quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Nova Geração de Cores

Esse é um post longo e de considerável teor técnico, sei que pode ser penoso para muitos prender a atenção num artigo como esse, mas é um assunto desconsiderado na língua portuguesa e de valor a todos aqueles que estudam o comportamento das tintas com mais afinco. A falta de material bibliográfico em português é quase sempre o que nos norteia na escolha dos temas abordados aqui. Considero uma obrigação oferecer pelo menos uma breve introdução desses materiais. 

A intenção desse artigo é apresentar com certa profundidade algumas cores mais recentes que estão substituindo aquelas de alta intensidade (cádmios e cromos). São produtos criados por uma tecnologia relativamente nova e por isso há uma grande falta de informação sobre suas propriedades. São cores que abriram grandes possibilidades e preencheram grandes "buracos" na história dos pigmentos, em diversas categorias. 

1. Cromos e Cádmios
Quando perguntamos a um pintor quais são as cores de alta intensidade em sua paleta, temos invariavelmente a resposta de que elas são: ou cromos ou cádmios. Artistas do mundo inteiro estão habituados a relacionar automaticamente essas famílias de pigmentos com alta intensidade cromática. São certamente úteis aos que desejam alcançar cores excessivamente vivas, pois não há como alcançar essa força, na pintura alla prima, quando se faz uso de terras ou cores de baixo chroma. 



W&N apostando em novos pigmentos.

Muitos artistas insistem em não retirar os cádmios de sua paleta. Isso se deve a longa fama que os cádmios e cromos tiveram por muito tempo. Mas com a atual problemática da proibição dos cádmios temos uma questão emergencial: já que o abandono é inevitável, quais são os pigmentos que podem substituí-los? 

Na verdade, essa "nova geração" que anunciamos no título, não é tão nova assim. Desde os anos 50, novas tecnologias foram surgindo e tornando possível a fatura de novas cores que vagarosamente foram se encaixando, uma por vez, nas novas tabelas de cores de tintas a óleo. Hoje, temos um grande número dessas cores em praticamente todas as marcas de tintas por todo o mundo e há chances de que até o artista mais teimoso (quanto ao uso de cadmios) já as tenha usado. 

Para aqueles que não trocam os cádmios por nada e prestam muita atenção nos rótulos, chegou a hora de abrir uma exceção e dar uma chance a essa nova/velha tecnologia. Esses "novos" pigmentos possuem maior poder de intensidade e outras características que irão interessar qualquer artista, até mesmo aqueles que não abrem mão dos cádmios.

2. Orgânicos Sintéticos: A Nova Geração de Alto Chroma
O termo orgânico dá a impressão de que se trata de um produto natural, mas na verdade a segunda palavra do termo (sintético) dá uma idéia melhor sobre suas origens: pigmentos produzidos artificialmente em laboratório a partir de moléculas básicas de carbono (ou átomos de carbono). O carbono possui a propriedade de combinar-se em inúmeras estruturas atômicas, incluindo a mais importante e básica: o anel de benzeno, sendo incrivelmente útil para a criação de ilimitados componentes químicos. 

Justamente pela possibilidade da manipulação das moléculas de carbono, chamam-se orgânicos, apesar de serem na verdade sintéticos, gerando um termo que parece contraditório. Descoberta em 1865, essa tecnologia foi sonhada durante muito tempo pela industria de tintas. Com ela, temos uma nova geração de cores que desencadeou uma verdadeira revolução para a industria e substantivamente para a paleta dos artistas. 



Orgânico Sintético em ação: Altíssimo chroma

Não é a toa que são chamados de "pigmentos de alta performance". Essas novas cores oferecem alta intensidade cromática, com nenhuma toxicidade, permanência excelente (em muitos casos, mas não em todos), alto poder de tingimento* (as vezes chamado de "saturação", mas prefiro usar o primeiro termo pois saturação é uma outra característica ligada a refração do filme resultante e não ao modo como se mistura) e com menor custo de produção.

* Para entender melhor essa propriedade, que não deve ser confundida com carga pigmentária ou saturação, leia a parte final de nosso artigo "Escolhendo uma Cor".


3. Famílias de Orgânicos Sintéticos
Selecionamos algumas famílias dos orgânicos sintéticos mais usadas pela industria de tintas a óleo. Todos os pigmentos citados nesse artigo foram testados para entender suas forças cromáticas nas seguintes formas: puros e misturados com branco (tint). Também foi observado opacidade/transparência. Os índices de permanência foram tirados de extensa bibliografia e dos índices de permanência de cartelas de cores de mais de uma dúzia de marcas de tintas nacionais e estrangeiras. Variações em todas as características podem se manifestar, principalmente se o leitor fizer testes com marcas que não foram avaliadas pela Cozinha da Pintura. Levaríamos meses para testar TODOS os orgânicos sintéticos disponíveis no mercado, portanto, é completamente possível que o artista encontre pigmentos dessa família que não foram classificados nesse artigo.

Legenda para os códigos usados no artigo:
*** Pigmento que mudará a cor (permanência instável)
** Pigmento que pode mudar a cor (permanência questionável)
* Pigmento que não mudará a cor (permanência estável)

IMPORTANTE: Os pigmentos que recebem dois códigos, divididos com uma barra (Ex.: */**) receberam diferentes avaliações em diferentes fontes. Portanto, é responsabilidade do artista testá-los e tirar suas próprias conclusões.

Nota sobre o sistema de asteriscos: Cada empresa de tinta trabalha com um sistema diferente. E sim, isso confunde muito as coisas. Algumas usam uma categorização que identifica com um (*) asterisco as tintas de melhor permanência e três (***) estrelas a de pior permanência. Mesmo preferindo o sistema inverso (onde * equivale a menor permanência e *** equivale a melhor permanência), optamos por usar o sistema inverso, que é o mesmo usado pela ASTM. Para não confundir, optamos também por usar cores que denotam o tipo de permanência, sendo vermelho impermanente, laranja questionável e verde permanente. Vale também lembrar que o padrão da ASTM é com quatro graus de permanência (*, **, *** e ****), mas optamos simplificar, para facilitar o estudo.


4. Orgânicos Sintéticos
4.1. Phthalos (Phtalos, Ftalos)
Também conhecido como Ftalocianina, o Ftalo é provavelmente o primeiro orgânico sintético amplamente usado pela industria. As grandes vantagens dos Ftalos descrevem de forma genérica as características da maioria dos orgânicos sintéticos: alta intensidade cromática, alto poder de tingimento e extrema transparência. É considerado uma das substâncias mais importantes na história dos pigmentos devido a sua alta versatilidade para produção de uma imensidade de cores frias, como azuis e verdes. Muito usado nas aquarelas, devido a sua transparência, com um número enorme de tons diferentes, oferece número inferior de cores aplicáveis nas tintas a óleo. 

As cores mais usadas na tinta a óleo compreendem as seguintes gamas: azuis (e azuis esverdeados): PB15*PB15:2*; PB15:3*; PB15:4*, PB15:6*, PB17*PB16*; verde: PG7*. Todos esses pigmentos são encontrados invariavelmente misturados a outros ftalos ou outras famílias de pigmentos (não necessariamente orgânicos sintéticos) assim como sozinhos. Um dos mais usados hoje é o PB15, com inúmeras variantes de cor e modo de fixação (número posterior aos dois pontos). Há certa discrepância de temperatura de um mesmo índice de cor de um mesmo pigmento e uma certa diferença de transparência. Todo ftalo é muito transparente, não há variações de extrema opacidade. Quando há exagerada opacidade, é geralmente resultado do emprego de algum outro pigmento.

Os Ftalos não possuem qualidades que os tornam úteis como substitutos aos cádmios ou cromos, pois são todos tipicamente transparentes. Mas constituem importantes pigmentos da família dos orgânicos sintéticos. Nesse artigo, veremos outros pigmentos dessa família com as mesmas características, além daqueles que são substitutos as cores de alta intensidade como os cádmios, que por sua vez, exigem opacidade.


PB15:3 puro
PB15:4 puro
PG7 puro
PG7 puro




4.2. Arylide (Monoazo)
Os Azos são uma família de enorme quantidade de cores. O Arylide é um sub-grupo dos orgânicos sintéticos que nos oferece amarelos, laranjas, verdes, vermelhos e alguns violetas. A família Azo produz pigmentos de boa permanência mas deixa a desejar em inúmeras cores, principalmente nos violetas. As cores verdadeiramente boas a base de Arylide são alguns amarelos e laranjas.

Os laranjas de Arylide ou Monoazos mais úteis a produção de tinta a óleo (também chamados de Monoazos ou Benzimidazolone) são: PO5**PO36*/** PO34** e o PO62*/** (encontrados de forma pura ou misturados a outros pigmentos). O artista deve dar preferência aos laranjas PO36 e PO62, cotados como os de melhor permanência de todos os Azos laranjas. Note que nenhum laranja dessa família é cotado com índice de permanência excelente (*). É prudente evitar os demais.

Os amarelos feitos com Arylide são quase sempre chamados pelo nome fantasia "Hansa Yellow". Os indices de cor mais comuns na tinta a óleo são: PY3**, PY35*, PY65*, PY73*, PY74*/**, PY83*, PY97*/** e o PY98** (todos encontrados de forma pura ou misturados a outros pigmentos). Note que os amarelos dessa família possuem índices de permanência melhores do que os laranjas.

Os PY3 e PY98 são os Arylides amarelos de pior permanência. Tendem a esmaecer ou a desaparecer quando misturados em pouca quantidade a outros pigmentos mais claros, como o Branco de Titânio. É necessário que o artista preste atenção e adquira somente os Monoazos de permanência máxima, evitando os de permanência questionável. A preferência deve ser dos PY65, PY73 e PY83, sempre que possível. 

Dentre esses amarelos a base de Arylide confiáveis, o Hansa Yellow (PY73/PY83) é um substituto razoável para o amarelo cádmio. Possuem variantes com diferentes graus de opacidade e podem demonstrar um toque um pouco menos alaranjado, as vezes uma sutil inclinação para o verde, mas seu chroma é claramente mais intenso que os cádmios amarelos testados por nós.


PY65 + outro pig.
PY65 + PY74
PY3 puro
PY73 + PY83



















4.3. Naphtol 
Em 1911, surge a substância que originaria o Naphtol (ou Naftol). Atualmente um dos orgânicos sintéticos mais escolhidos pela indústria para obtenção de vermelhos intensos. O Naphtol é muito usado como substituto aos cádmios laranjas e vermelhos, geralmente conseguindo intensidade semelhante ou superior. Assim como a maioria dos orgânicos sintéticos, também possui poder de tingimento superior aos cádmios. 

Quando usado como substituto, geralmente recebe o nome de "Imitação de Cádmio" (Cadmim Hue) ou geralmente algum nome fantasia com alguma alusão a sua natureza, como "Naphtol Red" (Vermelho Naftol), ou algum outro. É provavel que o termo "imitação" seja o grande problema aos olhos do artista. No entanto, a história dos materiais artísticos nos ensina que ser original ou arcaico não é sinônimo de superioridade.

O Naphtol é também usado para simular a cor do clássico pigmento Vermillion (Sulfeto de Mercúrio)Os Naphtois não só nos oferecem inúmeras variantes de vermelhos, mas também laranjas quentes, carmins e violetas. Esses últimos, não são comuns em tinta a óleo. A grande maioria dos naphtóis usados na tinta a óleo são vermelhos, com somente um laranja importante. 

Os índices de cor são: laranja: PO38**; Vermelhos: PR2**, PR5**, PR7*/**, PR8***, PR9*/**, PR14**PR17***, PR22***,PR23***, PR112*/**PR119*PR170** e o PR188*/** (apresentando inúmeras cores diferentes, geralmente puro). Os Naphtois vermelhos mais confiáveis são os PR9, PR112, PR188 e indubitavelmente o PR119.

A maioria das marcas que oferecem Naphtois, como a Gamblin, Winsor & Newton, Daniel Smith, Lukas,Vasari entre outras, categorizam a permanência dos Naphtois como "boa" ou "excelente". O problema é que embora essas empresas categorizem algumas dessas cores com duas estrelas (**), há relatos de artistas que apontam para deficiência em alguns Naftois vermelhos, atingindo na verdade permanência menor (***). Note em nossa lista acima como somente uma das cores, o PR119, possui absoluta certeza de compreender uma estrela (*) na maioria das amostras. Os Naphtois são opacos ou semi-opacos. Talvez sua caracteristica mais diferente quando comparados aos cádmios seja sua falta de opacidade: todos as amostras apresentam corpo um pouco mais transparente do que os Cádmios, embora a diferença em alguns casos seja muito pouca.

Há grande discussão sobre a confiabilidade dos Naphtois. Embora tenhamos feito um teste com número considerável de amostras e tirado nossas próprias conclusões, decidimos ampliar a captação de dados da pesquisa e consultar profissionais brasileiros e estrangeiros para que emitissem suas opiniões sobre o uso de Naphtóis para que a pesquisa pudesse refletir as opiniões de modo mais abrangente. Baseado em nossas pesquisas e nas opiniões de outros artistas, poderíamos dizer que com exceção ao PR119, os Naphtóis não são os melhores vermelhos da família dos orgânicos sintéticos. Eles podem ser substituídos por outros orgânicos sintéticos mais confiáveis, portanto, devem ser evitados. É importante lembrar que nem todos tem a mesma opinião. O grande problema do Naphtol é sua permanência, mas a questão ainda exige um estudo científico que nos responda muitas perguntas e nos apresente provas empíricas definitivas que nos diferencie quais são os processos que produzem Naphtóis confiáveis.


PR170 puro
PR188 puro
PR9 puro
PR112 puro


















4.4. Quinacridones
Famoso principalmente pelos seus matizes magentas e vermelhos violetados, a família do Quinacridona também oferece algumas outras cores avermelhadas e alaranjadas. Foi usado pelos pintores do expressionismo abstrato Norte Americano pelo fato de serem a última novidade naquela época. Hoje, tornaram-se muito mais populares e estão sendo usados amplamente por todas as marcas de tintas, substituindo a maioria dos pigmentos violetas antigos. Os índices de cores compreendem os pigmentos laranja escuro: PO49*; laranja avermelhado: PO48* (geralmente em misturas); vermelho médio: PR209* (geralmente puro) PR207*; violeta/magenta/roxo: PV19*/** (geralmente puro); magenta/rosa: PV42* (geralmente em misturas); magenta: PR122* (geralmente puro ou misturado) e PR202*; vermelho violetado terroso: PR206* (geralmente misturado ou puro). O PV19, oferecido em tons de magenta, vermelho e violeta possuem altíssimo poder de tingimento e chroma. 

O PV19 é provavelmente o pigmento violeta que mais recebe categoria máxima de permanência pelas instituições que controlam a qualidade de tintas e pigmentos. Apesar dos violetas feitos com Dioxazine (veja mais a frente) serem confiáveis e muito usados, é provavel que o PV19 seja atualmente o melhor violeta do mercado. Uma conclusão mais precisa só poderá ser alcançada com maior avanços nos métodos de verificação de permanência.

Ele é um dos substitutos mais usados para o Madder Lake, geralmente acompanhado de algum outro vermelho, quase sempre um Pyrrole (PR264). Todo pintor sabe que a cor mais problemática da história dos pigmentos é o violeta. O Quinacridone (juntamente com o Dyaxozine, a seguir) é revolucionário por produzir os violetas com melhor permanência da história. Todos os Quinacridones são cores de transparência excepcional, quando usados de forma pura e compreendem cores sempre muito duráveis, sempre com excepcionais avaliações de permanência.


PR209 puro
PV19 puro





PV19 puro


PR122 puro








PR202 + outros pig.
PR206 puro













4.5. Perylene
Os dois principais matizes do Perylene são vermelhos magentados e carmins, como o PR122*PR123*, o espetacular PR149* (com inúmeros variantes, quase sempre puro), PR190*, e o PR178*. Além dessas cores o Perylene também é produzido como terra violetada: PR179* (quase sempre puro) e preto esverdeado (tambem chamado de "Preto Paliógeno") PBk31*. Todos os Perylenes, quando puros, são de alta opacidade ou semi-opacidade.

A família Perylene tem permanência excelente, em todas as suas variantes de cores. Seu ponto fraco é a força de tingimento, que parece ser menor do que outros pigmentos orgânicos sintéticos. Ainda assim, são pigmentos que se comparam a força de tingimento de cádmios e superiores aos cromos. São cores muito úteis e notáveis.


PR149 puro
PR149 puro







PR179 puro
PBk31 puro












4.6. Pyrrole (Diketo-pyrrolo)
Essa é a família mais jovem dos orgânicos sintéticos. Aproximadamente seis pigmentos em uso atual pela indústria de tintas a óleo, compreendendo tons de laranja: PO71*, PO73*; escarlate: PR255* (geralmente puro); vermelho: PR254* (puro ou misturado) e finalmente três importantes carmins PR264*/** (puro ou misturado)PR274*/** e o PR177*/** (puro ou misturado). O PR254 mostra-se como um substituto não exatamente ideal ao clássico Madder Lake, mas chega a uma cor próxima. O PR177 (também chamado de Anthraquinone) é um substituto mais razoável ao também clássico Alizarin Crimson (a cor também não é exatamente igual ao do orgânico natural, mas próxima). Por séculos os artistas tiveram problemas com essas lacas (Madder Lake e Alizarin) e o uso dos modernos Pyrroles completa a lacuna de uma cor parecida com boa permanência. Ambas as cores são muito similares, mas com pequenas diferenças em tons secundários (sub-tons). Muitas marcas tem substituído o antigo NR9 e o mais recente PR83 (e variantes PR83:1 e PR83:3) por Pyrroles, mas sempre com alguma mistura de dois ou mais pigmentos orgânicos sintéticos. 

Alguns artistas irão discordar e continuar a usar Naphtois vermelhos pela sua capacidade de gerar sub-tons (tons secundários ou tendências secundárias de cor; exemplo: vermelho violetado) diferentes dos Pyrroles. Mas, como já vimos antes, os Napthois devem ser testados, pois de todas as famílias dos orgânicos sintéticos, são os vermelhos com pior permanência. O artista que deseja força cromática e de tingimento aos seus vermelhos com total segurança (permanência) deve usar os Pyrroles pois são mais confiáveis nesse quesito, sobretudo o fantástico PR254 e o PR255. O PR255 é um excelente substituto para o vermelho de cádmio médio. Um teste rápido mostrará que inclusive possui chroma mais intenso que o cádmio vermelho e o tradicional poder de tingimento superior de todos os orgânicos sintéticos. Algumas amostras possuem opacidade igual ao dos cádmios, enquanto outras, ligeiramente inferior.

Assim como outros orgânicos sintéticos os pyrroles PR255 e o 254 também são usados, (com adição de algum laranja) como um substituto para o clássico Vermillion (PR106). O artista que não faz uso do Vermillion e portanto não preferem seu tom mais rosado e levemente mais frio, mas dão preferência ao tom mais alaranjado e quente do Vermelho de Cádmio, podem usar como os PR255 e PR254 como excepcionais substitutos, produzindo cores muito similares aquelas feitas com Naphtois com a vantagem de terem melhor permanência. Os pyrroles são polivalentes, variando de corpo e podendo atingir boa transparência até corpo mais opaco. Sua grande diferença comparado aos cádmios é sua limitada opacidade, que se mostra pouco mais transparente, em todas as amostras testadas. 


PR177 puro
PR254 puro







PR264 + PB29
PR254 + PR264












4.7. Dioxazine
Desenvolvidos em 1952 pela Hoechst, o Dioxazine hoje é um importante pigmento violeta. É muito comum encontrá-lo junto aos Phtalos para que ele aqueça a cor desses pigmentos tão frios. Juntamente com o PV19 formam a maioria dos roxos ou violetas "permanentes" e das "imitações' de violeta de cobalto. Também são usados para criar uma variação "intensa" de Azul Ultramar (Ultramarine Deep) misturado ao PB29 ou misturados em pouca quantidade aos Pyrroles para obter o Alizarin Crimson permanente. O Dioxazine apresenta duas variantes de cor com os índices PV23*/** e PV37*/**

O pigmento PV23 pode ser processado de várias formas. Dependendo do processamento, atinge inclinações mais avermelhadas ou mais azuladas. Quando inclinado para o azul tem menos permanência (**), e quando inclinado para o vermelho melhor permanência (*), esse fenômeno é melhor observado quando a cor é misturada em menor quantidade a outros pigmentos. Há relatos esparsos de que o PV37 é mais permanente do que o PV23 na tinta a óleo, mas por enquanto não tivemos tempo de testá-lo além de não haver nenhuma prova científica que corrobore com esse dado.



PV23 puro
PV23 puro








PV37 puro
PV37 puro













5. Conclusões
5.1. Misturas vs Mono-pigmentação
Para atingir uma cor específica a indústria de tintas muitas vezes não usa um pigmento puro, mas uma mistura de dois ou mais pigmentos entre sí. Enquanto outros pigmentos orgânicos naturais e inorgânicos costumam apresentar problemas quando misturados, os orgânicos sintéticos são constantemente misturados para atingir uma cor em particular sem oferecer problemas. Surpreendentemente, o procedimento resulta em cores com maior grau de pureza cromática quando comparados a procedimentos de misturas que usam pigmentos que não pertencem a esse grupo. 


Por exemplo, se fizermos a mistura de um ou dois cádmios e mais um cromo, essa mistura será menos cromática do que a mistura de vários orgânicos sintéticos juntos para obter cor similar. Isso se deve a seu alto grau de tingimento e ao tamanho e formato de suas partículas. Portanto, uma cor formada de dois ou mais orgânicos sintéticos não deve ser considerada inferior.

5.2. Permanência

Embora todos os pigmentos desse grupo tenham excelente permanência, dependendo da marca de tinta ela pode variar. Isso está diretamente relacionado ao processo de fatura e de fixação. Alguns desses procedimentos são mais sofisticados (e mais dispendiosos) do que outros. Para atingir um maior grau de permanência, algumas dessas cores necessita de aparatos e sistemas que nem todos os fabricantes estão dispostos a aplicar devido ao incremento de custo. É por isso que os graus de permanência dados pelas diversas instituições que estudam o comportamento desses pigmentos podem apresentar resultados tão diferentes, muitas vezes completamente opostos. É comum por exemplo, encontrar Naphtois que receberam diferentes notas de permanência por diferentes instituições ou empresas reguladoras. Certas marcas que usam esse pigmento já possuem fama de impermanente, enquanto em outras não parece apresentar o problema.


Arylide

Em teoria, todo pigmento desse grupo é de permanência absolutamente confiável. Na prática, não é confiável ser tão otimista: as maneiras de produzí-los podem variar e resultar em produtos com variações de qualidade. Não há como saber quais desses produtos é o mais permamente simplesmente confiando nos rótulos, todos devem ser testados, pois o consumidor não tem a informação precisa de como determinado pigmento de uma marca é feito. É exatamente por isso, que o artista deve testá-los e confiar somente nos resultados obtidos no ateliê e não naquilo que anuncia o fabricante. Uma outra forma de contornar o problema, caso o artista não queira testar marca por marca, é simplesmente não confiar em nenhum pigmento que não apresente nota ou código máximo de permanência na tabela de cores de determinada marca. 


É necessário lembrar que a vasta maioria dos orgânicos sintéticos possuem permanência inquestionáveis, como os Pthalos, Dioxazine, Pyrroles, Perylenes e Quinacridones. Dentro de cada um desses "sub-grupos", há um ou outro questionáveis, como a família dos Naphtois e alguns Arylides que deve ser sempre testada ou evitada.

5.3. Toxidade

Os cromos e os cádmios são tóxicos, a passo que os orgânicos sintéticos são atóxicos. Tanto para a indústria quanto para o artista, temos nesse quesito uma enorme vantagem. Nenhum artista irá se intoxicar e a industria nunca precisará restringir a maneira de manuseio, fabricação, transporte ou uso do pigmento. Pode parecer pouca coisa, mas é uma questão séria que determina o destino do produto. Isso também quer dizer que esses pigmentos poderão continuar circulando por muito tempo e continuar a ser estudado e modificado até que seja melhorado ainda mais.

5.4. Força de Tingimento 
Quando a industria usa esse grupo de pigmentos, há como se obter uma tinta de alta intensidade cromática que cromatize as misturas em alto grau sem necessariamente fazer uso de grande quantidade de pigmento. Antes, sem os pigmentos orgânicos sintéticos, quando uma empresa desejava uma cor que contaminasse com muito poder as misturas numa paleta, era necessário o uso de maior quantidade de pigmento em sua composição. 

Com a propriedade de alta força de tingimento dos sintéticos orgânicos, há uma grande economia de carga pigmentária pois o que faz dele intenso e forte não é a quantidade de partículas na pasta, mas sim a forma e tamanho das mesmas. Dessa forma, a indústria consegue tintas de alto grau cromático sem necessariamente ter de arcar com grandes quantidades de pigmento. 


Uma das muitas empresas americanas apostando em Orgânicos Sintéticos

5.5. Opacidade 
Os orgânicos sintéticos não possuem exatamente a mesma opacidade dos cádmios e cromos. Nos melhores casos, chegam muito perto, mas mesmo os mais densos mostram um certo grau de transparência maior que os cádmios, quando alastrados com mais força ou quando formam uma película mais fina. 

Essa diferença é muito menor quando usamos os orgânicos em impastos, com alta carga de tinta no suporte. Nesse caso, os orgânicos não oferecem grandes diferenças dos cádmios e cromos. Portanto, se a preocupação com o corpo da tinta em pinturas alla prima, de forma direta e generosa, é a insuficiência de opacidade, o artista não terá com o que se preocupar.

5.6. Misturas (Tint
Os países de língua inglesa possuem um termo voltado a mistura de cores denominado tint. Ele se aplica a quando misturamos uma cor ao branco, formando uma cor do mesmo matiz da cor original, no entanto mais clara. A execução de um tint é valioso ao artista, pois é somente com ele que descobrimos as nuances secundárias das cores e também é a única forma de descobrir a carga pigmentária de uma tinta, assim como seu poder de tingimento.


Os testes de tint com os orgânicos sintéticos comparados aos cromos e cádmios nos revelam que uma importante característica desses pigmentos é o fenômeno de que os orgânicos "acinzentam" ou perdem seu croma com menor intensidade do que os cromos e cádmios. Apesar do fenômeno ser sutil, foi possível notá-lo em uma série de amostras.

Apesar de algumas amostras serem tintas de linha profissionais, enquanto outras eram de linhas intermediárias e outras de linha estudante, essa sutil diferença foi observada em tintas de linhas compatíveis, nos levando a crer que não se trata de diferentes cargas pigmentárias, mas na diferença molecular dos orgânicos sintéticos, também responsável por seu poder de tingimento. De qualquer forma, estamos convencidos de que os orgânicos sintéticos possuem maior resistência do que cromos e cádmios em misturas, sendo pigmentos mais potentes.

5.7. Preço e Viabilidade
Embora os cádmios tenham preços muito altos, o mesmo acontece com alguns orgânicos sintéticos. Sabemos que a tecnologia necessária para fazê-los não é simples, mas a industria ainda deverá responder por que pigmentos mais seguros e teoricamente mais simples de se produzir continuam a serem distribuídos com preços comparáveis aos dos cádmios.


Ftalos

6. Mais informações
Para os artistas que por ventura quiserem estudar de forma mais profunda o assunto: algumas empresas trabalham com uma cartela de cores com maior incidência de orgânicos sintéticos do que outras marcas. As principais são a Daniel Smith, Gamblin, Blue Ridge, M. Graham e a Vasari. No entanto, quase todos os produtores hoje trabalham com pelo menos algumas cores de orgânicos sintéticos em sua carta ou tabela de cores, como o caso da Winsor & Newton, Lukas e Schmincke. É trabalho do artista analisar e entender quais cores são compostas desses pigmentos na tabela de cores de sua marca de tinta favorita e testá-las, comparando a outras famílias de pigmentos de alto croma.

A Cozinha da Pintura agradece os seguintes pintores e profissionais que colaboraram com esse artigo, respondendo exclusivamente sobre suas impressões acerca do uso de Naphtóis Vermelhos: Rovenzo Trotta (Brasil), Jociele Lampert (Brasil), Ron Francis (EUA), Mat Ollig (EUA), Kirk Lybecker (EUA), Don Nederhand (Consultor Técnico da Talens - Holanda), Jesser Valzacchi (Brasil), Scott Gellatly (Gerente de Produtos da Gamblin - EUA), Weslei Lopes Sanches (São Paulo), Luiz Antônio Morato (São Paulo).


Agradecimentos especiais a Lukas do Brasil e a M. Graham, pelo fornecimento de alguns pigmentos que nos faltavam para a conclusão do artigo! Fonte das fotos de produção de tinta: M. Graham.