar o suporte apenas com uma única demão, mas uma segunda demão pode garantir de modo mais adequado que todos os poros sejam completamente fechados. Tenha absoluta certeza de que a primeira demão está completamente seca para que a segunda demão seja aplicada. A segunda demão de cola costuma demorar um pouco mais do que a primeira para secar completamente. Mantenha o suporte na horizontal, em lugar que não pegue poeira, até que a demão fique seca.

Acabamento
Para o acabamento final, é necessário uma demão moderada, isto é, nem grossa e nem fina, também feito com uma trincha, de gesso acrílico. Achado em toda loja de material artístico, o gesso acrílico também pode ser chamado por alguns fabricantes de base acrílica. Para ter certeza de que se trata do mesmo produto, cheque os componentes do rótulo, procurando por emulsão de resina acrílica com cargas inertes, esses são os principais componentes do gesso acrílico. Boas marcas de gesso acrílico no Brasil são da Cromacolor, Corfix e Acrilex.


Gesso Acrílico Cromacolor

É importante colocar um pouco de água misturada ao gesso, aproximadamente 20%, para que não se forme tantas ranhuras e para que a textura do pincel não apareça. Caso você ache interessante que a textura do pincel e da aplicação apareça, não dilua em água, use o gesso acrílico puro. É possível adicionar um pouco de tinta acrílica ao gesso acrílico para tonificar ou dar cor a base, caso o artista queira uma espécie de imprimatura.

A demão de gesso acrílico necessita dos mesmos cuidados que a encolagem: o suporte deve permanecer na horizontal enquanto o gesso acrílico seca, num local longe de poeira e se possível, numa área arejada. A base costuma estar pronta somente com uma demão de gesso acrílico, mas caso o artista queira um acabamento ainda mais liso, é possivel aplicar mais uma ou duas demãos de gesso acrílico, contanto que as camadas não sejam grossas demais e que a camada anterior esteja completamente seca.

Método Moderno vs Tradicionais
O método descrito aqui é um dos mais práticos, descomplicado e seguro para preparar as telas vendidas em lojas de materiais artísticos, compreendendo um método mais moderno de preparação. Se voce deseja um método mais tradicional, leia nossos outros artigos sobre painéis e bases, na barra lateral esquerda desse site, embora seja necessário levar em consideração de que os materiais para os métodos mais tradicionais são mais difíceis de se encontrar e sua preparação mais demorada e complexa.

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BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2013.