quarta-feira, 1 de julho de 2015

Impermanência dos Cádmios Amarelos

Em 2012 descobriu-se que os amarelos de uma pintura de Van Gogh estavam mudando de cor. As matérias sobre o assunto levavam a acreditar que o fenômeno estava vinculado somente com a obra em questão, um fato isolado, provavelmente resultante de uma interação entre o pigmento e o verniz aplicado a obra. A deterioração do mesmo pigmento já havia sido observada numa obra de Matisse em 2006. A grande mídia não deu continuidade ao asssunto, independente de sua sequência nos bastidores da comunidade científica. A Cozinha da Pintura permaneceu conectada as fontes seguras de informações acompanhando esse desenrolar. 

Julho de 2015: Essa semana surgiram dados de importância que não foram amplamente divulgadas na mídia e que merecem maior atenção. Uma equipe de cientistas a trabalho para a Barnes Foundation (EUA) em conjunto com outras instituições e com ajuda da ESRF (European Synchrotron Radiation Facility), um dos líderes em pesquisa com radiação, anunciaram em Press Release os resultados parciais de uma pesquisa que abre um novo capítulo na questão.

O alarde está sendo causado por acreditar-se não se tratar de um fato isolado na obra analisada de Van Gogh, mas uma característica inerente ao pigmento cádmio amarelo, desafiando a fama de permanência indiscutível dos cádmios, já analisada aqui anteriormente.




Lâmina de camada pictórica analisada

O estudo examinou o amarelo de cádmio usado não somente nas obras de Vincent Van Gogh mas também de Henri Matisse, James Ensor e "outros" (não especificados). O artigo afirma que foram detectadas transformações químicas similares em todas as amostras: o material teve sua estrutura afetada por um processo de oxidação induzida pela luz (foto-oxidação). O sulfeto de cádmio (insolúvel), conhecido como Amarelo de Cádmio, se transformou em sulfato de cádmio (solúvel), mudando de um amarelo intenso para um amarelo praticamente cinza. 

Em outras palavras: a luz, a longo prazo, afeta a estabilidade do amarelo cádmio, acinzentando sua cor.

A transformação do sulfeto para sulfato de cádmio é preocupante, desde que o material pode por sua vez se transformar em outras substâncias indesejáveis (como carbonato de cádmio e outros sais solúveis) gerando ainda outros problemas de permanência quando em contato com outros tipos de pigmentos ou materiais. Como se não bastasse a perda de cor, o material também fica mais suscetível a transformações provocadas pela umidade do ar, perdendo a elasticidade e acabando com um caso de delaminação: literalmente descascando. Descoloração e deterioração física eram fenômenos inéditos na história desse pigmento, com o estudo, comprovam-se como possibilidades reais. O fenômeno não é reversível.



Uma das imagens das lâminas examinadas

Essas novas descobertas colocam novamente em perspectiva inúmeras questões polêmicas que envolvem os cádmios como pigmentos da indústria artística, discutidas aqui anteriormente em dois artigos: sobre sua toxidade e sobre as vantagens de seus substitutos.

Há de se concluir essas análises que nos revelarão com maior propriedade se esse fenômeno é exclusivo de processos de fatura de cádmios do período dessas pinturas ou se de fato isso é um problema vinculado a todos os cádmios, seja lá qual for o processo o qual o originou. Caso a segunda hipótese seja confirmada, teremos finalmente uma problemática séria em termos de conservação que deverão ser analisadas para que se possa reavaliar os índices de permanência atribuídos ao pigmento. Isso provavelmente fará com que seus substitutos tenham maior aprovação tanto da indústria quanto dos artistas.

Outras questões instigantes farão parte de futuras análises: haverá também a confirmação de que os mesmos traços de impermanência afetam os cádmios vermelhos, verdes, violetas e de outras cores? Estamos acompanhando o desenrolar das pesquisas e anunciaremos num futuro próximo sua conclusão.

Bibliografia
Daily Mail
ESRF